sexta-feira, 17 de abril de 2026

Cabelo humano vira escudo contra óleo na Baía de Guanabara

Projeto transforma descarte cotidiano em tecnologia ambiental de baixo custo para proteger manguezais no Rio

Cabelo humano vira escudo contra óleo na Baía de Guanabara
Foto: Edgar Costa/Fundação Grupo Boticário

O mar não fala — mas entrega sinais. Na superfície turva da Baía de Guanabara, entre garrafas à deriva e manchas invisíveis de óleo, surge agora uma resposta improvável, quase poética: cabelo humano.

Na enseada de Bom Jesus, na Ilha do Fundão, zona norte do Rio de Janeiro, uma tecnologia simples — e surpreendente — começou a operar onde soluções caras muitas vezes falham. Barreiras formadas por mechas de cabelo humano, envoltas em malha de algodão, passaram a reforçar uma estrutura flutuante de cerca de 300 metros que já atuava na retenção de resíduos sólidos, segundo noticiado pela Agência Brasil.

Agora, além do lixo visível, essas barreiras também capturam o que escapa aos olhos: o óleo.

A lógica é direta. Estudos mostram que um único grama de cabelo é capaz de absorver, em média, até cinco gramas de óleo. Um material abundante, descartado diariamente em salões e barbearias, passa a cumprir um papel ambiental estratégico — com baixo custo e alto impacto.

A iniciativa é conduzida pelas organizações Orla Sem Lixo Transforma (OSLT) e Fiotrar, com apoio da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza. É a primeira vez que esse tipo de tecnologia é aplicado em um ecossistema natural no Brasil.

Há também uma dimensão social no projeto. A Fiotrar já trabalha com a coleta de cabelos para a produção de perucas destinadas a pacientes com câncer. Agora, amplia seu alcance: o que antes seria descartado passa a integrar uma cadeia de reaproveitamento com impacto ambiental direto.

Depois de um ano de testes e adaptações às condições específicas da baía, o sistema começa a mostrar resultados. A preocupação central está nos manguezais — áreas sensíveis e essenciais para o equilíbrio costeiro. Funcionam como barreiras naturais contra erosão, ajudam a conter a força das marés e desempenham papel crucial no sequestro de carbono.

Proteger esses territórios é, na prática, proteger a própria cidade.

A nova barreira não resolve tudo. Mas aponta um caminho. Um desses raros momentos em que ciência, sustentabilidade e engenho cotidiano se encontram — e funcionam.

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