sábado, 27 de junho de 2026

Três dias após terremotos na Venezuela contagem do número de mortos passa de 1,4 mil - socorro internacional se intensifica

ONU alerta que as próximas horas podem definir o destino de milhares de pessoas ainda desaparecidas sob os escombros; Brasil está entre os países que ofereceram ajuda humanitária e equipes de resgate

 Equipes de resgate vasculham os escombros de um prédio que desabou em um subúrbio de Caracas após o terremoto na Venezuela - Foto: Ocha/Luisana Solano (Reprodução/ONU)

O silêncio que paira sobre os escombros de La Guaira é hoje um dos sons mais temidos da Venezuela. Em meio a montanhas de concreto retorcido e escombros, equipes de resgate trabalham contra o relógio em uma corrida desesperada para encontrar sobreviventes dos dois terremotos que devastaram parte do país na última quarta-feira (24). A cada hora que passa, diminuem as chances de localizar pessoas com vida sob prédios desabados. Ainda assim, socorristas seguem escutando, chamando e removendo destroços na esperança de ouvir uma resposta.

O balanço mais recente divulgado pelas autoridades venezuelanas aponta pelo menos 1.430 mortos e 3.238 feridos. A Organização das Nações Unidas (ONU) estima que até 50 mil pessoas possam estar desaparecidas, embora esse número inclua casos de pessoas ainda sem contato com familiares devido ao colapso das comunicações e da infraestrutura.

A presidente em exercício da Venezuela, Delcy Rodríguez, afirmou neste sábado (27) que o foco absoluto do governo é encontrar sobreviventes.

"O mais estratégico neste momento é resgatar as pessoas que ainda estão vivas. Essa é a nossa prioridade", declarou.

Segundo ela, mais de 430 réplicas já foram registradas desde os tremores principais, aumentando os riscos para moradores e equipes de emergência.

O dia mais importante do resgate

A ONU considera este sábado um momento crucial para as operações de busca. Tom Fletcher, secretário-geral-adjunto para Assuntos Humanitários da organização, afirmou que as equipes trabalham guiadas pelos sinais de vida vindos dos escombros.

"Somos alertados minuto a minuto, hora a hora, pelo som dos sobreviventes sob os escombros. O pior é quando essas vozes se calam", disse à BBC.

As estimativas da ONU indicam que cerca de sete milhões de pessoas podem ter sido afetadas pelos terremotos, considerados os mais destrutivos registrados na Venezuela em mais de um século.

Histórias de sobrevivência ainda surgem em meio à tragédia. Um bebê recém-nascido foi retirado com vida dos escombros e devolvido à família sob aplausos dos socorristas. Em outro ponto da área devastada, parentes continuam escavando manualmente os restos de um edifício na tentativa de localizar um homem de 31 anos que ainda apresentava sinais de vida horas atrás.

Ajuda internacional supera diferenças políticas

Enquanto as buscas continuam, uma ampla mobilização internacional tenta chegar rapidamente às regiões atingidas.

Segundo a ONU, quase dois mil socorristas estrangeiros já desembarcaram na Venezuela, acompanhados de 39 equipes especializadas e 111 cães farejadores. Grupos de resgate vieram de países da Europa, dos Estados Unidos, da Rússia, da Ucrânia e de diversas nações do Oriente Médio.

O Brasil também ofereceu apoio humanitário e colocou equipes especializadas à disposição das autoridades venezuelanas, juntando-se a uma rede internacional de ajuda que inclui envio de profissionais de resgate, equipamentos, medicamentos, água potável e assistência emergencial.

Em uma das raras ocasiões em que disputas diplomáticas ficam em segundo plano, Fletcher destacou que a resposta internacional tem sido marcada pela cooperação.

"A política fica totalmente em segundo plano neste momento", resumiu.

O desafio agora é fazer com que a ajuda chegue rapidamente às áreas mais afetadas. Estradas bloqueadas, prédios instáveis e danos severos à infraestrutura dificultam o deslocamento das equipes. Em alguns locais, socorristas têm recorrido a motocicletas para acessar regiões onde ambulâncias não conseguem passar.

Sistema de saúde sob pressão

Os hospitais que permaneceram de pé operam acima da capacidade. Muitos feridos estão sendo atendidos em estruturas improvisadas montadas às pressas pelo governo e por organizações humanitárias.

Profissionais de saúde ouvidos pela imprensa internacional relatam que o sistema já enfrentava dificuldades antes da tragédia, cenário que agora se agravou diante do elevado número de vítimas.

O estado de emergência continua em vigor. Aeroportos, linhas ferroviárias e parte do transporte público seguem com operações suspensas ou restritas.

Brasileiros entre as vítimas

O governo brasileiro confirmou a morte de dois cidadãos brasileiros nos terremotos. O Itamaraty informou que presta assistência consular às famílias e não divulgou detalhes pessoais das vítimas.

Também foram registradas mortes de cidadãos de Portugal, China, Espanha e Itália, refletindo a dimensão internacional da tragédia.

Como ocorreu o desastre

Os terremotos aconteceram com apenas 39 segundos de intervalo.

O primeiro tremor, de magnitude 7,2, teve epicentro próximo à cidade de San Felipe, no estado de Yaracuy. Logo em seguida, um segundo terremoto ainda mais forte, de magnitude 7,5, atingiu a região próxima a Yumare.

Além da elevada magnitude, os dois abalos ocorreram a menos de 30 quilômetros de profundidade, característica que potencializa a destruição na superfície.

Os tremores foram sentidos inclusive no Norte do Brasil, especialmente nos estados de Roraima, Amazonas, Pará e Amapá, sem registro de danos significativos.

Agora, enquanto milhares de famílias aguardam notícias de parentes desaparecidos, o país vive uma contagem regressiva angustiante. Nas próximas horas, cada voz ouvida sob os escombros poderá representar mais uma vida salva — e cada minuto fará diferença.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Leia também: