Conferência internacional na Colômbia reúne cerca de 60 países para acelerar o afastamento dos combustíveis fósseis e construir um plano global liderado também pelo Brasil
O mar do Caribe bate manso nas pedras de Santa Marta, enquanto delegações do mundo inteiro começam a ocupar a cidade com um tema que já não cabe mais no futuro — ele exige resposta agora.
Santa Marta vira palco da transição energética
A 1ª Conferência Internacional sobre Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis começa nesta sexta-feira (24), na cidade colombiana, reunindo representantes de cerca de 60 países, além de governos locais, povos indígenas, comunidades tradicionais, cientistas, organizações sociais e diplomatas.
O encontro, promovido pelos governos da Colômbia e da Holanda, nasce com um objetivo direto: alimentar a construção de um “Mapa do Caminho” capaz de reduzir, de forma concreta, a dependência global de combustíveis fósseis.
Não se trata de uma nova rodada de negociações formais. A proposta é abrir espaço para um debate mais horizontal, menos travado por protocolos e mais próximo da realidade — sem substituir instâncias oficiais como a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC).
Três eixos, um impasse global
A programação se organiza em torno de três frentes centrais:
- superação da dependência econômica dos fósseis
- transformação da oferta e da demanda de energia
- promoção da cooperação internacional e da diplomacia climática
São temas que parecem técnicos, mas carregam decisões políticas profundas. Reduzir o uso de petróleo e gás implica mexer em cadeias produtivas inteiras — e, inevitavelmente, em interesses econômicos consolidados.
Além dos debates, está prevista a criação de uma coalizão de países dispostos a avançar com medidas concretas — financeiras, fiscais e regulatórias — e compartilhar experiências.
O “Mapa do Caminho” e o papel do Brasil
No centro das discussões está o chamado Mapa do Caminho, proposta lançada pelo Brasil durante a COP30, realizada em Belém (PA), em 2025.
Apesar de não ter sido incorporada ao documento final por falta de consenso, a iniciativa recebeu apoio de cerca de 80 países e segue em construção.
A entrega está prevista para a COP31, em Antália, na Turquia. Atualmente, a presidência brasileira analisa contribuições recebidas em uma chamada pública internacional encerrada em abril.
Chamam atenção os países que mantêm interesse no debate — como Austrália, Canadá, México, Noruega e União Europeia — todos com peso relevante no mercado energético. Por outro lado, Estados Unidos, China e Índia ficaram de fora dessa construção específica.
Pressão social e protagonismo da Amazônia
Fora das salas de negociação, o debate ganha densidade política e social. No Brasil, organizações da sociedade civil — de povos indígenas a redes com centenas de instituições — apresentaram contribuições e pressionam por uma transição que também seja justa.
Especialistas avaliam que o país chega à conferência com potencial para exercer papel estratégico na construção de consensos e na articulação internacional.
A escolha da Colômbia como sede também carrega simbolismo. País amazônico, o território conecta o debate energético às disputas ambientais mais sensíveis da atualidade.
Organizações ambientais alertam para riscos de expansão da exploração de petróleo em áreas como a Foz do Amazonas, destacando impactos que podem ultrapassar fronteiras e afetar o equilíbrio climático global.
Entre o discurso e a urgência
A conferência de Santa Marta não promete soluções imediatas — mas escancara uma mudança de fase no debate climático.
A discussão já não gira em torno de reconhecer o problema. O foco agora está no ritmo da transição, na divisão de responsabilidades e no custo das mudanças.
O que está em jogo não é apenas a matriz energética, mas o redesenho de um modelo econômico global ainda profundamente dependente dos combustíveis fósseis.
Enquanto isso, do lado de fora, o mar segue batendo nas pedras — indiferente às negociações, mas diretamente afetado por elas.


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