Com mais de 60 mortos e milhares de famílias afetadas, moradores e especialistas apontam falhas na comunicação de risco e cobram plano real de evacuação diante de chuvas extremas
O silêncio veio antes do barulho.
A chuva caiu pesada, insistente, como tantas outras já haviam caído. Em bairros cercados por encostas, a rotina seguiu por alguns minutos — gente em casa, portas fechadas, a tentativa de esperar passar.
Depois veio a terra.
Em poucos instantes, o que era lar virou escombro. O que era cotidiano virou estatística. E o que deveria ser alerta, segundo sobreviventes, não chegou.
Na cidade de Juiz de Fora, na Zona da Mata mineira, as chuvas extremas desta semana entraram para a história como um dos eventos mais severos já registrados. O número de mortos já ultrapassa 60. Milhares estão desalojados ou desabrigados.
Mas, para quem viveu o desastre, a pergunta ecoa com força: por que não houve aviso suficiente para salvar mais vidas?
“Não teve aviso”
No bairro Jardim Parque Burnier, uma das áreas mais atingidas — a cerca de três quilômetros do centro — mais de 20 pessoas morreram e dezenas foram resgatadas sob escombros.
O pedreiro Danilo Frates sobreviveu. E a memória que ele guarda é a ausência.
“Não teve aviso, não teve sirene para alertar, não teve”, relatou.
Ele conta que só percebeu o deslizamento quando saiu de casa e viu poeira no ar, mesmo sob chuva. A percepção veio tarde demais — como aconteceu com muitos vizinhos.
Para Danilo, se houvesse alerta direto, orientação no local ou evacuação preventiva, o desfecho poderia ter sido outro.
Há um ponto central no relato dele: as pessoas confiam que suas casas são seguras até o último instante. Sem orientação clara, a tendência é permanecer.
Sistema existe — mas não chegou como deveria
De acordo com a Agência Brasil, especialistas da Universidade Federal de Juiz de Fora apontam que o município possui mapa de risco e um sistema de alerta considerado estruturado.
O problema, segundo o professor Miguel Felippe, é outro: comunicação e organização.
Falta um plano que diga com clareza:
- quando sair
- para onde ir
- quais rotas seguir
- onde estão os abrigos
“É preciso ir a campo, conversar com as pessoas, instruir, ter um plano de contingência muito claro”, defende.
Já o professor Jordan de Souza destaca que alertas são tão importantes quanto obras de engenharia. Nos últimos dias, o volume de chuva superou a capacidade das estruturas existentes, enquanto intervenções ainda estão em andamento.
Em alguns casos, afirma, não há solução técnica segura para a encosta. A alternativa passa pela realocação de famílias.
E aqui surge outra camada da tragédia: moradia e desigualdade.
Quando o risco é conhecido — e permanente
O Jardim Burnier tem histórico de deslizamentos. Encostas, casas muito próximas e ocupação em área vulnerável formam um cenário conhecido.
Uma das histórias que simbolizam a dimensão humana da tragédia é a de uma mãe que morreu abraçada aos dois filhos pequenos. Ela havia sido alertada por um familiar para sair de casa.
A residência ficava encostada em outra já condenada pela Defesa Civil.
Uma sequência de decisões difíceis, necessidade econômica e falta de alternativa habitacional resultou em fatalidade.
Especialistas apontam: o desastre não é apenas natural — ele é social.
O que diz a prefeitura
A prefeitura afirma que existe sistema de alerta por mensagens para celulares e que a Defesa Civil atua preventivamente.
Segundo a secretária de Desenvolvimento Urbano e Participação Popular, Cidinha Louzada, sirenes sonoras não seriam adequadas devido às características do terreno.
Ela também aponta um fator recorrente: muitas pessoas não deixam suas casas.
Medo de perder o imóvel. Falta de opção. Histórico de décadas sem tragédias graves.
A gestão afirma oferecer auxílio-moradia — ampliado de R$ 200 para R$ 1,2 mil — e cita novas unidades do programa Minha Casa, Minha Vida em construção.
Há ainda obras de contenção e drenagem, com investimentos superiores a R$ 500 milhões, incluindo a instalação de um pôlder para conter enchentes.
Mas obras levam tempo. A chuva não.
A chuva que mudou o tempo da cidade
O acumulado chegou a 749 milímetros até 25 de fevereiro — o maior em 30 anos.
Eventos comparáveis ocorreram em 1972 e 1985, quando a cidade tinha outro perfil de ocupação urbana.
Hoje, a expansão urbana em áreas frágeis torna o impacto maior. Mais gente exposta. Mais vidas em risco.
E, diante disso, cresce a cobrança: alerta precisa ser ação, não apenas sistema.
A pergunta que fica
A tragédia de Juiz de Fora não expõe apenas a força da natureza. Ela revela limites conhecidos — comunicação falha, planejamento incompleto, desigualdade habitacional.
Sobreviventes não falam em tecnologia inexistente. Eles falam em algo mais simples e decisivo: aviso que chegue, orientação clara, presença antes do desastre.
Porque quando a terra desce, não há tempo para aprender.
Há apenas tempo para sobreviver.
E nem todos conseguem.


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