Estado tem índice de 30% de recusa, bem abaixo da média nacional, e consolida modelo baseado em acolhimento humano e eficiência técnica
| Foto: Albari Rosa - Arquivo SESA/AEN |
Há algo silencioso, mas importante, acontecendo nos corredores e centros cirúrgicos dos hospitais do Paraná. Não aparece nos boletins diários, não vira manchete imediata — mas salva vidas todos os dias. É o momento em que uma família, mesmo atravessada pela dor, diz “sim”.
Esse gesto, quase sempre íntimo e difícil, tem colocado o Estado em uma posição singular no país. Segundo dados da Agência Estadual de Notícias e do Registro Brasileiro de Transplantes (RBT), o Paraná possui hoje a menor taxa de recusa familiar para doação de órgãos do Brasil: 30%. Um número que, ao lado de Santa Catarina, contrasta com a média nacional, que ainda gira em torno de 45%.
Por trás dessa estatística existe uma engrenagem complexa — e profundamente humana. Existe também uma história.
Mariana Chuch tem apenas 17 anos e fala sobre o futuro com uma naturalidade que impressiona. Planeja prestar vestibular para Psicologia, inspirada pela mãe. Quer estudar, trabalhar, viver. Parece simples — mas não é.
Transplantada de coração há quase um ano, ela carrega no peito mais do que um órgão novo. Carrega a possibilidade.
“Estou pronta para viver plenamente todas as oportunidades que vierem pela frente”, disse a jovem à reportagem da AEN.
A trajetória até aqui não foi leve. O diagnóstico veio cedo — cedo demais. Com apenas sete dias de vida, Mariana já enfrentava uma miocardiopatia dilatada no ventrículo esquerdo. Cresceu entre consultas, exames, adaptações. Seguiu. Resistiu. É uma sobrevivente. Mas o corpo cobrou seu preço.
No ano passado, um AVC mudou o rumo da história da moça. Em seguida, uma trombose. O coração, já fragilizado, não sustentou. A indicação para transplante veio imediata. Era urgente. Após um mês depois da internação, surgiu um órgão compatível. Entre o medo e a esperança, ela entrou na sala de cirurgia.
“Eu acreditava na vida, mesmo com todos os riscos”, relembra.
A recuperação exigiu tempo. Um mês internada, adaptação a medicamentos, um novo ritmo. Um novo corpo, de certa forma. Hoje, recuperada, Mariana olha para frente — e não para trás. E a história dela não é isolada.
Na casa da família Chuch, a doença tem origem genética. O irmão, Henrique, de 11 anos, e a mãe, Sibele, compartilham o diagnóstico. Ainda assim, a palavra que define o ambiente não é fragilidade — é força, é resistência.
“Nunca deixamos que eles se sentissem limitados”, conta Sibele. “A vida não pode ser definida pela doença, mas pelos momentos.”
Há também fé. E uma espécie de disciplina emocional que sustenta o cotidiano.
“Mariana nunca reclamou. Nunca desistiu”, diz a mãe.
A experiência transformou todos ali. Hoje, a família inteira se declara doadora de órgãos. Não como discurso — mas como decisão. Porque entenderam, na prática, o que isso significa.
Sistema eficiente, decisão humana
No Paraná, esse entendimento vem sendo construído com método. Não é apenas uma questão cultural, embora a solidariedade pese. Existe estrutura. Existe estratégia. Há um trabalho dentro dos hospitais para conscientizar familiares de pessoas recém falecidas pela doação de órgãos.
O Sistema Estadual de Transplantes opera com padronização de protocolos, monitoramento rigoroso e integração entre equipes hospitalares, Organizações de Procura de Órgãos (OPOs) e a Central Estadual de Transplantes.
Mas o ponto mais delicado — e decisivo — continua sendo a conversa com a família. É nela que tudo se resolve.
Segundo o novo secretário estadual da Saúde, César Neves, que assumiu o lugar do ex-secretário Beto Preto, a qualificação dessas equipes tem impacto direto nos resultados. A abordagem precisa ser técnica, mas também sensível. Clara, mas respeitosa.
“Priorizamos um acolhimento familiar humanizado e multiprofissional”, afirma o secretário.
E funciona. Um único doador pode salvar até oito vidas. Em 2025, o Paraná realizou 773 transplantes — incluindo 31 de coração. Só nos dois primeiros meses de 2026, já foram 123 órgãos doados, com três transplantes cardíacos realizados.
Os números acompanham uma tendência nacional: rins e córneas lideram. No Brasil, foram quase 5 mil transplantes renais e mais de 13 mil de córnea em 2025. No Paraná, 445 transplantes de rins e 1.066 de córneas foram viabilizados no mesmo período. Em 2024, o Estado atingiu um recorde: 896 órgãos doados e 1.247 córneas.
A decisão começa em vida
Mas há um ponto essencial — e ainda pouco compreendido. No Brasil, ninguém é doador sozinho. A decisão final é sempre da família.
Por isso, declarar esse desejo em vida faz toda a diferença. É o que orienta a coordenadora do Sistema Estadual de Transplantes, Juliana Ribeiro Giugni. Sem essa conversa prévia, o processo pode simplesmente não acontecer. E tempo, nesse contexto, é tudo.
Os órgãos seguem critérios rigorosos de distribuição, com base em uma lista única nacional. Gravidade do paciente, compatibilidade, tempo de espera — tudo é considerado. O sistema é fiscalizado pelo Ministério da Saúde.
Mas nada disso começa sem um “sim”. É um detalhe pequeno, aparentemente. Mas que muda destinos inteiros. Sem o consentimento da família não existe a doação.
Mariana sabe disso melhor do que ninguém. Para ela, o novo coração não é apenas uma continuidade. É um recomeço, pelo qual ela será sempre grata.
| Mariana Chuch - Reprodução/Redes Sociais |
“É uma segunda chance. Para mim e para todos que me amam.”
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