USS Nimitz passa pelo Brasil em uma das maiores operações navais do continente. O mais antigo porta-aviões nuclear ainda em atividade no mundo já passou pelo Rio de Janeiro — sua presença transformou a paisagem e causou preocupação com níveis de radiação
Há momentos em que o mar parece carregar mais do que água e sal. Nesta semana, quem atravessa a Ponte Rio–Niterói ou observa o horizonte da Baía de Guanabara percebe algo quase cinematográfico surgindo entre o nevoeiro e os navios menores: o USS Nimitz, um colosso flutuante de aço, energia nuclear e história militar, ancorado diante do Rio de Janeiro.
Uma cidade observa um símbolo da geopolítica mundial
O navio não é apenas grande. Ele é simbólico. Com cerca de 333 metros de comprimento, mais de 100 mil toneladas e capacidade para operar dezenas de aeronaves de combate simultaneamente, o USS Nimitz é considerado um dos maiores e mais emblemáticos porta-aviões da história moderna. Entrou em operação em 1975 e, hoje, é o porta-aviões nuclear mais antigo ainda em atividade no planeta.
Sua chegada ao Brasil integra a Operação Southern Seas 2026, exercício conduzido pela 4ª Frota da Marinha dos Estados Unidos em parceria com forças navais da América Latina. Entre os dias 11 e 14 de maio, militares brasileiros e norte-americanos realizam exercícios conjuntos no litoral do Rio de Janeiro, em uma agenda voltada à interoperabilidade, comunicação marítima e treinamento estratégico.
Muito além de um exercício militar
Mas existe algo além da operação militar. Existe a sensação estranha de ver um pedaço da geopolítica mundial estacionado diante de um dos cartões-postais mais conhecidos do planeta.
O USS Nimitz aporta na Bahia de Guanabara em sua última grande viagem operacional antes do processo de desativação previsto para os próximos anos. A embarcação percorreu recentemente o extremo sul do continente, passando por exercícios com a Marinha Argentina e atividades no Atlântico Sul.
Ao redor do navio principal, acompanham a missão o destróier USS Gridley e o navio de abastecimento USNS Patuxent, formando uma frotilha que lembra ao mundo a dimensão logística e tecnológica envolvida em operações militares dos EUA.
A América do Sul e a escolha pela não proliferação nuclear
Para muitos cariocas, o impacto é visual. Para especialistas em defesa, é estratégico. Para outros, inevitavelmente, é político. Um porta-aviões nuclear não é apenas uma embarcação. Ele representa projeção de poder. Representa presença. Representa influência internacional.
Ainda assim, existe um detalhe importante que o próprio continente sul-americano insiste em lembrar ao mundo: a América do Sul permanece como uma das raras regiões do planeta sem armamento nuclear militar ativo entre seus países. Nosso continente é pacífico.
| Técnico acompanha a presença do porta aviões nuclear USS Nimitz, na Baía de Guanabara, durante operação de segurança radiológica - Petróleo e Gás |
Em tempos de tensões globais, conflitos comerciais travestidos de disputas ideológicas e guerras alimentadas por interesses econômicos, a presença do USS Nimitz no Brasil também provoca reflexão.
O mundo avançou tecnologicamente numa velocidade absurda. Satélites, inteligência artificial, energia limpa, medicina genética, comunicação instantânea. E, paradoxalmente, ainda há países investindo trilhões em capacidade de destruição.
“War”, reggae que lembra a possibilidade real de paz
A população carioca, que já vive uma guerra diária entre polícias, milícias e traficantes historicamente, em sua maioria é pacífica e democrática. Quem já visitou o Rio de Janeiro sabe muito bem disso.
Décadas atrás, Bob Marley já transformava essa inquietação em música. Em “War”, eternizou versos que continuam assustadoramente atuais:
“Until the philosophy which holds one race superior and another inferior is finally and permanently discredited and abandoned...”
(“Até que a filosofia que considera uma raça superior e outra inferior seja finalmente e permanentemente desacreditada e abandonada...”)“Everywhere is war...”
(“Em todos os lugares existe guerra...”)
A mensagem permanece viva porque a raiz dos conflitos humanos ainda passa por desigualdade, poder, disputa econômica e intolerância. Mas paz não é ingenuidade. Não é utopia infantil. É construção política, cultural e humana.
E talvez o próprio continente sul-americano, apesar de todas as suas contradições, funcione como prova de que coexistência pacífica entre nações é possível. Não existem ogivas nucleares apontadas entre Brasil, Argentina, Uruguai, Chile ou Paraguai. Existem divergências, crises, disputas comerciais e ideológicas — mas não arsenais nucleares prontos para aniquilação mútua.
Isso, por si só, já é um sinal de esperança. Porque talvez o futuro da humanidade não esteja nos gigantes de aço movidos a energia nuclear. Talvez esteja justamente na capacidade de um dia não precisarmos mais deles.
E isso não é utopia. É, sim, possível — e talvez até provável — se a humanidade finalmente compreender que cooperação vale mais do que destruição.
| Militares e especialistas durante coleta de amostras no mar da Baía de Guanabara — Foto: Primeiro-Sargento (Fuzileiro Naval) Pinho/Marinha do Brasil |
Monitoramento nuclear e proteção ambiental acompanharam passagem do USS Nimitz
A presença do USS Nimitz na Baía de Guanabara também mobilizou uma ampla operação brasileira de monitoramento radiológico. A ação foi acompanhada pela Secretaria Naval de Segurança Nuclear e Qualidade (SecNSNQ), órgão responsável pela regulação e fiscalização nuclear naval no Brasil, reforçando os protocolos nacionais de segurança nuclear, proteção radiológica e preservação ambiental durante a permanência de embarcações com propulsão nuclear em águas brasileiras.
As atividades envolveram medições da taxa de radiação no ar, além da coleta de amostras da água do mar e do solo no fundo da Baía de Guanabara. O trabalho ocorreu de forma integrada entre o 2º Batalhão de Proteção e Defesa Nuclear, Biológica, Química e Radiológica (2ºBtlProtDefNBQR), do Corpo de Fuzileiros Navais, responsável pelas coletas, e o Instituto de Radioproteção e Dosimetria (IRD), ligado à Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN), encarregado das análises laboratoriais.
Segundo a Marinha, o acompanhamento começou antes mesmo do fundeio do porta-aviões e seguirá até um dia após sua saída do litoral fluminense. Para o Capitão de Corveta e engenheiro naval Marcos William Magalhães Leiras de Carvalho, chefe do Departamento de Radioproteção da SecNSNQ, o monitoramento é fundamental para assegurar que a operação ocorra dentro dos padrões internacionais de segurança. Além da proteção ambiental, a operação também serviu para demonstrar, na prática, a capacidade técnica brasileira de fiscalização e resposta em situações envolvendo tecnologia nuclear embarcada — um tema considerado estratégico para a defesa nacional e para a soberania científica do País.


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