Longe da pressa do Réveillon, fiéis celebram a Rainha do Mar com fundamento, consciência ambiental e respeito ancestral

Enquanto milhões de brasileiros associam Iemanjá à virada do ano, entre fogos, multidões e pedidos lançados às pressas no mar, as religiões de matriz africana seguem outro calendário — e outra lógica. Para elas, o verdadeiro Dia de Iemanjá é 2 de fevereiro, data marcada não pelo espetáculo, mas pelo fundamento. Sim, Umbanda tem fundamento.

É neste dia que filhos e filhas de santo se dirigem às praias com mais calma, menos ruído e mais consciência, com os pés no chão, ou melhor, na areia da praia. Sem a urgência do meia-noite da virada, até o próprio mar está mais sereno, o gesto se torna mais respeitoso e a oferenda mais conectada ao sentido original da fé e da magia do momento.

Iemanjá não é entidade de ocasião. É mãe, é origem, é senhora das águas salgadas e a mais poderosa das Iabás. Ela é pertencimento. A Rainha do Mar lembra que todos nós temos mãe, e é aí que a fé abraça a ciência, pois hoje você sabe que toda vida na terra se originou nos oceanos. Ou seja, somos todos e todas, filhos e filhas de Iemanjá.

Mas, muita atenção! Não se agrada com excesso, plástico, vidro ou descarte irresponsável. O que chega até ela deve carregar axé — e não lixo. Uma dica é apenas abrir uma garrafa de espumante após pular sete ondas, abrir o espumante e despejar o líquido mar, ofertando a Iemanjá - saindo com a rolha a garrafa para descartar em local apropriado.

Fé também é cuidado com o mar

Nos últimos anos, cresce entre os próprios fiéis a defesa de oferendas sustentáveis e biodegradáveis, em diálogo direto com a preservação ambiental. Flores naturais sem embalagens, alimentos orgânicos, perfumes sem vidro e a ausência de plásticos, metais ou espelhos.

Essa postura não representa ruptura com a tradição, mas o oposto: é o retorno ao fundamento. A espiritualidade afro-brasileira sempre entendeu a natureza como sagrada — e o oceano como morada viva, não como depósito. Seja na Umbanda, no Candomblé, Batuque, Catimbó, Quimbanda ou Omolokô, a consciência ambiental é uma só.

Salvador e Rio: o mesmo orixá, tempos diferentes

Em Salvador, especialmente no bairro do Rio Vermelho, o dia 2 de fevereiro segue como a principal referência para a celebração de Iemanjá. Fiéis se organizam desde cedo para entregar presentes com respeito, muitos deles conduzidos por pescadores.

No Rio de Janeiro, praias como o Arpoador recebem cortejos, cantos e flores brancas. Também ali cresce a consciência de que o gesto espiritual não deve agredir o próprio mar que se deseja agradar.

Entre crença popular e saber ancestral

A popularização das oferendas na noite de Ano Novo deu visibilidade internacional a Iemanjá, mas também gerou distorções. O que para muitos é tradição festiva, para os povos de terreiro é expressão de fé com tempo, regra e fundamento.

Celebrar Iemanjá em 2 de fevereiro é um gesto de respeito às religiões de matriz africana e um convite à reflexão sobre como o Brasil consome símbolos sagrados. Quando o mar está mais calmo, Iemanjá escuta melhor. 

E, se no momento você não está em uma das milhares de maravilhosas praias brasileiras, aoenas mentalize o oceano, se imagine à beira da praia. Deixe seus pensamentos fluirem com as ondas do mar. Deixe e a preocupação toda se dissipar na grandeza do oceano e mentalmente faça sua oferenda. Como dizia o grande poeta e místico William Blake: "O mundo da imaginação é o mundo dos espíritos."

Odoiá, minha mãe.