segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

O pequeno exorcismo de Santo Antônio e o obelisco de Assuã e as orações de proteção espiritual

Entre o deserto, o império, Santo Antônio e a cruz: o obelisco de Assuã e as orações de proteção espiritual

Há monumentos que não pertencem a uma única religião, nem a um único tempo. Eles atravessam civilizações como testemunhas silenciosas da busca humana pelo sagrado. O obelisco que hoje se ergue no centro da Praça de São Pedro, no Vaticano, é um desses símbolos.

Talhado há quase dois mil anos em granito vermelho de Assuã, no sul do Egito, ele nasceu longe do cristianismo, sob o sol do deserto africano, carregando em sua matéria a memória de povos que já contemplavam o céu em busca de sentido, ordem e transcendência.

O granito de Assuã: a pedra que atravessa o tempo

Assuã foi, na Antiguidade, a principal fonte do granito utilizado em obeliscos, templos e esculturas monumentais. Esse tipo de pedra era associado à permanência, à força e à eternidade. Para os egípcios, o obelisco simbolizava um eixo entre o céu e a terra — um ponto de encontro entre o mundo humano e o divino.

O obelisco do Vaticano é singular: diferente de muitos outros, ele não possui hieróglifos. Isso reforça seu caráter de ponte histórica — uma pedra que não fala uma língua específica, mas atravessa culturas e crenças.

Do Egito a Roma: a pedra peregrina

No século I d.C., durante o Império Romano, o obelisco foi transportado do Egito para Roma por ordem do imperador Calígula. Ele foi instalado no antigo Circo de Nero, local que, mais tarde, seria associado ao martírio de cristãos, entre eles o apóstolo Pedro.

Assim, antes mesmo de ser cristianizado, o obelisco já estava presente em um espaço marcado por sofrimento, fé e resistência espiritual.

O orbe romano e a mudança de eixo espiritual

No topo do obelisco, durante o período romano, existia um orbe de bronze, símbolo do cosmos, do mundo ordenado, da ideia de domínio universal.

Com a cristianização de Roma, esse orbe foi removido. Seu destino histórico não é plenamente documentado. No lugar, no século XVI, a Igreja ergueu uma cruz, acompanhada de relíquias, como sinal de um novo eixo espiritual: não mais o poder imperial, mas a fé que nasce da vulnerabilidade humana.

Ecce Crux Domini: a proclamação gravada na história

Ao ser erguido no centro da Praça de São Pedro, o obelisco foi consagrado com uma inscrição cristã e associado à antiga proclamação espiritual: Ecce Crux Domini — Eis a Cruz do Senhor.

Essa frase, tradicionalmente usada como oração de proteção, não foi gravada como exorcismo formal, mas como um ato simbólico: a afirmação de que a luz, quando reconhecida, tem força para ordenar o caos.

Ecce Crucem Domini,
fugite partes adversae.
Vicit Leo de tribu Iuda,
radix David. Alleluia.

Tradução espiritual:
Eis a Cruz do Senhor.
Afastai-vos, forças contrárias à vida.
Venceu o Leão da tribo de Judá,
a Raiz de Davi.
Aleluia.

O Pequeno Exorcismo de São Miguel Arcanjo

Inspirada por esse mesmo espírito de proteção interior, a tradição cristã preservou a oração conhecida como Pequeno Exorcismo de São Miguel Arcanjo, composta pelo Papa Leão XIII no século XIX.

Não se trata de um ritual reservado ao medo, mas de uma oração acessível, voltada ao fortalecimento da consciência, à coragem espiritual e à escolha da luz diante das sombras humanas.

São Miguel Arcanjo,
defendei-nos no combate;
sede o nosso refúgio contra as ciladas do mal.
Ordene-lhe Deus, instantemente o pedimos;
e vós, Príncipe da milícia celeste,
pela virtude divina,
afastai de nós toda força espiritual
que nos desvie da vida, da verdade e do amor.
Amém.

Quando a pedra floresce em consciência

O obelisco permanece ali, imóvel, mas nunca mudo. Ele já apontou para deuses solares, para imperadores, e hoje aponta para uma cruz — não como imposição, mas como convite.

Convite para que cada ser humano, independentemente de fé ou tradição, reconheça que a verdadeira proteção espiritual nasce do alinhamento interior, do respeito à vida e da escolha consciente pela luz.

Assim, até a pedra floresce.

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