sábado, 28 de fevereiro de 2026

Juiz de Fora chora — e cobra: sobreviventes denunciam falha em alertas após tragédia histórica

Com mais de 60 mortos e milhares de famílias afetadas, moradores e especialistas apontam falhas na comunicação de risco e cobram plano real de evacuação diante de chuvas extremas

O silêncio veio antes do barulho.

A chuva caiu pesada, insistente, como tantas outras já haviam caído. Em bairros cercados por encostas, a rotina seguiu por alguns minutos — gente em casa, portas fechadas, a tentativa de esperar passar.

Depois veio a terra.

Em poucos instantes, o que era lar virou escombro. O que era cotidiano virou estatística. E o que deveria ser alerta, segundo sobreviventes, não chegou.

Na cidade de Juiz de Fora, na Zona da Mata mineira, as chuvas extremas desta semana entraram para a história como um dos eventos mais severos já registrados. O número de mortos já ultrapassa 60. Milhares estão desalojados ou desabrigados.

Mas, para quem viveu o desastre, a pergunta ecoa com força: por que não houve aviso suficiente para salvar mais vidas?

“Não teve aviso”

No bairro Jardim Parque Burnier, uma das áreas mais atingidas — a cerca de três quilômetros do centro — mais de 20 pessoas morreram e dezenas foram resgatadas sob escombros.

O pedreiro Danilo Frates sobreviveu. E a memória que ele guarda é a ausência.

“Não teve aviso, não teve sirene para alertar, não teve”, relatou.

Ele conta que só percebeu o deslizamento quando saiu de casa e viu poeira no ar, mesmo sob chuva. A percepção veio tarde demais — como aconteceu com muitos vizinhos.

Para Danilo, se houvesse alerta direto, orientação no local ou evacuação preventiva, o desfecho poderia ter sido outro.

Há um ponto central no relato dele: as pessoas confiam que suas casas são seguras até o último instante. Sem orientação clara, a tendência é permanecer.

Sistema existe — mas não chegou como deveria

De acordo com a Agência Brasil, especialistas da Universidade Federal de Juiz de Fora apontam que o município possui mapa de risco e um sistema de alerta considerado estruturado.

O problema, segundo o professor Miguel Felippe, é outro: comunicação e organização.

Falta um plano que diga com clareza:

  • quando sair
  • para onde ir
  • quais rotas seguir
  • onde estão os abrigos

“É preciso ir a campo, conversar com as pessoas, instruir, ter um plano de contingência muito claro”, defende.

Já o professor Jordan de Souza destaca que alertas são tão importantes quanto obras de engenharia. Nos últimos dias, o volume de chuva superou a capacidade das estruturas existentes, enquanto intervenções ainda estão em andamento.

Em alguns casos, afirma, não há solução técnica segura para a encosta. A alternativa passa pela realocação de famílias.

E aqui surge outra camada da tragédia: moradia e desigualdade.

Quando o risco é conhecido — e permanente

O Jardim Burnier tem histórico de deslizamentos. Encostas, casas muito próximas e ocupação em área vulnerável formam um cenário conhecido.

Uma das histórias que simbolizam a dimensão humana da tragédia é a de uma mãe que morreu abraçada aos dois filhos pequenos. Ela havia sido alertada por um familiar para sair de casa.

A residência ficava encostada em outra já condenada pela Defesa Civil.

Uma sequência de decisões difíceis, necessidade econômica e falta de alternativa habitacional resultou em fatalidade.

Especialistas apontam: o desastre não é apenas natural — ele é social.

O que diz a prefeitura

A prefeitura afirma que existe sistema de alerta por mensagens para celulares e que a Defesa Civil atua preventivamente.

Segundo a secretária de Desenvolvimento Urbano e Participação Popular, Cidinha Louzada, sirenes sonoras não seriam adequadas devido às características do terreno.

Ela também aponta um fator recorrente: muitas pessoas não deixam suas casas.

Medo de perder o imóvel. Falta de opção. Histórico de décadas sem tragédias graves.

A gestão afirma oferecer auxílio-moradia — ampliado de R$ 200 para R$ 1,2 mil — e cita novas unidades do programa Minha Casa, Minha Vida em construção.

Há ainda obras de contenção e drenagem, com investimentos superiores a R$ 500 milhões, incluindo a instalação de um pôlder para conter enchentes.

Mas obras levam tempo. A chuva não.

A chuva que mudou o tempo da cidade

O acumulado chegou a 749 milímetros até 25 de fevereiro — o maior em 30 anos.

Eventos comparáveis ocorreram em 1972 e 1985, quando a cidade tinha outro perfil de ocupação urbana.

Hoje, a expansão urbana em áreas frágeis torna o impacto maior. Mais gente exposta. Mais vidas em risco.

E, diante disso, cresce a cobrança: alerta precisa ser ação, não apenas sistema.

A pergunta que fica

A tragédia de Juiz de Fora não expõe apenas a força da natureza. Ela revela limites conhecidos — comunicação falha, planejamento incompleto, desigualdade habitacional.

Sobreviventes não falam em tecnologia inexistente. Eles falam em algo mais simples e decisivo: aviso que chegue, orientação clara, presença antes do desastre.

Porque quando a terra desce, não há tempo para aprender.

Há apenas tempo para sobreviver.

E nem todos conseguem.

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