Com aquecimento consistente no Pacífico, OMM e NOAA convergem para alta probabilidade do fenômeno; Sul do país deve enfrentar mais chuva e risco de eventos extremos
O Pacífico voltou a dar sinais — discretos, mas contínuos. Nas últimas semanas, a temperatura da superfície do mar na faixa equatorial começou a subir de forma mais organizada. Não é um movimento brusco, nem evidente à primeira vista. Mas, para quem acompanha o clima, é o tipo de mudança que acende alerta.
Desta vez, não se trata de uma leitura isolada. A Organização Meteorológica Mundial (OMM) e a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) caminham na mesma direção: há alta probabilidade de retorno do El Niño entre maio e julho de 2026.
O fenômeno — caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Pacífico central e oriental — costuma durar de nove a doze meses. Quando se instala, dificilmente passa despercebido.
Sinais técnicos mais consistentes
A OMM aponta que já se observa uma mudança clara no Pacífico Equatorial, com aquecimento acelerado da superfície do mar. Segundo o chefe de previsão climática da entidade, Wilfran Moufouma Okia, os modelos numéricos estão hoje “fortemente alinhados” para o início do fenômeno, com tendência de intensificação ao longo do ano.
O diagnóstico é reforçado pelo NOAA, que mantém o sistema climático ainda em condição neutra, mas sob vigilância. Há um alerta ativo — o chamado El Niño Watch — indicando que as condições atmosféricas e oceânicas estão se tornando favoráveis à formação do evento.
Na prática, isso se traduz em uma probabilidade próxima de 60% para o desenvolvimento do El Niño já no trimestre que começa em maio.
Ainda assim, há cautela. Esse período do ano é conhecido entre meteorologistas como uma zona de menor previsibilidade. Projeções mais firmes costumam surgir a partir do fim do outono.
Fenômeno reorganizador do clima
O El Niño atua como um reorganizador do sistema climático. Ao aquecer o Pacífico, ele altera a circulação atmosférica em larga escala e desloca os padrões de chuva e temperatura em diferentes regiões do planeta.
Entre os efeitos mais recorrentes:
- aumento da temperatura média global
- mudanças nos regimes de precipitação
- maior frequência de extremos climáticos
Não é um evento isolado, tampouco localizado. Seus efeitos se espalham.
América do Sul no eixo das mudanças
- mais chuva no sul da América do Sul
- menos chuva nas áreas mais ao norte
Esse padrão, observado em episódios anteriores e reforçado pelos modelos atuais, coloca o Cone Sul em posição de maior vulnerabilidade a eventos hidrológicos.
Brasil: impactos desiguais
Sul do Brasil (Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná)
A tendência é de aumento das chuvas ao longo do inverno e da primavera.
- enchentes
- cheias de rios
- deslizamentos de terra
Também se espera maior frequência de episódios de instabilidade, com tempestades mais intensas.
No Paraná, o histórico indica períodos prolongados de solo saturado e variações rápidas nas condições do tempo.
Sudeste
- chuvas irregulares
- episódios de calor mais persistente
- oscilações no nível de reservatórios
Norte e Nordeste
- redução das chuvas
- risco de seca
- pressão sobre abastecimento e produção agrícola
Temperatura global sob pressão
Além das mudanças regionais, o El Niño costuma contribuir para a elevação da temperatura média do planeta. Funciona como um fator adicional em um sistema climático já aquecido.
O que ainda não se sabe
Apesar da convergência entre os principais centros meteorológicos, há uma variável decisiva em aberto: a intensidade do fenômeno.
Não se sabe ainda se o evento será fraco, moderado ou forte. Essa definição costuma se consolidar apenas ao longo do inverno no hemisfério sul. Até lá, o cenário é de monitoramento constante.
O Pacífico já deu o primeiro sinal. Agora, o restante do sistema climático começa a responder — e o Brasil, especialmente o Sul, entra novamente no mapa de atenção.


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