Dos “óculos da discórdia” à inteligência artificial, a tecnologia avança sobre a vida cotidiana. A questão já não é apenas o que as máquinas podem fazer, mas quais limites nós, como sociedade, estamos dispostos a impor a elas
“Resistir é inútil. Vocês serão assimilados.”
A frase dos Borgs, em Jornada nas Estrelas, foi criada para um universo de ficção científica. Mas, olhando para o mundo de hoje, ela começa a ganhar um sentido quase desconfortavelmente real.
Os chamados “óculos da discórdia”, como vêm sendo apelidados os Meta Ray-Ban, são um bom exemplo.
Por trás de uma aparência semelhante à de um simples par de óculos estão câmeras, microfones e recursos avançados de inteligência artificial. Um objeto cotidiano passa a enxergar, ouvir e interpretar o ambiente ao redor.
E aí surgem perguntas que não são de ficção científica.
Quem está sendo filmado sabe? Quem autorizou? O que a inteligência artificial está identificando? Onde essas informações são armazenadas? Quem poderá acessá-las?
Não é exatamente uma discussão nova. É apenas uma nova etapa de uma velha relação entre seres humanos e tecnologia.
| A borg '7 de 9', de Star Trek, interpretada por Jeri Ryan - Reprodução |
Toda novidade já foi um pouco assustadora
Quase toda tecnologia que hoje consideramos banal já provocou estranhamento, medo ou controvérsia quando chegou às ruas. A bicicleta, por exemplo, transformou-se em símbolo de liberdade e mobilidade no século XIX, mas também mexeu com costumes, comportamento, segurança e convenções sociais. A circulação de mulheres em bicicletas, inclusive, chegou a ser tratada como ameaça aos padrões morais da época.
Depois vieram o telefone, o rádio, a televisão, o automóvel, o computador, o celular, a internet e, finalmente, as redes sociais. Cada uma dessas tecnologias alterou hábitos. Algumas provocaram pânico. Outras foram tratadas como maravilhas capazes de transformar definitivamente a humanidade.
No fim, quase todas foram assimiladas. E talvez esteja aí a parte mais interessante da história.
Assimilar não significa aceitar tudo
O fato de uma tecnologia se popularizar não significa que ela seja necessariamente boa, segura ou socialmente desejável. É justamente no período em que uma inovação ainda provoca estranhamento que a sociedade deveria discutir seus limites.
Foi assim com o trânsito. Com as telecomunicações. Com a proteção de dados. Com a exposição de crianças na internet. E precisa ser assim também com a inteligência artificial. O problema dos óculos inteligentes talvez não esteja simplesmente na existência da tecnologia.
O problema é a fronteira cada vez mais tênue entre estar no mundo e estar sendo observado por ele. A câmera já estava no bolso de quase todo mundo. Agora ela pode estar diante dos nossos olhos.
E não apenas registrando. Pode ouvir. Reconhecer. Interpretar. Traduzir. Identificar pessoas e objetos. Produzir informações a partir daquilo que acontece diante de nós. A tecnologia deixa de ser apenas uma ferramenta que usamos. Ela começa a participar da maneira como percebemos o mundo.
Quem controla quem?
É aqui que a metáfora dos Borgs deixa de ser apenas uma brincadeira.
“Resistir é inútil. Vocês serão assimilados.”
Talvez sejam mesmo. A história mostra que sociedades dificilmente conseguem impedir indefinidamente o avanço tecnológico. Mas isso não significa que precisemos entregar às máquinas o comando sobre nossas escolhas, nossa privacidade ou nossos direitos.
Existe uma diferença fundamental entre ser assimilado pela tecnologia e assimilar a tecnologia à sociedade. No primeiro caso, nós nos adaptamos às máquinas.
No segundo, fazemos as máquinas se adaptarem aos nossos direitos, às nossas leis e aos limites que democraticamente decidimos estabelecer. Talvez essa seja a verdadeira batalha.
Não impedir o futuro.
Mas garantir que, quando ele chegar, ainda sejamos nós a decidir como queremos viver nele. Porque, afinal, talvez resistir não seja inútil.
Talvez resistir seja justamente participar da decisão sobre o que merece ser assimilado.
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