terça-feira, 10 de março de 2026

Na Assembleia do Paraná, trabalhadores levantam a voz contra a escala 6×1 — e contra a repressão à greve na Brose

Audiência pública convocada por Arilson Chiorato reúne sindicatos e parlamentares; debate liga redução da jornada à luta dos metalúrgicos da Brose em São José dos Pinhais

A tribuna da ALEP lotou de parlamentares, trabalhadores e sindicalistas, que pedem o fim da jornada 6x1 - Divulgação/SMC

O plenário da Assembleia Legislativa do Paraná amanheceu diferente nesta terça-feira (10). O tema que ecoava no salão não era apenas técnico, jurídico ou parlamentar. Era humano.

Falava-se de tempo — algo que milhões de trabalhadores brasileiros sentem escapar pelas mãos. Tempo para descansar. Tempo para viver. Tempo para estar com a família.

Convocada pelo deputado estadual Arilson Chiorato, líder da oposição na Casa, a audiência pública reuniu centrais sindicais, trabalhadores, movimentos sociais e parlamentares para discutir o fim da jornada 6×1, modelo que impõe seis dias de trabalho para apenas um dia de descanso.

Mas o debate ganhou ainda mais peso quando a discussão sobre jornada de trabalho se conectou a um conflito real que está acontecendo na Região Metropolitana de Curitiba: a greve dos trabalhadores da Brose do Brasil.

A greve que virou símbolo

A multinacional de autopeças Brose, instalada em São José dos Pinhais, vive uma paralisação de trabalhadores metalúrgicos que reivindicam melhores salários, benefícios e condições dignas de trabalho.

A mobilização começou após negociações frustradas entre sindicato e empresa. Segundo dirigentes sindicais, cerca de 300 trabalhadores participam da paralisação.

O conflito ganhou repercussão quando houve presença policial durante manifestações em frente à fábrica. Em um desses episódios, o dirigente sindical conhecido como Nelsão da Força chegou a ser detido durante o protesto.

Foi essa experiência — ainda viva na memória dos trabalhadores — que apareceu no microfone da audiência pública na Assembleia.

“Não é só sobre trabalho. É sobre dignidade.”

Ao tomar a palavra, o dirigente sindical Nelsão da Força denunciou o que classificou como tentativas de intimidação contra trabalhadores mobilizados.

“Colocam drone, polícia, batalhão de choque para pressionar e humilhar os trabalhadores.”

Em outro momento, o sindicalista lembrou que o tempo da burocracia muitas vezes ignora a urgência da vida real.

“O prazo que a Justiça tem para investigar não é o mesmo prazo que o pai e a mãe de família têm para colocar comida na mesa, pagar medicamento, pagar luz e água”, declarou Nelsão sobre a greve na Brose do Brasil, na RMC"24 milhões só em imposto ... uma empresa alemã. Cada três carros produzidos no Brasil, três usam componentes e eles não, não querem negociar...", completou o líder sindical.

A fala arrancou aplausos no plenário e conectou duas dimensões da mesma luta: a defesa do direito de greve e a defesa do tempo de vida dos trabalhadores.

Momento da fala do Nelsão da Força na ALEP - Divulgação

O debate sobre o tempo de viver

A audiência na Assembleia não discutia apenas um modelo de jornada. Discutia uma pergunta cada vez mais presente no mundo do trabalho: até que ponto a vida pode ser organizada apenas em função da produtividade?

Na escala 6×1, trabalhadores passam seis dias consecutivos trabalhando e têm apenas um dia de descanso semanal. Na prática, esse único dia costuma ser consumido por tarefas acumuladas da semana — resolver pendências, cuidar da casa, enfrentar filas, recuperar o corpo do desgaste.

Sobra pouco ou nenhum espaço para:

  • educação
  • cultura
  • lazer
  • convivência familiar
  • cuidado com a saúde

Requião Filho: qualidade de vida também é política pública

O deputado estadual Requião Filho, presente na audiência e citado como um dos nomes da frente progressista para a disputa do governo do Paraná, afirmou que o debate sobre jornada de trabalho precisa ser enfrentado com coragem política.

Segundo ele, trabalhar menos não significa produzir menos — significa permitir que as pessoas tenham mais qualidade de vida.

Para o parlamentar, garantir mais tempo livre significa também permitir que as pessoas estudem, participem da vida cultural e fortaleçam suas comunidades.

Arilson Chiorato: a vida não pode caber em um único dia

Ao abrir a audiência pública, o deputado Arilson Chiorato afirmou que o debate sobre jornada de trabalho precisa sair do plenário e chegar à sociedade.

Para ele, a discussão sobre o fim da escala 6×1 é parte de uma transformação maior nas relações de trabalho.

“A vida do trabalhador não pode caber em um único dia de descanso.”

Segundo o parlamentar, a audiência foi organizada justamente para ouvir trabalhadores e construir propostas a partir da realidade de quem enfrenta essa rotina todos os dias.

O tempo virou pauta política

Ao final da audiência, uma percepção parecia unir os diferentes discursos. A discussão sobre a escala 6×1 não é apenas sindical. Não é apenas econômica. É civilizatória.

Num país onde milhões de pessoas passam a maior parte da semana trabalhando, cresce a percepção de que a luta do século XXI talvez não seja apenas por salário.

Mas por algo ainda mais profundo: o tempo que temos de vida é o tempo que temos para cuidar da nossa própria vida e das pessoas que são importantes para nós.

 

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