quinta-feira, 23 de abril de 2026

Entre o bolo, a fé e os atabaques: Curitiba vive o dia de São Jorge com devoção e comunidade

Da tradição católica no Portão às giras dedicadas a Ogum no Santa Cândida, 23 de abril revela um sincretismo vivo e cotidiano na capital paranaense

Entre o bolo, a fé e os atabaques: Curitiba vive o dia de São Jorge com devoção e comunidade. Da tradição católica no Portão às giras dedicadas a Ogum no Santa Cândida, 23 de abril revela um sincretismo vivo e cotidiano na capital paranaense.

O movimento começa cedo, mas em Curitiba ele não se impõe — ele se espalha. Entra pelas portas das igrejas, pelas cozinhas, pelos terreiros. E, quando se percebe, já tomou o dia inteiro.

No bairro Portão, a Paróquia São Jorge se transforma em ponto de encontro ao longo deste 23 de abril. A cena é simples, quase doméstica: filas se formam, conversas cruzam o pátio, crianças observam curiosas.

O bolo que carrega promessas

No centro de tudo, o bolo de São Jorge. São cerca de 5 mil pedaços, com recheios que vão do doce de leite ao creme de abacaxi com coco, vendidos a R$ 10. Mas o que move a fila não é exatamente o sabor.

Dentro da massa, medalhinhas de São Jorge foram escondidas. Quem encontra, guarda. Não é prêmio — é sinal.

Proteção, sorte, caminho aberto. Cada fiel interpreta à sua maneira, numa fé que se manifesta em pequenos gestos, quase silenciosos.

A programação segue até o fim de semana. No dia 25, a tradicional Tarde do Pastel amplia o encontro: pastéis também a R$ 10, bebidas, famílias reunidas. Um ambiente em que a devoção se mistura com pertencimento — fé que também é convivência.

No domingo, 26, o encerramento ganha movimento. Após a missa das 10h, a carreata percorre as ruas da região. Carros, motos, famílias. Ao retornar, todos recebem a bênção.

É um ritual profundamente cotidiano. Um pedido silencioso de proteção para quem enfrenta, todos os dias, seus próprios caminhos.

Ogum: a força que abre caminhos

Mas Curitiba também celebra fora das estruturas católicas — e é aí que o dia revela outra camada.

No Terreiro Pai Maneco, no bairro Santa Cândida, o 23 de abril é dedicado a Ogum — o orixá da guerra, da luta e da abertura de caminhos. A casa, fundada por Pai Fernando de Ogum, mantém suas giras ao longo da semana voltadas a essa energia.

Em mensagem publicada nas redes, o terreiro resume a essência do orixá:

“Hoje é dia de Ogum.

O Orixá da guerra, da demanda e da luta. O guerreiro que não recua, o protetor que não negocia a justiça e o líder que abre o caminho quando tudo parece fechado.

Seus filhos carregam essa energia: francos, decididos, insaciáveis nas conquistas e leais até o fim com quem é seu. Não fazem rodeio. Não admitem injustiça. E quando encontram equilíbrio, são, por qualquer caminho, vencedores.

Aqui no Terreiro Pai Maneco, a casa é de Ogum desde sempre.”

Serviço: feijoada encerra as celebrações

As comemorações seguem até domingo (26), quando o terreiro realiza um dos momentos mais aguardados do calendário:

Feijoada de Ogum — Terreiro Pai Maneco

📅 26 de abril (domingo)

🕛 A partir das 12h

💲 R$ 60,00

🎶 Samba ao vivo com Curitiba Samba Clube

📍 Terreiro Pai Maneco (veja no Maps)

Mais do que um evento gastronômico, a feijoada é encontro. Gente que chega, que volta, que se reconhece. Um outro jeito de fazer a casa acontecer.

Entre o bolo compartilhado no Portão e o tambor que ressoa no Santa Cândida, Curitiba desenha seu próprio jeito de viver o dia.

De um lado, São Jorge. Do outro, Ogum. No fundo, a mesma força: a de quem não recua diante das batalhas da vida. Salve Jorge!

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