terça-feira, 28 de abril de 2026

Da roça ao chão de fábrica: Nelsão da Força reforça alerta sobre saúde no trabalho

Vice-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos da Grande Curitiba, Nelsão da Força destaca riscos psicossociais, defende ambientes mais humanos e critica jornada exaustiva no Brasil

 
Da roça ao chão de fábrica: Nelsão da Força reforça alerta sobre saúde no trabalho. Vice-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos da Grande Curitiba, Nelsão da Força destaca riscos psicossociais, defende ambientes mais humanos e critica jornada exaustiva no Brasil.

O caminho do Nelsão da Força não cabe em linha reta. Ele começa na terra vermelha do norte do Paraná, atravessa décadas de trabalho duro e desemboca, hoje, na linha de frente da luta sindical em Curitiba e região metropolitana.

Nelson Silva de Souza começou cedo — cedo mesmo. Aos três anos, já ajudava os pais na roça, limpando pé de café, carpindo e empilhando madeira. Uma infância moldada pelo esforço antes mesmo de entender o que aquilo significava.

Quando veio morar em Curitiba, por volta de 1974, a rotina mudou totalmente de cenário, mas não em potência de luta. Vendeu picolé, sorvete, trabalhou em floricultura e colheu verduras. Uma trajetória comum a tantos trabalhadores, em sua maioria invisíveis, que sustentam a cidade antes de serem reconhecidos por ela.

Em 1980, vem o primeiro registro em carteira. Dentro da Volvo, mas ainda pelo início modesto, humilde: terceirizado da limpeza, passando pelas empresas Huria, Alfa e Metropolitana até 1984.

Depois, uma pausa brusca. Serviço militar no Rio de Janeiro. Torna-se paraquedista do Exército, acumulando 13 saltos a partir de aeronaves como Búfalo, Hércules e Bandeirante.

Em 1985, retorna à vida civil e à Volvo — agora no almoxarifado. E dali não sai mais. É ali que constrói sua estabilidade e fortalece sua atuação dentro do chão de fábrica.

O salto seguinte não vem do avião, mas da organização coletiva. Em 1996, Nelsão foi eleito vice-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos da Grande Curitiba (SMC), cargo que ocupa até hoje, atravessando diferentes fases da indústria e das relações de trabalho no país.

Saúde no trabalho: um alerta que vai além dos acidentes

No Dia Mundial da Segurança e Saúde no Trabalho, celebrado em 28 de abril, o recado reforçado pelo sindicato é direto: o risco no trabalho não é apenas físico — ele também é mental.

Os números ajudam a dimensionar o cenário:

  • Cerca de 546 mil afastamentos por problemas de saúde mental em 2025
  • Mais de 1,6 mil mortes por acidentes de trabalho apenas no primeiro semestre
  • Mais de 540 mil ações trabalhistas envolvendo segurança e saúde

Mas o problema vai além das estatísticas. A forma como o trabalho é organizado — carga excessiva, jornadas longas, pressão constante — tem impacto direto na saúde dos trabalhadores.

Quando essas condições são inadequadas, surgem os chamados riscos psicossociais: estresse, assédio e esgotamento.

Relação jornada de trabalho x qualidade de vida

Dentro desse contexto, o sindicato também chama atenção para a necessidade de rever o modelo de jornada no Brasil, especialmente pelo fim imediato da escala 6x1, infelizmente ainda amplamente praticada.

A discussão já avança na Câmara dos Deputados, dividindo opiniões entre pressão social e resistência de setores econômicos. Entretanto segue firme, com forte apoio popular. Independente de ideologia ou candidato: o trabalhador cansou de viver para trabalhar e quer um dia a mais para viver.

Para o movimento sindical, reduzir a jornada não é apenas uma pauta trabalhista, mas uma questão direta de saúde pública e qualidade de vida. Uma decisão muito importante que vai trazer aos trabalhadores além de um dia de descanso, mais um dia para cuidar da saúde, educação, cultura, família, cuidar de viver mais e melhor.

Memória e mobilização

A data do 28 de abril também é um dia de memória — pelas vítimas de acidentes e doenças relacionadas ao trabalho. Segundo informa o SMC, como parte das ações, o Fórum Nacional das Centrais Sindicais promove uma live especial reunindo trabalhadores e especialistas.

A escolha simbólica de um trecho da música Cotidiano, de Chico Buarque — “Todo dia eu só penso em poder parar” — resume o sentimento de muitos trabalhadores diante da rotina exaustiva.

Uma voz que vem do chão de fábrica

Quando Nelsão da Força fala, não é um discurso distante. É alguém que viveu cada etapa do trabalho no Brasil — da roça à indústria, da terceirização à liderança sindical.

O recado que ele transmite é direto: ambiente saudável não é luxo, descanso não é privilégio e saúde mental não pode continuar sendo tratada como detalhe. A luta, como ele reforça, segue sendo coletiva — e ainda está longe de terminar.

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