Paralisação iniciada em janeiro segue em fevereiro na multinacional alemã em São José dos Pinhais; sindicato denuncia práticas antissindicais e repressão, enquanto PM afirma ter garantido direito ao trabalho e à manifestação
Na porta da fábrica, barracas, faixas e trabalhadores que insistem em permanecer. A greve na Brose do Brasil, em São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba (RMC), entrou na terceira semana e transformou um conflito trabalhista em debate sobre direitos constitucionais.
Organizado pelo Sindicato dos Metalúrgicos da Grande Curitiba (SMC), o movimento começou em 28 de janeiro de 2026 e segue mobilizado em fevereiro, com trabalhadores reivindicando um Acordo Coletivo de Trabalho (ACT-2026) que contemple reajuste salarial com aumento real, melhoria no vale-mercado e implantação de plano de carreira.
O envio de um relato por liderança sindical no dia 19 de fevereiro reforça que a paralisação continua, com trabalhadores acampados e cobrança por negociação direta com a empresa.
Multinacional estratégica, conflito local
A unidade brasileira integra a cadeia global da multinacional alemã Brose Group, fornecedora de sistemas mecatrônicos para a indústria automotiva mundial.
Segundo dados institucionais, a empresa está presente em dezenas de países, emprega cerca de 31 mil trabalhadores e possui produtos em aproximadamente um terço dos veículos novos no mundo, com faturamento anual na casa dos bilhões de euros - em 2024 a Brose faturou 7,7 bilhões.
No Paraná, a operação funciona como fornecedora direta de montadoras, o que torna qualquer paralisação sensível para a cadeia produtiva regional.
Reivindicações e impasse
O sindicato afirma que a greve foi deflagrada após impasse nas negociações do ACT. Entre as reivindicações estão reajuste salarial com ganho real, melhoria do vale-mercado — citado anteriormente em torno de R$ 500 —, implantação de plano de carreira e denúncias de assédio moral.
Também há críticas à escolta de ônibus e ao clima de pressão interna. De acordo com a entidade, outras empresas da região firmaram acordos recentes, enquanto a Brose teria resistido a negociar pontos específicos.
Relatos sindicais sustentam ainda que, durante a paralisação, a empresa teria mantido contratações, o que é apontado como possível prática antissindical — interpretação que pode ser objeto de análise judicial.
Prisão de dirigente e versão do sindicato
O episódio mais sensível ocorreu em 4 de fevereiro, quando um protesto em frente à fábrica terminou com a detenção do vice-presidente do sindicato, Nelson Silva de Souza, conhecido como “Nelsão da Força”.
A entidade classificou a ação como truculenta e denunciou repressão ao movimento, afirmando que a prisão ocorreu no contexto de uma mobilização legítima.
O relato enviado à reportagem indica que trabalhadores permanecem mobilizados, cobrando diálogo e denunciando recusa da empresa em participar de mediações institucionais. Segundo denuncia dos trabalhadores a empresa está demitindo e voltou a contratar durante o periodo greve, numa ameaça clara ao direito de greve - artigo 9º da Constituição Federal de 1988.
A versão da Polícia Militar
Em nota, a Polícia Militar do Paraná informou que foi acionada para atender ocorrência relacionada à manifestação sindical em frente à empresa.
Segundo a corporação, havia concentração de manifestantes na entrada da unidade, o que teria restringido o acesso de trabalhadores às dependências da fábrica. A PM afirma que buscou garantir simultaneamente o direito constitucional ao trabalho e o direito de greve, oferecendo inclusive escolta para quem desejasse entrar.
A polícia declarou que o dirigente detido teria desacatado a equipe e desobedecido orientação para liberação da entrada, sendo preso por suspeita de desacato, atentado contra a liberdade de trabalho e resistência. A corporação afirma que o uso da força ocorreu de forma seletiva e proporcional para encaminhamento à delegacia.
Por sua vez Nelsão está denunciando abuso de autoridade, violência, coação, cerceamento do direito de greve e possível aparelhamento do Estado em proteção de uma empresa privada.
Direito de greve e disputa jurídica
O direito de greve é garantido pela Constituição Federal e estabelece que cabe aos trabalhadores decidir quando exercê-lo e quais interesses defender.
Especialistas apontam que conflitos como este costumam girar em torno de dois eixos: possível prática antissindical por parte da empresa e limites da atuação estatal em manifestações trabalhistas.
Quando há alegação de violação, o caso pode envolver atuação do Ministério Público do Trabalho e da Justiça do Trabalho, com possibilidade de liminares, multas ou reparações. Também há limites legais: a greve não pode envolver violência, e a Justiça pode declarar abusividade em determinadas circunstâncias, o que não parece ser o caso.
Até onde nos consta, a greve que ocorre na Boese do Brasil é perfeitamente legítima, bem como as demandas dos trabalhadores e a atuação sindical.
Greve prolongada e impacto regional
Greves em empresas sistemistas — fornecedoras diretas de montadoras — tendem a ganhar relevância econômica rapidamente, pois afetam o ritmo de produção da cadeia automotiva.
Na RMC, polo industrial estratégico, conflitos desse tipo costumam ter repercussão política, sindical e econômica. Mais de três semanas após o início da paralisação, o cenário descrito é de impasse. A empresa mantém um silêncio ensurdecedor por conta de seu grande poder econômico, industrial e político.
O que diz a empresa
Até o momento, a Brose do Brasil não publicou nota oficial detalhando sua posição sobre a greve iniciada em 28 de janeiro de 2026 na unidade de São José dos Pinhais.
Segundo o Sindicato dos Metalúrgicos da Grande Curitiba, a empresa tem se recusado a negociar pontos centrais do Acordo Coletivo de Trabalho (ACT-2026), que incluem reajuste salarial, melhoria no vale-mercado — citado em cerca de R$ 500 — e implantação de plano de carreira.
Relatos sindicais e cobertura local indicam que, durante a paralisação, a empresa teria solicitado apoio policial para garantir o acesso de trabalhadores e ônibus à unidade, cenário que antecedeu o episódio que resultou na detenção a força do vice-presidente do SMC, no último dia 4.
Entidades sindicais também acusam a empresa de adotar práticas consideradas antissindicais, como escolta de ônibus, pressão interna e dificuldades para realização de assembleias na porta da fábrica — alegações que podem ser objeto de análise na esfera trabalhista.
A paralisação ocorre em meio à reivindicação pelo fechamento do ACT 2026. Trabalhadores apontam defasagem salarial — com remunerações mencionadas em torno de R$ 2,5 mil — e ausência de plano de carreira como fatores centrais do impasse.
A reportagem permanece aberta para manifestação da empresa.
Entre o portão e a negociação
Na prática, a cena ainda é a mesma: trabalhadores mobilizados, direção sindical pressionando por diálogo e uma multinacional inserida numa disputa que ultrapassa salários e entra no campo dos direitos.
O desfecho da greve — e a interpretação jurídica dos episódios — deve definir não apenas o ACT da empresa, mas também o tom das relações de trabalho em um dos principais polos automotivos do país.





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