segunda-feira, 18 de maio de 2026

Ateliês de Nise da Silveira completam 80 anos e seguem transformando vidas pela arte e pelo cuidado

Experiência criada em 1946 revolucionou a saúde mental no Brasil ao substituir práticas violentas por acolhimento, expressão artística e dignidade humana

Experiência criada em 1946, por Nise da Silveira, revolucionou saúde mental no Brasil, trocando práticas violentas por expressão artística e dignidade
Ateliê do Museu de Imagens do Inconsciente - Divulgação - Museu de Imagens do Inconsciente

Há lugares onde a arte não nasce apenas da inspiração. Ela brota da sobrevivência. Vive e se atualiza na resistência.

Em uma sala silenciosa no bairro Engenho de Dentro, na zona norte do Rio de Janeiro, pincéis continuam deslizando sobre telas enquanto mãos moldam barro, bordam memórias e reinventam existências. O espaço parece simples à primeira vista, mas carrega uma das experiências mais revolucionárias da história da psiquiatria brasileira.

Neste 18 de maio, os ateliês terapêuticos criados pela médica psiquiatra Nise da Silveira completam 80 anos.

O aniversário marca não apenas a longevidade de um projeto pioneiro, mas a permanência de uma ideia que atravessou décadas enfrentando preconceitos, manicômios e tratamentos violentos: a noção de que pessoas em sofrimento psíquico precisam, antes de tudo, de escuta, dignidade e afeto.

A arte contra o silêncio dos manicômios

Criados em 1946, os ateliês surgiram como alternativa aos métodos considerados padrão na época — eletrochoques, isolamento e lobotomia. Enquanto boa parte da psiquiatria apostava na repressão da subjetividade, Nise fazia o caminho oposto: oferecia liberdade criativa.

Hoje, os espaços integram o Museu de Imagens do Inconsciente, no Rio de Janeiro, considerado referência internacional em arteterapia e saúde mental. Ali está guardado o maior acervo do mundo do gênero: mais de 400 mil obras produzidas por pacientes ao longo de décadas. Desse total, 128 mil foram tombadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Quando a arte fala o que a dor não consegue dizer

Os ateliês seguem funcionando diariamente e atualmente atendem dezenas de pessoas encaminhadas pelo SUS, pelos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) e por clínicas da família.

Dentro do método criado por Nise, ninguém é tratado apenas como paciente. Ela preferia chamá-los de “clientes”, numa tentativa de romper com a lógica manicomial tradicional que colocava pessoas em sofrimento psíquico em posição passiva diante do tratamento.

Hoje, sete atividades seguem ativas: pintura, cerâmica, teatro, ritmologia, corpo e movimento, atividades plásticas e rodas voltadas às questões femininas.

Segundo disse a psicóloga Adriana Lemos, coordenadora dos ateliês, à Agência Brasil, a arte muitas vezes alcança aquilo que a linguagem verbal não consegue expressar.

“O sofrimento não é apenas psíquico. Existe também toda uma vulnerabilidade social.”

Ela relata que alguns frequentadores conseguiram retomar vínculos familiares, ampliar autonomia e até ingressar no ensino superior. Neste ano, três participantes iniciaram cursos em instituições públicas do Rio de Janeiro.

A médica que revolucionou a psiquiatria brasileira

Nascida em Maceió, em 1905, Nise da Silveira enfrentou forte resistência dentro da própria medicina ao rejeitar tratamentos agressivos que dominavam a psiquiatria da época.

Inspirada também pelas ideias do psiquiatra suíço Carl Gustav Jung, ela passou a enxergar a arte como um caminho legítimo de reorganização emocional e reconstrução subjetiva.

Ao longo das décadas, seus ateliês deixaram de ser vistos apenas como “terapia ocupacional” e passaram a despertar interesse científico, artístico e acadêmico em diversos países.

Dragões, bordados e reconstruções silenciosas

No Centro Psiquiátrico do Rio de Janeiro, que também replica o modelo criado por Nise da Silveira, histórias de transformação seguem acontecendo diariamente.

Uma delas é a de Israel Alves Correia, conhecido pelos dragões que cria a partir de materiais reaproveitados como PVC, embalagens e peças plásticas.

Durante quase duas décadas ele produziu esculturas de bois e berrantes, até encontrar nos dragões sua principal forma de expressão artística.

Ele não vende as obras.

“Quem quiser ver meus trabalhos venha aqui.”

Para terapeutas e profissionais da saúde mental, os ateliês funcionam como espaços de ancoragem emocional, acolhimento e reconstrução de vínculos.

Um legado que segue vivo

As comemorações pelos 80 anos dos ateliês acontecem justamente no Dia Nacional da Luta Antimanicomial, celebrado em 18 de maio.

Ao longo de todo o ano, o Museu de Imagens do Inconsciente abrirá os ateliês ao público em atividades gratuitas de criação livre e expressão artística.

A programação inclui fóruns científicos, exposições, cursos, debates e o lançamento do documentário Um Caminho para o Infinito: Emygdio de Barros, dedicado a um dos artistas revelados pelos ateliês de Nise.

O museu também trabalha na publicação internacional de livros da psiquiatra em inglês, francês e espanhol, além de ampliar intercâmbios com instituições estrangeiras interessadas em adaptar sua metodologia.

O objetivo é fazer com que as ideias de Nise da Silveira continuem atravessando universidades, políticas públicas e serviços de saúde mental no Brasil e no exterior.

Oito décadas depois, seus ateliês seguem lembrando algo que ainda parece urgente no mundo contemporâneo: cuidar de alguém também pode ser um ato de escuta, liberdade e criação.

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