Trump pressiona líderes estrangeiros a romper relações econômicas com Teerã; Washington ainda não divulgou quais países poderão ser punidos, mas ameaça atingir empresas e governos que mantenham negócios com o Irã
Os Estados Unidos ampliaram nesta segunda-feira (24) a ofensiva econômica contra o Irã e passaram a pressionar governos de outros países a cortar relações comerciais e financeiras com Teerã. A escalada abre um novo foco de atenção para o Brasil, que mantém um fluxo relevante de exportações para o mercado iraniano e integra o BRICS ao lado do país persa.
Durante coletiva em Washington, o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, afirmou que o presidente Donald Trump vem telefonando pessoalmente para líderes estrangeiros com pedidos específicos para que interrompam suas relações econômicas com o Irã. Segundo Bessent, a Casa Branca já estaria observando resultados dessa pressão.
Bessent, porém, não revelou quais países foram procurados nem quais governos ou empresas poderão ser atingidos pelas chamadas sanções secundárias. A Reuters informou que Washington anunciou a possibilidade de ampliar essas punições, mas, por enquanto, não aplicou penalidades secundárias diretamente contra países que fazem negócios com Teerã.
A nova estratégia foi apresentada pelo governo Trump como um “Dia D econômico” contra o Irã. O objetivo declarado é cortar as fontes de receita e as conexões financeiras internacionais que ainda permitem ao governo iraniano sustentar sua economia.
Cinco setores entram no foco dos EUA
Segundo Bessent, a ofensiva mira cinco áreas consideradas fundamentais para a geração de receitas e para as relações internacionais do Irã: ativos digitais, ouro, tecnologia, aviação e transporte marítimo. O Tesouro americano também anunciou sanções contra mais de 60 indivíduos, empresas e embarcações acusados de contribuir para a aquisição de tecnologia nuclear e de mísseis, operações cibernéticas e geração de receitas provenientes do petróleo.
O secretário afirmou ainda que governos e empresas terão um período para interromper as atividades consideradas incompatíveis com as exigências americanas. A mensagem de Washington é que novas medidas poderão ser adotadas rapidamente caso essas relações continuem.
A ofensiva amplia um regime de sanções que já atingiu mais de mil pessoas, embarcações e aeronaves ligadas ao Irã desde o início do segundo mandato de Trump, segundo dados do próprio Tesouro americano citados pela Reuters.
Brasil pode ser afetado?
O Brasil não foi citado como alvo específico nas medidas anunciadas nesta segunda-feira. Ainda assim, a pressão americana cria um risco potencial para empresas brasileiras que tenham negócios com o Irã, sobretudo se essas operações envolverem bancos, seguradoras, transporte marítimo, intermediários financeiros ou instituições com exposição ao sistema financeiro dos Estados Unidos.
O Ministério da Agricultura considera o Irã um dos principais parceiros comerciais do Brasil no Oriente Médio e informa que as exportações brasileiras ao país chegam a aproximadamente US$ 5 bilhões por ano, com predominância de milho, soja, óleo comestível, carne bovina e açúcar.
Os números oficiais de comércio exterior mostram, entretanto, uma fotografia mais recente e diferente desse valor anual: entre janeiro e julho de 2026, o Brasil exportou US$ 303,6 milhões para o Irã, segundo os dados consolidados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.
A relação é especialmente relevante para o agronegócio. Em 2025, o Paraná, por exemplo, registrou forte crescimento das vendas ao mercado iraniano, que alcançaram US$ 823 milhões, segundo dados do governo estadual.
BRICS aumenta a sensibilidade diplomática
A situação ganha uma dimensão adicional porque Brasil e Irã são integrantes do BRICS. Uma eventual tentativa de Washington de ampliar a pressão para além das empresas diretamente ligadas ao governo iraniano poderia colocar países emergentes diante de uma escolha delicada entre preservar seus canais comerciais com Teerã ou reduzir a exposição a sanções americanas.
Por enquanto, contudo, não há indicação de que os Estados Unidos tenham decidido aplicar sanções secundárias contra o Brasil.
O movimento desta segunda-feira mostra, ainda assim, que Washington pretende aumentar o custo para terceiros países que continuem funcionando como canais comerciais, financeiros ou logísticos para o Irã.
A Reuters informa que China, Turquia e Emirados Árabes Unidos estão entre os principais parceiros comerciais de Teerã. A China, em particular, é um importante comprador do petróleo iraniano, mas o governo Trump evitou, nesta rodada, atingir grandes instituições financeiras chinesas, em meio à expectativa de uma reunião entre Trump e o presidente chinês Xi Jinping.
Os Emirados Árabes Unidos, por sua vez, anunciaram recentemente a suspensão de comércio, intercâmbios comerciais e transações financeiras com o Irã. Bessent apresentou a decisão como um dos resultados da pressão exercida por Trump sobre governos estrangeiros.
Pressão sobre Teerã aumenta
A nova ofensiva ocorre enquanto a guerra entre Estados Unidos e Irã se aproxima de seis meses e as negociações diplomáticas para encerrar o conflito permanecem travadas. A pressão econômica se soma ao bloqueio naval americano e às medidas adotadas anteriormente contra o petróleo, a chamada frota clandestina de navios-tanque e redes financeiras utilizadas por Teerã.
O rial iraniano atingiu nesta segunda-feira uma nova mínima, chegando a cerca de 2,02 milhões de riais por dólar no mercado, segundo a Associated Press.
Para o Brasil, o ponto central agora é acompanhar como Washington transformará a ameaça de sanções secundárias em medidas concretas. Enquanto nenhum órgão americano incluir o país ou empresas brasileiras em uma lista de sanções, não é correto afirmar que o Brasil esteja sob sanção. Mas a manutenção de um comércio relevante com Teerã coloca empresas brasileiras diante de um novo risco regulatório e financeiro.
A tendência é que a pressão aumente nos próximos dias. Bessent afirmou que o Tesouro americano pretende anunciar ainda nesta semana novas medidas envolvendo pelo menos uma instituição financeira, ampliando o alcance da campanha para isolar economicamente o Irã.

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