sábado, 25 de abril de 2026

O mundo quer mais que terras raras — quer o controle da riqueza estratégica brasileira

Disputa global se intensifica e governo reage: país não quer repetir papel histórico de ser mero exportador de matéria-prima

O mundo quer mais que terras raras — quer o controle da riqueza estratégica brasileira. Disputa global se intensifica e governo reage: país não quer repetir papel histórico de ser mero exportador de matéria-prima.

No subsolo brasileiro, há mais do que minério. Há um tipo de riqueza que não aparece à primeira vista, mas que hoje move decisões de Estado, contratos bilionários e rearranjos silenciosos no mapa do poder global.

Dizer que o mundo está de olho nas terras raras do Brasil já não descreve bem o momento. O que se vê agora é uma disputa mais profunda: o interesse não é apenas extrair — é controlar cadeias inteiras de produção que sustentam a economia do século XXI.

Nos últimos dias, esse movimento ganhou contornos mais claros. Em Brasília, o governo federal começou a reagir de forma mais explícita, tentando evitar que o país repita um padrão conhecido: exportar riqueza bruta e importar tecnologia cara.

O recado direto de Brasília

Em entrevista ao programa Bom Dia, Ministro, o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, foi direto ao ponto:

“Não queremos ser um exportador de matéria-prima. Minerais críticos e terras raras têm que ser objeto de industrialização.”

A fala não é isolada. Ela surge no meio de um debate que ganhou urgência dentro do governo: criar regras claras para um setor que deixou de ser apenas econômico e passou a ser estratégico.

A avaliação é que o Brasil ainda opera com lacunas regulatórias em um momento em que esses recursos passaram a ter peso geopolítico.

O negócio que acendeu o alerta

O ponto de virada recente foi a venda da mineradora Serra Verde, em Goiás, para a empresa norte-americana USA Rare Earth, em um negócio estimado em US$ 2,8 bilhões.

A empresa opera a única mina de argilas iônicas ativa do Brasil, responsável pela produção de elementos como neodímio, disprósio, térbio e ítrio — componentes essenciais para tecnologias que vão de carros elétricos a sistemas de defesa.

São matérias-primas invisíveis no dia a dia, mas absolutamente centrais para:

  • turbinas eólicas
  • veículos elétricos
  • chips e semicondutores
  • drones e equipamentos militares

O episódio escancarou o tamanho do interesse internacional — e também a fragilidade de um setor ainda pouco estruturado no país.

O tamanho do ativo brasileiro

Segundo o Serviço Geológico do Brasil, o país reúne cerca de 21 milhões de toneladas de terras raras — aproximadamente 23% das reservas globais. É a segunda maior concentração do planeta.

Mas o potencial brasileiro vai além. O país também concentra:

  • 94% das reservas mundiais de nióbio
  • 26% das reservas de grafita
  • 12% das reservas de níquel

Na prática, trata-se de um conjunto de recursos que sustenta a transição energética, a indústria de alta tecnologia e boa parte da economia digital.

O Brasil entra no jogo

Essa corrida tem uma origem clara. Hoje, a China domina amplamente o refino e a produção de terras raras, o que gera preocupação em outras potências, como Estados Unidos e países europeus. A dependência é vista como um risco estratégico.

Por isso, cresce a busca por novos fornecedores — e o Brasil aparece como uma das poucas alternativas viáveis em escala. O problema é que extrair não basta. A cadeia produtiva desses minerais envolve etapas mais complexas, como beneficiamento e refino, que ainda são pouco desenvolvidas no país. É justamente aí que está o maior valor econômico.

O risco de repetir o passado

Especialistas apontam que o Brasil ainda carrega um padrão histórico difícil de romper: exporta matéria-prima e importa produtos industrializados. Foi assim com o ouro, com o ferro e, em certa medida, com o petróleo.

Sem mudança estrutural, o país corre o risco de repetir esse ciclo — agora com minerais ainda mais estratégicos. O resultado é conhecido: baixo valor agregado interno e dependência tecnológica externa.

Mais do que economia

A discussão também envolve custos que não aparecem nas planilhas. A mineração desses recursos provoca impactos ambientais relevantes, como pressão sobre recursos hídricos e alterações profundas no território. Também tende a gerar efeitos sociais intensos nas regiões onde ocorre.

Mesmo com avanços tecnológicos, a atividade continua sendo altamente invasiva. Isso impõe ao país uma escolha delicada: como transformar riqueza mineral em desenvolvimento sem ampliar desigualdades ou comprometer recursos naturais.

O momento de decisão

Em Brasília, o debate ainda está em construção. O governo discute um marco legal mais robusto para o setor, que deve abranger desde a exploração até operações societárias envolvendo empresas mineradoras.

A ideia é reduzir inseguranças jurídicas e, ao mesmo tempo, garantir que parte relevante dessa riqueza permaneça no país.

O sinal mais claro, até aqui, é político: o Brasil tenta deixar de ser apenas fornecedor de insumos para assumir um papel mais ativo na cadeia global. Se vai conseguir, ainda é uma incógnita.

E uma coisa já mudou: o interesse internacional nas terras raras brasileiras não é mais apenas econômico. É estratégico. E crescente. Um mercado sustentado por toda uma cadeia de extração, transporte, beneficiamento e refino gera divisas, gera emprego. E isso é pra já.

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