Inventário colaborativo já registrou 14.823 animais de 602 espécies em território de 500 mil hectares entre Pará e Mato Grosso
| © André Villas Bôas/ISA |
Uma iniciativa que une o conhecimento ancestral do povo Panará à ciência acadêmica está ajudando a revelar a biodiversidade da Terra Indígena (TI) Panará, na Amazônia. O primeiro inventário colaborativo realizado no território, que possui cerca de 500 mil hectares na divisa entre Pará e Mato Grosso, já registrou 14.823 animais pertencentes a 602 espécies.
A pesquisa ganhou novos contornos depois que seus resultados foram apresentados, em junho, durante o Seminário Saberes e Conservação de Territórios Indígenas, realizado na Universidade Federal do Pará (UFPA), em Belém. As informações atualizadas mostram que o trabalho, iniciado a partir da integração entre pesquisadores indígenas e acadêmicos, também identificou espécies que até então não eram conhecidas pelos próprios Panará.
A reportagem original sobre a iniciativa foi publicada pela Agência Brasil, que acompanhou o trabalho de pesquisa e conservação no território.
O projeto é promovido pela Conservação Internacional (CI-Brasil) em parceria com a Rede Xingu+, a Associação Indígena Iakiô, universidades públicas e outras organizações. Entre as instituições envolvidas estão a Universidade Federal do Pará (UFPA), a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e o Jardim Botânico do Rio de Janeiro.
A iniciativa integra uma estratégia de conservação da biodiversidade em uma região submetida à pressão do garimpo ilegal, da expansão de atividades agropecuárias e de outras ações irregulares. O inventário também busca produzir informações que possam fortalecer a proteção do território e o monitoramento de seus recursos naturais.
Ciência e conhecimento tradicional
Pesquisadores indígenas e das universidades trabalham juntos em trilhas pelo território, realizando registros fotográficos, coleta de amostras de espécies e de água do rio Iriri, afluente do Xingu que atravessa a Terra Indígena, além da inclusão de informações no inventário.
A proposta é combinar ferramentas científicas e tecnológicas com o conhecimento acumulado pelos Panará sobre a floresta, os animais, os rios e os ciclos naturais do território.
“Foi muito bom trabalhar junto com pesquisadores não indígenas. Um ensinou ao outro”, afirma o pesquisador Kiarysy Kaiabi Panará, conhecido como Cutia.
Segundo Renata Pinheiro, diretora do programa Povos Indígenas e Comunidades Locais da Conservação Internacional Brasil, declarou à repórter Fabíola Sinimbú, da Agência Brasil, os pesquisadores acadêmicos contribuem principalmente com ferramentas tecnológicas de catalogação, enquanto os pesquisadores indígenas oferecem um conhecimento detalhado do território construído ao longo de gerações.
“Os Panará sabem ler a floresta de um jeito que nenhum instrumento científico consegue substituir. Eles conhecem a alimentação de cada animal, como se movimenta, e esse conhecimento alimenta diretamente a ciência que construímos juntos”, destaca Renata.
Tecnologia ajuda a revelar espécies
Para a coleta de dados, pesquisadores indígenas receberam capacitação para utilizar GPS, aplicativos de catalogação e câmeras de armadilha, conhecidas como camera traps. Os equipamentos são acionados pelo movimento ou calor emitido pelos animais que passam diante dos sensores.
A tecnologia permitiu registrar animais difíceis de serem observados diretamente na floresta e ampliar o conhecimento sobre a fauna existente no território.
“Quando as câmeras capturaram os bichos de pelo, a gente conseguiu identificar mais bichos do que a gente conhece. Depois disso, eu também fiquei muito feliz em conhecer essa parte da pesquisa com a tecnologia”, diz a pesquisadora Pentê Panará.
Escolhida pelos integrantes da aldeia Panará Sõnkârãsãn, onde vive, Pentê também destaca a importância da participação das mulheres na pesquisa.
“Toda vez que eu voltava do trabalho de pesquisa, as outras mulheres me perguntavam sobre o que estávamos fazendo e como era trabalhar com essa parte de tecnologia. Acho que outras mulheres Panará também gostariam de participar”, afirma.
602 espécies e animais ameaçados
O levantamento registrou 602 espécies e identificou a presença de animais ameaçados ou vulneráveis. Entre eles estão o macaco-zogue-zogue (Plecturocebus vieirai) e o tatu-canastra (Priodontes maximus).
De acordo com os resultados divulgados durante o seminário da UFPA, também foram encontradas espécies que não faziam parte do conhecimento tradicional registrado pelos próprios Panará, entre elas a perereca-de-vidro e a maria-leque.
A pesquisa permitiu ainda acompanhar espécies ameaçadas e coletar informações sobre a qualidade da água do rio Iriri, elemento fundamental para a vida das comunidades indígenas e para o equilíbrio ecológico do território.
Árvore “Já” pode ser nova para a ciência
Uma das descobertas mais significativas está no estudo da flora. Conhecida pelos Panará como “Já”, uma árvore encontrada durante o levantamento passou a ser analisada pelos botânicos por apresentar características que indicam que pode se tratar de uma espécie ainda não descrita pela ciência.
Durante o estudo botânico, que examinou quase 500 árvores em uma parcela de um hectare de floresta, pesquisadores identificaram características particulares nas folhas da planta. Segundo informações divulgadas pela UFPA, a análise aponta uma probabilidade estimada em cerca de 90% de que se trate de uma nova espécie para a ciência.
A confirmação científica, porém, ainda depende de novas coletas. Os pesquisadores precisam encontrar novamente o indivíduo durante o período de floração ou frutificação para obter material suficiente para a descrição formal da espécie.
O pesquisador Domingos Cardoso, do Jardim Botânico do Rio de Janeiro e coordenador da plataforma Flora e Funga do Brasil, explicou que, até o momento, foram analisadas principalmente as folhas da planta. A identificação definitiva ainda precisa seguir os procedimentos científicos de descrição e revisão botânica.
Pesquisa ainda precisa ser concluída
Segundo a Conservação Internacional, os resultados apresentados em junho correspondem a três anos de trabalho de inventário. A pesquisa, entretanto, ainda não chegou ao fim.
A Agência Brasil informou que o trabalho foi interrompido por falta de recursos para uma nova rodada de expedições. A expectativa dos pesquisadores é retomar as atividades para completar o inventário e ampliar o número de registros.
“Durante essa pesquisa, toda vez que a gente andava na mata, a gente encontrava rastro de outros bichos. Dá até pra saber o caminho onde eles andam. Para mim, ainda tem muitos mais”, afirma Pentê Panará.
Conhecimento com autoria indígena
Uma das características centrais do projeto é a preocupação com a autoria e o controle dos conhecimentos produzidos. Ao final do inventário, os dados deverão ser analisados pelos pesquisadores indígenas antes de sua disponibilização no Sistema de Informação sobre a Biodiversidade Brasileira (SiBBr), plataforma que reúne registros de ocorrência de espécies, coleções biológicas e conjuntos de dados científicos.
A proposta é que os pesquisadores Panará sejam reconhecidos como detentores e autores dos conhecimentos associados aos registros. Dessa forma, quando outras instituições de pesquisa necessitarem consultar determinadas informações, o acesso deverá considerar a participação dos pesquisadores indígenas.
A Conservação Internacional também desenvolveu um protocolo para a publicação dos trabalhos acadêmicos produzidos a partir da pesquisa. Antes da divulgação, pesquisadores não indígenas apresentam aos Panará, em vídeos ou áudios, quais informações serão utilizadas, qual é o objetivo da publicação e quais aspectos serão abordados.
Depois dessa apresentação, os pesquisadores Panará e a comunidade podem acrescentar sua visão sobre o conteúdo antes da autorização para publicação.
“A gente estabeleceu esse protocolo, e tudo que foi feito até agora vem ao encontro da tradição oral dos povos indígenas, para que todos tivessem esse cuidado de colocar essas informações na oralidade, num vídeo, para que os Panará conseguissem entender e reagir ao que estava sendo colocado ali”, conclui Renata Pinheiro.
Um modelo de pesquisa intercultural
Além dos resultados científicos, a experiência na Terra Indígena Panará apresenta uma metodologia de pesquisa baseada na colaboração entre conhecimento tradicional e ciência acadêmica. Para os envolvidos, a experiência mostra que o conhecimento indígena não é apenas uma fonte complementar de informação, mas parte fundamental da compreensão do território e da definição de estratégias para sua conservação.
A experiência também evidencia como tecnologias de monitoramento podem ser incorporadas ao conhecimento tradicional sem substituir o papel dos povos indígenas na interpretação da floresta e na definição sobre o uso dos dados produzidos.
A atualização dos resultados foi divulgada pela Universidade Federal do Pará e pela Amazônia na COP30/UFPA. Informações sobre o inventário também foram divulgadas pela Conservação Internacional Brasil.
Fonte original: Agência Brasil, reportagem de Fabíola Sinimbú, publicada em 18 de agosto de 2026. Atualização: Sulpost, com informações divulgadas posteriormente pela UFPA, Amazônia na COP30/UFPA e Conservação Internacional Brasil.
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