Estratégia do governo para conter combustíveis começa a mostrar efeito nas bombas — e pode evitar novos aumentos no preço dos alimentos
O brasileiro ainda sente o peso da inflação quando passa pelo supermercado. O café continua caro. A carne oscila. O tomate sobe como se tivesse vida própria. Entre seca, enchente, dólar alto, guerra e entressafra, o custo de vida virou uma espécie de montanha-russa permanente. Mas, no meio desse cenário turbulento, há um sinal importante vindo das bombas de combustível — e ele pode fazer diferença no bolso de milhões de pessoas.
O preço do diesel voltou a cair no país. Pela quarta vez em apenas cinco semanas.
A redução, anunciada nesta segunda-feira (11), reforça a estratégia adotada pelo Governo Federal para tentar impedir que o choque internacional do petróleo provocado pela guerra no Irã se transforme numa nova explosão inflacionária dentro do Brasil.
Segundo dados da Agência Nacional do Petróleo (ANP), o diesel S10 chegou à média de R$ 7,24 por litro na semana entre os dias 3 e 9 de maio. Há pouco mais de um mês, o combustível custava R$ 7,58. A queda acumulada já chega a 4,5%.
Ainda é caro. Muito caro.
Antes do conflito no Oriente Médio, no fim de fevereiro, o litro era vendido em média por R$ 6,09. Mas a desaceleração recente mostra que o mercado começou a responder às medidas adotadas pelo governo e também à atuação da Petrobras para conter os repasses mais agressivos do petróleo internacional.
O combustível move o país — e também a inflação
No Brasil, praticamente tudo passa pelo diesel.
É o caminhão que transporta os alimentos do campo até os centros urbanos. É o ônibus do trabalhador. É a logística dos medicamentos, dos insumos agrícolas, dos produtos industrializados. Quando o diesel sobe, o impacto se espalha silenciosamente por toda a economia.
Por isso, o recuo recente do combustível é observado com atenção não apenas pelo setor de transportes, mas também por economistas e pelo próprio mercado de alimentos.
O governo federal decidiu agir em duas frentes principais: zerou tributos federais sobre o diesel e criou um programa de subvenção para produtores e importadores do combustível.
Desde abril, o diesel nacional pode receber subsídio de até R$ 1,12 por litro. No caso do combustível importado, o apoio pode chegar a R$ 1,52 por litro — desde que o desconto seja efetivamente repassado ao consumidor final.
A medida busca justamente impedir que a disparada do barril internacional chegue integralmente às bombas brasileiras.
Guerra no Irã pressiona mercado global
O pano de fundo da crise continua sendo o conflito no Irã.
Desde o início da guerra, ataques militares e o fechamento do Estreito de Ormuz — rota estratégica por onde circulava cerca de 20% do petróleo mundial — provocaram um forte desequilíbrio na cadeia global de energia.
O barril do petróleo Brent, referência internacional, saiu da faixa dos US$ 70 para ultrapassar os US$ 100, chegando perto de US$ 120 nos momentos mais tensos do conflito. Nesta segunda-feira (11), o barril era negociado em torno de US$ 104.
Mesmo sendo produtor de petróleo, o Brasil não está imune. No caso específico do diesel, o país ainda precisa importar cerca de 30% do que consome, o que torna o mercado nacional vulnerável às oscilações internacionais.
Mais etanol na gasolina entra na estratégia
Outra aposta do governo para reduzir pressão sobre combustíveis foi o aumento da mistura de etanol na gasolina, que passou recentemente de 30% para 32%.
Décadas atrás, mudanças assim despertavam desconfiança entre motoristas. Havia receio de danos mecânicos e perda de desempenho. Hoje, com a ampla predominância dos motores flex na frota brasileira, a adaptação é praticamente natural.
Além de reduzir a dependência da gasolina pura, a medida fortalece a cadeia sucroenergética nacional e ajuda a diminuir o impacto das oscilações externas do petróleo.
Na prática, o governo tenta criar uma espécie de “escudo interno” para proteger a economia brasileira das crises internacionais de energia.
Petrobras teve papel decisivo
Especialistas do setor energético avaliam que a forte presença da Petrobras no mercado nacional ajudou a conter uma escalada ainda maior dos preços.
A estatal responde por aproximadamente 75% do fornecimento de diesel no país. Mesmo após reajustar o combustível nas primeiras semanas da guerra, a Petrobras evitou acompanhar integralmente a alta internacional do petróleo.
O pesquisador Iago Montalvão, do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep), disse à EBC que isso ajudou a limitar o impacto inflacionário.
Segundo ele, as medidas fiscais e a atuação da Petrobras foram fundamentais para desacelerar os aumentos e até permitir recuos recentes no preço do diesel.
A percepção dentro do setor é de que o mercado conseguiu absorver parte do choque inicial da guerra, mesmo sem expectativa de encerramento rápido do conflito.
Enquanto isso, no cotidiano do brasileiro comum, cada centavo a menos no combustível ainda representa uma pequena trégua num cenário econômico que segue apertado. Os preços estão muito altos, enquanto o poder de compra do brasileiro cai a cada mês. Muito ainda precisa ser feito, mas ao que parece estamos no caminho certo.


Nenhum comentário:
Postar um comentário