Ataques atingem museus no Irã e colocam em risco séculos de história persa

Bombardeios atribuídos a EUA e Israel danificam ao menos 120 locais culturais, incluindo patrimônios reconhecidos pela Unesco

Gettyimages.ru / Fatemeh Bahrami/Anadolu

O silêncio de um museu não é vazio — ele guarda vozes antigas. No Irã, esse silêncio foi interrompido por explosões.

Relatórios divulgados nesta sexta-feira (27), pela agência de notícias iraniana, indicam que ataques aéreos atribuídos aos Estados Unidos e a Israel atingiram ao menos 120 museus e marcos históricos em diferentes regiões do país, incluindo áreas na capital, Teerã. Os dados foram apresentados por Ahmad Alavi, chefe do Comitê de Patrimônio Cultural da cidade, em entrevista à agência iraniana ISNA.

Entre os locais afetados estão estruturas que não pertencem apenas ao Irã — mas à história da humanidade.

O Palácio Golestan, em Teerã, um dos símbolos da arquitetura persa e reconhecido como Patrimônio Mundial da Unesco, está entre os atingidos. Também foram registrados danos no Palácio de Mármore, no Museu Teymourtash e no complexo de Saadabad, que abriga não apenas museus, mas também instalações ligadas à presidência iraniana.

A destruição não se limita à capital.

Na histórica cidade de Isfahan, considerada uma das joias arquitetônicas do mundo islâmico, ataques afetaram a Mesquita Jameh e o Palácio Chehel Sotoun, além de impactos relatados na icônica Praça Naqsh-e Jahan, construída no século XVII. No oeste do país, áreas arqueológicas no Vale de Khorramabad também sofreram danos.

A própria Unesco confirmou que ao menos quatro dos 29 sítios iranianos reconhecidos como Patrimônio da Humanidade foram atingidos. Em nota, a organização alertou para danos a “diversos sítios de importância cultural” na região.

Outras perdas incluem casas históricas na cidade de Bushehr — estruturas que ajudam a contar a vida cotidiana de diferentes períodos da história iraniana.

O Irã abriga um dos acervos culturais mais antigos do planeta. Sua herança remonta à civilização persa, consolidada no Planalto do Irã a partir do século VI antes de Cristo. Cada palácio, mesquita ou sítio arqueológico carrega camadas de tempo que atravessam impérios, religiões e transformações políticas.

Quando um desses espaços é atingido, não é apenas pedra que se perde. Perde-se contexto. Perde-se memória. Perde-se uma parte da narrativa humana que não pode ser reconstruída com precisão.

Em cenários de guerra, a destruição de patrimônio cultural costuma ser tratada como dano colateral. Mas, em muitos casos, ela também carrega um peso simbólico: atingir a identidade de um povo, sua história e seus marcos civilizatórios.

Entre a estratégia militar e a preservação cultural, a linha é frágil — e, muitas vezes, ignorada. No fim, a pergunta que fica não é apenas sobre quem avança ou recua em um conflito. É sobre o que sobra quando o conflito termina.

Edição: Ronald Stresser Jr

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