Em Brasília, dirigente relata agressões, acusa omissão do Estado e cobra garantia de acesso dos sindicatos aos trabalhadores
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| Dra. Larissa, Nelsão e Dr. Alberto, no MPT, em Brasília - Divulgação/SMC |
O plenário já estava cheio quando ele finalmente pegou a palavra. Horas de espera, uma viagem atravessando a madrugada — e um discurso que não veio para cumprir protocolo. Veio para marcar posição.
Na segunda-feira (4), em Brasília, o dirigente sindical Nelsão da Força participou da audiência pública da Coordenadoria Nacional de Promoção da Liberdade Sindical (Conalis), dentro da campanha Maio Lilás, representando o Sindicato dos Metalúrgicos da Grande Curitiba (SMC).
O encontro foi conduzido pelo Procurador Regional do Trabalho e coordenador nacional da Conalis, Alberto Emiliano de Oliveira Neto, a Procuradora do Trabalho e vice-coordenadora nacional da Conalis, Larissa Menine Alfaro. Também compôs a mesa o Procurador do Trabalho Igor Sousa Goncalves, coordenador nacional de Combate à Discriminação no Trabalho.
Ao tomar a palavra, Nelsão foi direto:
“Eu estou vindo aqui hoje para fazer três denúncias seríssimas.”
Da madrugada de Curitiba ao microfone em Brasília
A presença do dirigente não foi simbólica. Ele saiu de Curitiba por volta das 4h da manhã, chegou à capital federal às 7h e aguardou até o período da tarde para conseguir se pronunciar.
Com 47 anos de trabalho na indústria, trajetória iniciada como faxineiro, na Volvo, e consolidada na liderança sindical, Nelsão levou ao debate mais do que um relato — levou uma vivência acumulada no chão de fábrica.
“Eu fui espancado”
O ponto central da fala foi o episódio ocorrido em fevereiro, em frente à fábrica da Brose, em São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba.
“Eu fui espancado, gente.”
Segundo o dirigente, a ação da Polícia Militar do Paraná envolveu agressões físicas, imobilização, permanência em camburão e condução entre delegacias. Ele relatou ainda a apreensão de seu celular de trabalho, que teria ficado retido por mais de dois meses.
O caso, que já havia repercutido no Paraná e, durante o mês de fevereiro ganhou ampla repercussão nacional, até ser formalmente levado ao Ministério Público do Trabalho. Nelsão denunciou também o cerceamento ao direito de greve e do trabalho sindical.
Barreiras à organização sindical
Ao ampliar a denúncia, Nelsão apontou para o que descreveu como um ambiente sistemático de restrição à atividade sindical dentro das empresas.
“Como é que eu vou falar com o trabalhador?”
Ele citou o bloqueio de acesso a fábricas, o controle sobre entradas e saídas e a impossibilidade de contato com trabalhadores até mesmo em ônibus fretados.
Na avaliação do dirigente, essas práticas comprometem diretamente a negociação coletiva e a própria existência da representação sindical.
Democracia também se disputa na porta da fábrica
O discurso dialogou diretamente com o tema central da audiência: o papel dos sindicatos na defesa da democracia e no enfrentamento ao assédio eleitoral.
Organizada pela Conalis, a campanha Maio Lilás reforça a importância da liberdade sindical como condição essencial para garantir direitos e proteger trabalhadores de práticas abusivas, inclusive no campo político.
Durante o encontro, foi destacado que cabe aos sindicatos não apenas denunciar, mas também atuar na conscientização, formação e acolhimento dos trabalhadores, enquanto o MPT tem o papel de investigar, responsabilizar infratores e buscar reparação coletiva.
Cobrança institucional
Diante da mesa composta por representantes do MPT, Nelsão fez um apelo direto por atuação mais firme na garantia da liberdade sindical.
“Que democracia é essa?”
Ele defendeu medidas concretas, como a garantia de tempo mínimo para realização de assembleias nas entradas e saídas de turno, permitindo que trabalhadores tenham acesso à informação e possam decidir de forma livre e consciente.
Entre denúncia e proposta
Mesmo que em tom crítico, o vice-presidente do SMC reconheceu a importância da iniciativa do MPT e da campanha Maio Lilás, destacando o papel educativo das ações promovidas.
Mas deixou um recado claro: sem condições reais de atuação, o discurso democrático não se sustenta no cotidiano das relações de trabalho. As ações sindicais em porta de fábrica, têm sido reprimidas e até mesmo criminalizadas pelo governo Ratinho Junior.
O que está em jogo
A fala de Nelsão da mais força a um episódio local que se tornou pauta nacional. Mais do que uma denúncia individual, ela coloca em evidência os limites entre ordem pública e repressão, entre mediação institucional e silenciamento.
Ao final, a questão que paira sobre o debate é simples — e incômoda: até onde a democracia brasileira chega, de fato, quando encontra o portão de uma fábrica fechado e organizações poderosas por detrás?



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