Investigações sobre desvio milionário de drogas, violência e fraudes se cruzam e expõem fissuras dentro da corporação
| O PM e influencer Junior Sancho Cambuhy, conhecido como “Sancho Loko” - Reprodução/Redes sociais |
O que começa como uma suspeita isolada, às vezes, cresce em silêncio — até se tornar impossível ignorar. No Paraná, uma sequência recente de denúncias envolvendo policiais militares passou a formar um quadro mais amplo, mais sensível — e mais difícil de explicar como episódios desconectados. Ontem mesmo (7) a Oposição na ALEP promoveu uma audiência pública sobre denúncias de desvios graves na Polícia Militar do Paraná (PMPR), inclusive com assassinatos durante abordagens policiais.
De acordo com denúncias, há apreensão de drogas que desaparecem. Operações suspeitas. Violência fora do protocolo. E agora, a prisão de um policial conhecido do grande público. As peças ainda estão sendo organizadas pelas investigações. Mas o desenho que começa a surgir já pressiona a corporação por respostas.
300 quilos de crack e uma diferença que não fecha a conta
O ponto de partida dessa sequência remonta a uma apreensão realizada em outubro do ano passado, em Campo Largo, na Região Metropolitana de Curitiba. Segundo as investigações, cerca de 300 quilos de crack teriam sido recolhidos. No entanto, apenas 30 quilos foram oficialmente apresentados.
A diferença — aproximadamente 270 quilos, avaliados em até R$ 45 milhões — levantou suspeitas dentro da própria Polícia Militar. Nove policiais passaram a ser investigados. Parte deles foi afastada das funções e perdeu o porte de arma. Mas o caso rapidamente deixou de ser apenas contábil.
Quando a droga some, a violência aparece
Com o avanço das apurações, surgiram conexões com episódios mais graves. Em novembro, no bairro Sítio Cercado, um homem foi retirado de casa por indivíduos armados que se apresentavam como agentes do Gaeco. Horas depois, ele foi encontrado morto na Cidade Industrial de Curitiba.
Relatos indicam que vítimas foram levadas a áreas isoladas e pressionadas a revelar o paradeiro de uma carga de drogas desaparecida. A principal linha investigativa considera que o sumiço da droga pode ter alimentado disputas no tráfico — com reflexos diretos em crimes violentos na Grande Curitiba.
Policiais entre os investigados
Outro episódio ampliou ainda mais o alcance das suspeitas. Uma abordagem na BR-369, envolvendo um caminhão-cegonha, levou à identificação de um grupo que buscava cocaína na carga. Entre os ocupantes do veículo interceptado posteriormente, estavam policiais militares.
Todos passaram a integrar a lista de investigados. Aos poucos, os elementos começaram a se conectar:
- drogas desaparecidas
- ações com aparência de operações oficiais
- violência associada a disputas do crime
- e agentes públicos sob suspeita
Como todos sabem o pelotão é reflexo do comandante, então é no mínimo um desatino afirmar que o ponto forte do governo Ratinho Júnior foi, ou é a Segurança Pública. Este blog de maneira alguma tentar associar os crimes relatados no passado com as prisões de ontem, entretanto quando padrões começam a se repetir é preciso atenção. A corporação pode estar doente.
Prisão de “Sancho Loko” muda o cenário
Na terça-feira (7), a crise ganhou um novo capítulo — desta vez, com prisão. O policial militar Júnior Sancho Cambuhy, conhecido como “Sancho Loko”, foi preso em Curitiba durante uma operação do Gaeco (MP-PR).
Outros dois policiais também foram alvos da ação, que cumpriu mandados expedidos pela Justiça Militar. A investigação apura a suspeita de prática reiterada de crimes como:
- tortura
- fraude processual
- lesão corporal
- falsidade ideológica
Durante a operação, foram apreendidos celulares e dispositivos eletrônicos que devem ser periciados.
Nas residências de dois investigados, foram encontradas munições irregulares e dinheiro em espécie. Já em armários sem identificação dentro de uma unidade da Polícia Militar, foram localizados simulacros de armas, munições e porções de drogas, incluindo maconha, crack e cocaína. Veja nas fotos a seguir, divulgadas pelo Gaeco.
Entre a farda e as redes sociais
“Sancho Loko” não é um policial desconhecido. Com mais de 260 mil seguidores, ele construiu presença nas redes sociais mostrando bastidores da rotina policial, vídeos de abordagens e participações em conteúdos informais — muitas vezes marcados por linguagem agressiva e posições polêmicas.
Dois dias antes da operação, publicou um vídeo após uma abordagem, relatando uma situação cotidiana de serviço. A repercussão da prisão rapidamente ultrapassou o ambiente institucional e chegou ao campo pessoal.
A filha do policial, em publicação nas redes sociais, saiu em defesa do pai, afirmando que ele estaria sendo perseguido e destacando valores como honra e caráter.
Defesa fala em inocência
O advogado do policial, Claudio Dalledone afirmou que irá comprovar a inocência de seu cliente. Segundo ele, os itens apreendidos são compatíveis com a atuação de Sancho como instrutor de tiro e não há irregularidades comprovadas até o momento.
A defesa também afirmou que a expectativa é de que, após audiência de custódia, a Justiça determine a liberdade do policial.
“É como descobrir um criminoso dentro da própria casa”
Dentro da corporação, o impacto desses episódios é silencioso — mas profundo. O Sulpost conversou com uma fonte da Polícia Militar, que preferiu não se identificar, e o relato revela um sentimento que raramente aparece nas versões oficiais.
Segundo ela, casos como esses provocam vergonha e repulsa entre policiais.
“A maioria é de gente honesta, que sai de casa todos os dias sem saber se vai voltar. A gente arrisca a vida. Quando aparece alguém envolvido em crime, isso atinge todo mundo”, afirmou.
A comparação é direta — e carregada de significado:
“É como descobrir um familiar dentro da sua própria casa fazendo coisa errada. Roubando, desviando, cometendo crime. É uma sensação de vergonha.”
Uma instituição sob pressão
Em nota, a Polícia Militar do Paraná (PMPR) afirmou que irá instaurar procedimentos administrativos e reforçou que não compactua com desvios de conduta. As investigações seguem em andamento, tanto na Corregedoria quanto no Ministério Público.
Mas o impacto já é visível. Do lado de fora, cresce a desconfiança. Do lado de dentro, o desgaste se acumula em silêncio.
Entre denúncias, afastamentos e agora prisões, o que está em jogo deixa de ser apenas a responsabilização individual — e passa a tocar na confiança em uma instituição que opera diariamente no limite entre o risco e o dever. Inclusive levantando outro debate, a desmilitarização das polícias no Brasil.




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