Reportagem aponta negociação de R$ 134 milhões para produção sobre Jair Bolsonaro; novo desgaste atinge pré-campanha em meio à recuperação de Lula nas pesquisas
O clima político em Brasília mudou de temperatura nesta quarta-feira, 13 de maio. E mudou rápido. Uma reportagem publicada pelo The Intercept Brasil lançou uma nova onda de pressão sobre o senador Flávio Bolsonaro, hoje apontado como principal nome do bolsonarismo para a disputa presidencial de 2026. A investigação afirma que o parlamentar teria negociado diretamente com o banqueiro Daniel Vorcaro um repasse de US$ 24 milhões — cerca de R$ 134 milhões na cotação da época — para financiar “Dark Horse”, filme biográfico sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.
A denúncia chega em um momento particularmente sensível para a campanha de Flávio. Horas antes da repercussão explodir, levantamentos da Genial/Quaest já apontavam uma recuperação do presidente Lula nas intenções de voto para 2026, revertendo parte do desgaste observado nos últimos meses.
O efeito político foi imediato. Mercado financeiro reagiu, aliados silenciaram e integrantes do PL passaram a monitorar os danos nos bastidores.
Fontes ouvidas pelo Sulpost no fechamento desta reportagem afirmaram que dirigentes do PL já começaram a discutir internamente o impacto do escândalo não apenas sobre a pré-campanha presidencial de Flávio Bolsonaro, mas também sobre candidaturas estaduais associadas ao bolsonarismo.
Entre as preocupações levantadas nos bastidores está o possível desgaste de aliados estratégicos nos estados, como o senador Sergio Moro, no Paraná, que hoje mantém alinhamento político com Flávio Bolsonaro e setores do PL nacional. Segundo interlocutores consultados pela reportagem, existe temor de que a repercussão negativa contamine palanques regionais antes mesmo do início oficial da campanha eleitoral.
“Irmão, estou e estarei contigo sempre”
A frase atribuída a Flávio Bolsonaro se tornou o principal símbolo da reportagem. Segundo o Intercept, a mensagem foi enviada por WhatsApp em 16 de novembro de 2025, um dia antes da prisão de Daniel Vorcaro. O banqueiro foi detido sob acusações relacionadas a um esquema financeiro que teria provocado um rombo bilionário no Fundo Garantidor de Crédito, o FGC. Dois dias depois, o Banco Master sofreu intervenção e liquidação pelo Banco Central.
Na conversa divulgada pelo site, Flávio escreve:
“Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz!”
As mensagens, segundo a investigação, fazem parte de um conjunto maior de documentos, comprovantes bancários, cronogramas de pagamentos e áudios que indicariam o financiamento da produção cinematográfica ligada à família Bolsonaro.
O Intercept afirma que pelo menos US$ 10,6 milhões — aproximadamente R$ 61 milhões — teriam sido pagos entre fevereiro e maio de 2025 em seis operações diferentes.
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| The Intercept Brasil - Reprodução |
O filme “Dark Horse” e os bastidores do bolsonarismo
O projeto cinematográfico aparece na investigação como uma produção internacional articulada por aliados próximos do clã Bolsonaro. Entre os nomes mencionados estão o deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro e o deputado Mario Frias, ex-secretário especial da Cultura do governo Bolsonaro.
Segundo a apuração, parte do dinheiro teria sido enviada para o fundo Havengate Development Fund LP, sediado no Texas, nos Estados Unidos, e ligado a aliados de Eduardo Bolsonaro. A reportagem também menciona a participação do empresário Thiago Miranda, ligado ao Portal Leo Dias, e do pastor Fabiano Zettel, apontado pela Polícia Federal como operador financeiro de Vorcaro.
Os diálogos divulgados mostram um ambiente de forte proximidade pessoal entre o senador e o banqueiro. Em um dos áudios revelados, Flávio demonstra preocupação com atrasos nos pagamentos da produção.
“Fico sem graça de ficar te cobrando, mas está num momento muito decisivo do filme.”
A investigação afirma ainda que Vorcaro acompanhava pessoalmente o fluxo dos pagamentos e tratava o projeto como prioridade.
Flávio nega e reage com ironia
Questionado presencialmente pelo Intercept nesta quarta-feira, próximo ao Supremo Tribunal Federal, Flávio Bolsonaro negou a denúncia.
“De onde você tirou essa informação? É mentira”, respondeu o senador antes de deixar o local rindo, segundo o relato da reportagem.
Até o momento, nem Flávio, nem Eduardo Bolsonaro haviam apresentado documentos públicos rebatendo os materiais divulgados.
A defesa de Mario Frias confirmou que houve contatos com Vorcaro, mas sustentou que se tratava apenas de uma relação legítima entre produtores culturais e um possível financiador privado.
Lula reage nas pesquisas enquanto oposição enfrenta turbulência
O escândalo, com capacidade de implodir a campanha de Flávio bolsonaro — que ainda nem começou — vem justamente quando a disputa presidencial começava a mostrar mudança de cenário.
A nova rodada da pesquisa Genial/Quaest, divulgada também nesta quarta-feira, mostra Lula recuperando terreno na corrida presidencial. Em simulações de segundo turno, o presidente voltou a aparecer numericamente à frente de Flávio Bolsonaro.
- Lula aparece com 42% contra 41% de Flávio em um cenário de segundo turno;
- No primeiro turno, o presidente também ampliou vantagem;
- Analistas atribuíram parte da recuperação à melhora da percepção econômica entre eleitores independentes.
Nos bastidores políticos, interlocutores avaliam que a denúncia envolvendo Vorcaro pode aumentar a rejeição do senador justamente entre eleitores moderados — faixa considerada decisiva para 2026.
Um novo capítulo na disputa de 2026
A repercussão da reportagem ainda está longe de terminar. Serão varia repercussões. Partidos de oposição já articulam pedidos de investigação, enquanto aliados bolsonaristas tentam enquadrar o caso como perseguição política e ataque eleitoral antecipado.
O problema para o entorno de Flávio Bolsonaro é que a denúncia atinge um ponto especialmente delicado: a relação financeira entre política, empresários investigados e um projeto cinematográfico ligado diretamente à imagem da família Bolsonaro.
Agora, segundo relatos obtidos pelo Sulpost, o temor dentro do PL é que o impacto político ultrapasse Brasília e alcance disputas estaduais consideradas estratégicas para o partido em 2026. Em ano pré-eleitoral, isso costuma produzir um efeito dominó, difícil de controlar. E Brasília sabe disso.



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