Especialistas defendem soluções baseadas na natureza para reduzir impactos das chuvas geradas pelo clima extremo e assim reequilibrar o ambiente urbano
| © Agência Brasil |
O som da chuva já não é apenas um convite ao descanso — em muitas cidades brasileiras, ele chega carregado de tensão. Vivemos tempos de clima extremo. Ruas alagam, córregos transbordam, o cotidiano se interrompe. E, cada vez mais, especialistas apontam que o problema não está só no céu, mas no chão que deixamos de ouvir.
As chuvas extremas se tornaram mais frequentes e intensas, e com elas cresce também a vulnerabilidade urbana. Nesse cenário, uma proposta ganha força: renaturalizar rios — ou seja, devolver aos cursos d’água parte de suas características originais, hoje sufocadas por assoreamento, concreto, canalizações e asfalto.
A paisagista urbana Cecília Herzog, integrante da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN), é direta ao diagnóstico. Segundo ela conta ao repórter Rafael Cardoso, da EBC, o modelo de desenvolvimento adotado ao longo das últimas décadas agravou os efeitos das chuvas ao impermeabilizar o solo e esconder rios sob a cidade.
“A água não desaparece. Ela sempre vai buscar os pontos mais baixos e, em algum momento, pode inundar essas áreas — especialmente regiões planas”, explica.
Com menos áreas permeáveis, a água escoa com mais velocidade, aumentando o risco de alagamentos. A saída, segundo especialistas, passa por reequilibrar esse fluxo. Isso inclui não apenas reabrir rios, mas repensar toda a paisagem urbana: ampliar áreas verdes, recuperar vegetação ciliar e criar sistemas naturais de drenagem.
Quando o solo respira, a dinâmica muda. A água infiltra, é retida por mais tempo e segue seu curso de forma menos agressiva. Em rios abertos, com mata ciliar, ou seja, vegetação ao redor, o impacto das chuvas tende a ser significativamente menor.
| Rovena Rosa/Agência Brasil |
Projetos começam a sair do papel
Esse entendimento começa, ainda que lentamente, a se transformar em ação. Em São Paulo, o futuro Parque Municipal do Bixiga prevê a reabertura de trechos do córrego Bixiga, além da preservação de nascentes e ampliação de áreas verdes. O projeto é resultado de mais de 40 anos de mobilização da sociedade civil.
Já no Rio de Janeiro, um grupo coordenado pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Clima estuda a requalificação do Rio Maracanã com base em soluções naturais. A proposta inclui devolver ao rio parte de suas características originais e ampliar a capacidade de drenagem da região.
Em março, foi firmada uma parceria com o Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-RJ) para a realização de um concurso público nacional voltado à renaturalização. A expectativa é que o edital seja lançado ainda este ano.
Um novo padrão urbano
Para a arquiteta e urbanista Juliana Baladelli Ribeiro, da Fundação Grupo Boticário, a renaturalização não é uma ação isolada — é parte de um novo paradigma de urbanismo.
Entre as soluções defendidas estão telhados verdes, jardins de chuva, valas vegetadas, bacias de retenção e arborização intensiva. Estruturas que, juntas, ajudam a reter temporariamente a água, facilitam sua infiltração no solo e contribuem para a evapotranspiração.
Os efeitos vão além das enchentes. Essas intervenções também ajudam a reduzir ilhas de calor, outro fenômeno cada vez mais presente nas cidades brasileiras.
Mas há um consenso entre especialistas: medidas pontuais não serão suficientes. A adaptação climática exige planejamento integrado, levando em conta as características específicas de cada território.
“É preciso reconstruir o sistema urbano com solo vivo e vegetação nativa, capazes de desempenhar funções ecológicas que hoje estão comprometidas”, afirma Juliana.
No fim das contas, a equação parece simples — embora a execução seja complexa. A cidade que impermeabiliza tudo perde a capacidade de absorver o que vem do céu. E, cedo ou tarde, a água cobra seu caminho.

Nenhum comentário:
Postar um comentário