terça-feira, 23 de junho de 2026

Mulheres muçulmanas enfrentam onda de ataques nas ruas e na internet; violência digital cresce no Brasil

Estudo aponta que oito em cada dez muçulmanas já sofreu discriminação por causa da religião. Ao mesmo tempo, denúncias de violência digital contra mulheres aumentaram quase 189% em um ano

 
Mulheres muçulmanas enfrentam onda de ataques nas ruas e na internet; violência digital cresce no Brasil. Estudo aponta que oito em cada dez muçulmanas já sofreu discriminação por causa da religião. Ao mesmo tempo, denúncias de violência digital contra mulheres aumentaram quase 189% em um ano.

O preconceito que antes aparecia em comentários isolados agora atravessa telas, invade redes sociais e acompanha vítimas até a vida real. Para milhares de mulheres brasileiras, especialmente as muçulmanas, a internet tem se transformado em um espaço de exposição permanente a ataques, perseguições e constrangimentos que muitas vezes continuam fora do ambiente digital.

Dados divulgados nos últimos dias revelam um cenário preocupante. De um lado, um estudo da Universidade de São Paulo (USP) mostra que oito em cada dez mulheres muçulmanas já sofreu algum tipo de agressão motivada por islamofobia no Brasil. De outro, o Ministério das Mulheres informa que as denúncias de violência digital cresceram 188,6% nos primeiros cinco meses de 2026 em comparação com o mesmo período do ano passado.

A combinação desses números ajuda a compreender um fenômeno cada vez mais visível: grupos vulneráveis, especialmente mulheres, estão se tornando alvo frequente de ataques virtuais que vão desde insultos e humilhações até perseguições sistemáticas, prática conhecida internacionalmente como stalking.

Quando a fé se torna alvo

O 3º Relatório de Islamofobia no Brasil, elaborado pelo Grupo de Antropologia em Contextos Islâmicos e Árabes (Gracias), da USP, ouviu centenas de mulheres muçulmanas e identificou que a discriminação ocorre principalmente em ambientes de grande exposição pública.

Os ataques acontecem nas ruas, nos locais de trabalho e, cada vez mais, nas redes sociais. Muitas vítimas relatam ser associadas injustamente ao terrorismo, questionadas sobre suas roupas ou tratadas com desconfiança apenas por utilizarem o véu islâmico.

O levantamento aponta que oito em cada dez mulheres muçulmanas já sofreram algum tipo de discriminação motivada pela religião no Brasil.

O estudo também mostra que a maioria das vítimas não procura a polícia. A sensação predominante é de que as denúncias dificilmente resultarão em investigação ou punição dos responsáveis.

Especialistas alertam que esse tipo de violência não produz apenas constrangimento momentâneo. Os impactos incluem ansiedade, isolamento social, perda de oportunidades profissionais e sofrimento psicológico prolongado.

Internet amplia a violência

Segundo os pesquisadores, as redes sociais se transformaram em um dos principais ambientes para a disseminação da islamofobia. A velocidade de compartilhamento de conteúdos faz com que mensagens ofensivas alcancem milhares de pessoas em poucos minutos, ampliando o alcance dos ataques.

O problema, entretanto, vai além da intolerância religiosa. O ambiente digital tem se tornado um espaço cada vez mais hostil para mulheres em geral.

Dados divulgados pelo Ministério das Mulheres mostram que a Central de Atendimento à Mulher — Ligue 180 — recebeu 16.725 denúncias de violência digital entre janeiro e maio de 2026. No mesmo período do ano passado, haviam sido registradas 5.795 ocorrências.

As denúncias de violência digital contra mulheres cresceram 188,6% em apenas um ano, segundo o Ministério das Mulheres.

Os registros incluem perseguição virtual, ameaças, exposição indevida de imagens, chantagem, assédio, humilhações públicas e divulgação não autorizada de conteúdos pessoais. Em muitos casos, a violência começa na internet e acaba gerando consequências concretas na vida profissional, familiar e emocional das vítimas.

Mulheres mais vulneráveis sofrem mais

Os dados mostram que a violência digital costuma atingir com maior intensidade mulheres que já enfrentam outras formas de discriminação, como racismo, intolerância religiosa, xenofobia e misoginia.

Nesse cenário, mulheres muçulmanas frequentemente se tornam alvos de ataques que misturam preconceito religioso, estereótipos culturais e violência de gênero. Comentários ofensivos sobre vestimentas, fé e origem são alguns dos episódios relatados pelas vítimas.

Especialistas alertam que o impacto psicológico dessas agressões pode ser profundo e duradouro, especialmente quando a perseguição ocorre de forma repetitiva e pública.

Denunciar continua sendo fundamental

Para enfrentar o aumento dos casos, o governo federal atualizou os protocolos de atendimento do Ligue 180 e implementou novas medidas voltadas à proteção de mulheres no ambiente digital.

As mudanças incluem procedimentos mais ágeis para acolhimento das vítimas e orientações específicas para situações de perseguição online, divulgação não autorizada de conteúdo íntimo e outras formas de violência praticadas pela internet.

Embora os avanços sejam importantes, especialistas ressaltam que o combate à violência digital depende também da conscientização da sociedade e do fortalecimento dos mecanismos de denúncia.

Os números divulgados nesta semana deixam claro que a internet reproduz preconceitos que já existem fora das telas. No caso das mulheres muçulmanas, a islamofobia continua sendo uma realidade cotidiana. Para as mulheres em geral, a escalada da violência digital mostra que a luta por respeito e segurança também passa pelo mundo virtual.

Leia o guia de orientação sobre violência digital contra mulheres, elaborado pelo Ministério das Mulheres em conjunto com a Secom, e saiba como agir.

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