domingo, 24 de maio de 2026

Raízes Agroecológicas fortalece sementes crioulas e une comunidades do Nordeste em resposta às mudanças climáticas

Projeto trinacional apoiado pela União Europeia quer alcançar 5 mil famílias agricultoras no Brasil, Argentina e Paraguai, valorizando guardiãs e guardiões de sementes e ampliando corredores agroecológicos no Semiárido

 
Raízes Agroecológicas fortalece sementes crioulas e une comunidades do Nordeste em resposta às mudanças climáticas. Projeto trinacional apoiado pela União Europeia quer alcançar 5 mil famílias agricultoras no Brasil, Argentina e Paraguai, valorizando guardiãs e guardiões de sementes e ampliando corredores agroecológicos no Semiárido.
Oficina de implantação de corredor agroecológico na comunidade Dispensa, em Itabaianinha (SE), no âmbito do Projeto Raízes Agroecológicas (GP-SAEP) - Foto: © Saulo Coelho

Em meio ao avanço das mudanças climáticas e da pressão sobre a agricultura tradicional, comunidades rurais do Nordeste brasileiro estão transformando resistência em projeto de futuro. O Raízes Agroecológicas vem articulando agricultores, movimentos populares, pesquisadores e instituições públicas em torno de uma missão que mistura ciência, ancestralidade e soberania alimentar: proteger sementes crioulas e fortalecer sistemas agroecológicos capazes de manter o campo vivo.

Financiado pelo Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA), com recursos da União Europeia em uma doação de 4 milhões de euros, o projeto é executado pelo Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA), com liderança técnica da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

De acordo com a Agência de Notícias das Nações Unidas, a iniciativa pretende alcançar 5 mil famílias agricultoras nos três países participantes — Brasil, Argentina e Paraguai. Só no território brasileiro, cerca de 2,6 mil famílias devem ser atendidas em 15 municípios da Bahia e de Sergipe, com possibilidade de expansão ao longo da implementação.

Guardiões da biodiversidade

Mais do que incentivar a produção agrícola, o projeto busca reconhecer o trabalho silencioso de guardiãs e guardiões de sementes crioulas, responsáveis por preservar variedades adaptadas às condições locais ao longo de gerações.

“A proposta conecta organizações da sociedade civil, instituições de pesquisa e comunidades rurais para fortalecer a conservação da agrobiodiversidade e ampliar a autonomia produtiva diante das mudanças climáticas.”

Em Sergipe, a implementação acontece por meio do Movimento Camponês Popular (MCP-SE) e da Associação de Camponesas e Camponeses do Estado de Sergipe (ACCESE). Já na Bahia, o trabalho reúne a Associação Regional de Convivência Apropriada ao Semiárido (ARCAS), o Serviço de Assessoria a Organizações Populares Rurais (SASOP) e o Movimento dos Pequenos Agricultores/Cooperativa Mista de Produção e Comercialização Camponesa da Bahia (MPA/CPC).

Corredores agroecológicos ganham força

Uma das estratégias centrais do Raízes Agroecológicas é a implantação de corredores agroecológicos — espaços vivos de aprendizagem, experimentação e multiplicação de sementes crioulas.

Inicialmente, estão previstos 26 corredores na Bahia e 18 em Sergipe. Nessas áreas, os cultivos são organizados em faixas intercaladas que combinam alimentos como milho e feijão com plantas de adubação verde, entre elas crotalária juncea, feijão-de-porco e feijão guandu.

O sistema ajuda a recuperar a fertilidade do solo, melhora o manejo natural de pragas e fortalece a conservação ambiental. Bioinsumos produzidos pelas próprias famílias agricultoras também fazem parte da metodologia.

“Os corredores funcionarão como polos permanentes de observação e seleção genética, permitindo que agricultoras e agricultores recuperem sementes que vêm se perdendo ao longo do tempo.”

O trabalho está ligado ao chamado Melhoramento Genético Participativo descentralizado, desenvolvido pela Embrapa, permitindo que agricultores observem, selecionem e recuperem variedades mais resistentes às realidades locais.

Conhecimento construído coletivamente

Entre os dias 12 e 15 de maio, cerca de 50 participantes — entre agricultores, movimentos sociais, equipes técnicas e instituições públicas — participaram de oficinas em Aracaju, Itabaianinha e Riachão do Dantas, em Sergipe.

As atividades incluíram diagnósticos participativos da agrobiodiversidade, ferramenta que identifica espécies existentes, práticas tradicionais de manejo, variedades locais e prioridades definidas pelas próprias comunidades.

Pelo terceiro ano consecutivo, corredores agroecológicos foram implementados em Itabaianinha e Riachão do Dantas, consolidando espaços permanentes de observação e seleção genética conduzidos pelas próprias famílias agricultoras.

Agroindústria fortalece renda e alimentação

Um dos momentos mais simbólicos da programação foi a visita à agroindústria comunitária de flocão de milho crioulo do Movimento Camponês Popular, em Riachão do Dantas.

A estrutura, em fase final de implantação, integra produção, beneficiamento e comercialização do milho crioulo, fortalecendo canais como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e as feiras agroecológicas.

O projeto também apoia a futura Unidade de Beneficiamento de Sementes (UBS) crioulas, que ampliará o aproveitamento da produção, inclusive para fabricação de ração animal. O Raízes Agroecológicas contribui com maquinários e com a construção do galpão de beneficiamento.

Na prática, a experiência mostra como tecnologias adaptadas à agricultura familiar podem gerar renda, fortalecer territórios e ampliar o acesso da população a alimentos saudáveis — do campo à mesa.

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