Em pleno Dia das Mães, milhares de brasileiras vivem entre a esperança e a ausência. Só em 2025, mais de 84 mil pessoas desapareceram no país — uma realidade que também evidencia a importância de políticas públicas voltadas às mulheres, ao acolhimento e aos direitos humanos
O Dia das Mães amanhece diferente para milhares de mulheres brasileiras neste 10 de maio de 2026. Em vez de flores, abraços ou mesas cheias, muitas convivem com o silêncio angustiante de quem saiu de casa e nunca mais voltou.
São mães que vivem entre cartazes, ligações inesperadas, delegacias, grupos de apoio e noites mal dormidas. Mulheres que seguem tentando traduzir o que parece impossível de explicar.
Segundo dados e reportagem da Agência Brasil, 84.760 pessoas desapareceram no país em 2025. Por trás do número frio, existem histórias interrompidas — e mães que recusam abandonar a esperança.
No Maranhão, a jovem Clarice Cardoso, de 27 anos, vive um dos retratos mais dolorosos dessa realidade. Moradora de uma comunidade quilombola em Bacabal (MA), ela procura pelos filhos Ágatha Isabelle, de 6 anos, e Allan Michael, de 4, desaparecidos desde janeiro deste ano após entrarem numa área de mata próxima da casa da família.
Enquanto enfrenta o sofrimento diário, Clarice também relata preconceito, julgamentos e até sinais de racismo quando precisa ir até a cidade em busca de informações.
“A cada ligação que eu recebo, penso que pode ser alguma pista.”
A dor dessas mães, no entanto, não se limita ao desaparecimento. Muitas também enfrentam abandono institucional, dificuldades financeiras e impactos psicológicos profundos. Em vários casos, o desaparecimento transforma completamente a rotina familiar.
É justamente nesse cenário que grupos de acolhimento se tornam fundamentais.
Uma das iniciativas mais conhecidas do país é o grupo Mães da Sé, criado pela ativista Ivanise Espiridião, que procura pela filha Fabiana desde 1995. O coletivo reúne milhares de mulheres brasileiras unidas pela mesma ausência — mas também pela resistência.
Ao longo de três décadas, o grupo ajudou a pressionar autoridades, ampliar campanhas de conscientização e orientar famílias sobre direitos básicos, como o registro imediato do desaparecimento, previsto em lei.
A tecnologia também passou a integrar essa luta. Ferramentas de reconhecimento facial, aplicativos colaborativos e bancos de dados digitais vêm sendo utilizados para ampliar buscas e cruzar informações.
Mulheres no centro das políticas públicas
Mesmo diante de histórias tão duras, especialistas apontam que o debate sobre desaparecimentos humanos hoje encontra mais espaço do que no passado. E isso também dialoga com mudanças mais amplas na forma como o Brasil vem discutindo proteção às mulheres, direitos humanos e políticas públicas de acolhimento.
Nos últimos anos, o governo federal ampliou programas voltados ao enfrentamento da violência contra a mulher, fortaleceu ações de combate ao feminicídio, retomou políticas de igualdade de gênero e ampliou campanhas nacionais de conscientização sobre machismo, violência doméstica e vulnerabilidade social.
A criação e fortalecimento de estruturas voltadas às mulheres — incluindo redes de atendimento, canais de denúncia, programas sociais e ações interministeriais — representam avanços importantes num país onde muitas mães ainda carregam sozinhas o peso da violência, da pobreza e da invisibilidade.
Em histórias como a de Clarice, Ivanise e Lucineide Damasceno — outra mãe que procura o filho Felipe desde 2008 —, existe uma dimensão que vai além da tragédia pessoal. Existe também a força feminina brasileira em sua forma mais humana: a capacidade de seguir lutando mesmo quando tudo parece suspenso.
Lucineide, por exemplo, mantém há quase duas décadas um ritual silencioso: todos os anos coloca um presente de Natal para o filho desaparecido embaixo da árvore.
Ela guarda cada um deles.
Na esperança de que um dia Felipe volte para casa.
Neste Dia das Mães, o Brasil também é chamado a olhar para essas mulheres. Não apenas com compaixão, mas com responsabilidade coletiva, memória e respeito.
Porque nenhuma mãe deveria enfrentar a ausência sozinha.


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