21.8.26

Mineradoras estrangeiras detém 42% das solicitações de exploração de terras raras no Brasil

Corrida por minerais estratégicos ganhou força nos últimos anos e coloca o Brasil no centro da disputa global por recursos que vão de celulares e carros elétricos a equipamentos militares

 

O subsolo brasileiro entrou definitivamente no radar da disputa mundial por minerais estratégicos. E, desta vez, o interesse não vem apenas de empresas nacionais. Um levantamento baseado em dados da Agência Nacional de Mineração (ANM) mostra que empresas sediadas no exterior ou subsidiárias de grupos estrangeiros respondem por 42% dos pedidos de exploração de terras raras registrados no Brasil.

São 2.727 requerimentos contabilizados até junho de 2026, segundo levantamento da Repórter Brasil e da Associated Press. O dado chama ainda mais atenção quando se observa a velocidade desse movimento: 86% dos pedidos foram apresentados de 2023 para cá. Austrália, Estados Unidos e Canadá estão entre os países com maior presença nessa corrida.

Antes de tudo, é importante entender o que esses números significam. Um requerimento não é uma mina. O pedido representa uma etapa inicial da busca por uma área com potencial mineral e não garante que haverá extração. Muitos projetos podem não avançar depois das pesquisas, das análises técnicas e das exigências ambientais.

Mesmo assim, a quantidade de pedidos revela algo difícil de ignorar: as empresas estão se posicionando agora para disputar um mercado que tende a ganhar importância nos próximos anos.

E há uma razão bastante concreta para isso.

Por que todo mundo está de olho nas terras raras?

Apesar do nome, terras raras não são necessariamente raras na natureza. O problema está em encontrar concentrações economicamente aproveitáveis e, principalmente, em dominar as etapas necessárias para transformar esses minerais em produtos de alto valor.

O grupo reúne 17 elementos químicos usados em uma enorme variedade de tecnologias. Eles estão presentes, por exemplo, em ímãs permanentes utilizados em motores elétricos, equipamentos eletrônicos, turbinas eólicas e sistemas de defesa.

É aí que entra a geopolítica.

A China construiu, ao longo de décadas, uma posição dominante não apenas na extração, mas também no processamento das terras raras e na fabricação de produtos derivados. Para Estados Unidos e outras potências industriais, reduzir essa dependência passou a ser uma questão econômica e também estratégica.

O cenário ficou ainda mais tenso em 2025, quando a China restringiu exportações de terras raras para os Estados Unidos, em meio à escalada da disputa comercial entre os dois países. Desde então, cresceu a busca por fornecedores alternativos. E o Brasil, dono da segunda maior reserva estimada do mundo, passou a ocupar um lugar cada vez mais importante nesse tabuleiro.

O capital estrangeiro já aparece entre os principais projetos

Embora empresas ligadas ao capital estrangeiro representem cerca de 12% dos titulares dos requerimentos, elas concentram 42% dos pedidos. A diferença mostra que os grupos internacionais, apesar de serem minoria entre os titulares, controlam uma parcela expressiva das áreas em disputa.

A presença estrangeira também fica mais evidente quando se olha para os projetos que já avançaram. Dos 45 processos identificados como em operação ou em fase de pré-operação comercial, 31 estão sob controle estrangeiro.

Entre as empresas que aparecem com destaque está a Borborema Recursos Minerais, subsidiária da australiana Brazilian Rare Earths Pty, com 217 requerimentos. A Alpha Minerals Brazil, recentemente incorporada pela norte-americana Rare Earth Americas, aparece em seguida, com 181 pedidos.

Também estão no radar empresas como a Mineração Apollo, parcialmente controlada pela norte-americana Atlas Lithium, e a canadense Aclara Resources, que mantém projetos de terras raras no Brasil e no Chile.

Ou seja, não se trata apenas de uma corrida por jazidas. Há uma disputa empresarial acontecendo antes mesmo de muitas dessas áreas chegarem à fase de produção.

Serra Verde mostra onde essa disputa pode chegar

Um dos exemplos mais claros está em Goiás.

A Serra Verde, em Minaçu, é atualmente a única produtora comercial de terras raras do Brasil. Em abril de 2026, a empresa foi adquirida pela norte-americana USA Rare Earth, em uma operação que colocou ainda mais luz sobre o potencial brasileiro.

O projeto é especialmente importante porque possui terras raras pesadas, como disprósio e térbio, minerais empregados em ímãs de alto desempenho e em tecnologias consideradas estratégicas.

O caso Serra Verde ajuda a entender por que a discussão vai muito além de simplesmente abrir uma mina. Quem controla uma jazida, quem financia a exploração, quem domina o processamento e, principalmente, quem transforma o minério em componentes tecnológicos também disputa uma parcela muito maior do valor gerado.

É justamente nesse ponto que aparece uma das principais preocupações brasileiras.

O Brasil vai vender minério ou desenvolver uma cadeia própria?

Ter uma das maiores reservas de terras raras do planeta é uma vantagem. Mas a vantagem pode ser limitada se o país continuar exportando matéria-prima e comprando de fora os produtos de maior valor agregado.

A mineração é apenas uma parte da cadeia.

Entre a retirada do minério do solo e a fabricação de um ímã usado em um motor elétrico existe uma série de etapas industriais e tecnológicas. São justamente essas etapas que podem gerar mais empregos qualificados, conhecimento e receita.

Por isso, a chegada de empresas estrangeiras não precisa ser vista necessariamente como um problema. Capital, tecnologia e capacidade de investimento podem ajudar a transformar reservas conhecidas em projetos economicamente viáveis.

A questão é outra: quais serão as condições dessa participação?

Quanto do processamento ficará no Brasil? Quantos empregos qualificados serão criados? Haverá transferência de tecnologia? O país conseguirá desenvolver fornecedores nacionais? E quanto da riqueza produzida ficará nas regiões onde estão as minas?

São perguntas que começam a ganhar importância à medida que os projetos avançam.

A corrida também acende o alerta ambiental

O aumento do interesse pelas terras raras acontece em um território que não está vazio. Existem comunidades, unidades de conservação, terras indígenas e territórios quilombolas nas áreas ou nas proximidades dos locais que despertaram o interesse das mineradoras.

Segundo o levantamento, 25% dos requerimentos analisados se sobrepõem a unidades de conservação ou comunidades tradicionais, ou estão a até 10 quilômetros desses territórios. A análise aponta que os pedidos podem afetar até 283 áreas protegidas.

Isso não significa, automaticamente, que essas áreas serão mineradas. Um requerimento pode não avançar, e qualquer empreendimento que chegue às fases de instalação e operação estará sujeito às regras ambientais e aos processos de licenciamento aplicáveis.

Mas o número mostra que a expansão da mineração não será apenas uma discussão econômica.

Em regiões ambientalmente sensíveis, uma mina pode trazer mudanças no uso do território, pressão sobre recursos hídricos, abertura de estradas e outros impactos que precisam ser avaliados antes de qualquer decisão.

E a China?

Curiosamente, a China, que domina atualmente a cadeia mundial das terras raras, não aparece como protagonista dos requerimentos analisados até junho de 2026.

O país, porém, também acompanha de perto o potencial brasileiro. A Mineração Taboca, por exemplo, foi adquirida em 2025 pela estatal chinesa China Nonferrous Metal Mining Group e anunciou planos para estudar o potencial de terras raras na Amazônia. A chinesa Shenghe Resources Holding também firmou um memorando de entendimento com empresas brasileiras para avaliar oportunidades no setor.

Isso ajuda a dimensionar a importância estratégica que o Brasil ganhou.

De um lado, empresas norte-americanas e australianas aceleram investimentos para criar alternativas ao domínio chinês. De outro, empresas chinesas também buscam espaço em uma cadeia considerada fundamental para a indústria do futuro.

O Brasil está no meio dessa disputa.

Uma oportunidade que exige estratégia

O dado de que 42% dos pedidos estão ligados a empresas estrangeiras não significa que o Brasil esteja perdendo suas terras raras. Ainda há um longo caminho entre o requerimento de pesquisa e a abertura de uma mina.

Mas o número funciona como um sinal bastante claro de que o interesse internacional já chegou.

A oportunidade econômica é real. As terras raras podem ajudar o país a atrair investimentos, desenvolver novas tecnologias e participar de cadeias ligadas à eletrificação dos transportes, às energias renováveis, à indústria eletrônica e à defesa.

Ao mesmo tempo, existe o risco de o Brasil ficar restrito à etapa menos sofisticada dessa cadeia: retirar o minério do chão e enviá-lo para outros países, onde será processado e transformado em produtos de maior valor.

É justamente essa escolha que começa a se desenhar agora.

O Brasil tem a reserva, tem território e tem potencial geológico. O que ainda precisa construir é a capacidade de transformar essa riqueza subterrânea em desenvolvimento econômico e tecnológico dentro do próprio país.

A corrida pelas terras raras já começou. E os 2.727 requerimentos registrados até junho de 2026, com 42% ligados a empresas estrangeiras, mostram que os grupos internacionais não estão esperando a próxima década para entrar nessa disputa. Eles já estão ocupando espaço.

Fontes: Agência Nacional de Mineração (ANM), dados analisados pela Repórter Brasil e Associated Press. Levantamento publicado em 20 de agosto de 2026.

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