quinta-feira, 9 de julho de 2026

Inclusão digital no Brasil ainda para na metade do caminho: maioria dos lares segue sem computador, revela pesquisa do IBGE

Enquanto mais de 90% dos brasileiros já utilizam a internet, milhões de estudantes e trabalhadores continuam limitados ao celular. Histórias de quem vive essa realidade mostram que a exclusão digital ainda é uma das faces mais silenciosas da desigualdade social

Foto: Eliane Gonçalves/Divulgação 

O Brasil comemora um marco importante: pela primeira vez, mais de 90% da população utilizou a internet. O dado, divulgado pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios sobre Tecnologia da Informação e Comunicação (PNAD-TIC 2026), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), poderia sugerir que a inclusão digital finalmente alcançou a maioria dos brasileiros.

Mas basta olhar um pouco além dos números para perceber que a realidade é bem diferente.

Ter acesso à internet não significa, necessariamente, estar incluído no mundo digital. Para milhões de brasileiros, navegar depende exclusivamente de um telefone celular, quase sempre conectado por planos com franquias limitadas de dados. Quando esses dados acabam, interrompem-se também os estudos, o trabalho, o acesso aos serviços públicos e, muitas vezes, o exercício da própria cidadania.

Os números ajudam a dimensionar esse desafio. Embora 90,5% da população tenha utilizado a internet em 2025, 59,2% dos domicílios brasileiros ainda não possuem computador ou tablet. Além disso, 10,7% das residências dependem exclusivamente da internet móvel para permanecer conectadas.

Um muro invisível separa dois mundos

Poucos lugares simbolizam tão bem essa contradição quanto o Recife Antigo.

De um lado da Rua do Moinho está o Porto Digital, considerado um dos maiores polos de inovação tecnológica da América Latina, reunindo mais de 500 empresas que movimentaram cerca de R$ 7,4 bilhões em 2025.

Do outro lado da mesma rua está a Comunidade do Pilar.

Ali, centenas de famílias convivem diariamente com dificuldades que parecem incompatíveis com a vizinhança de um dos maiores centros tecnológicos do país.

A líder comunitária Ana Cláudia Miguel resume essa realidade em uma frase que talvez seja a melhor tradução da exclusão digital brasileira:

"O muro de pedra caiu faz muito tempo. Mas hoje existe um muro de bytes."

Ela lembra que, apesar da proximidade física com empresas de tecnologia, muitos moradores sequer possuem equipamentos para estudar ou desenvolver habilidades digitais.

"A gente mora ao lado do polo tecnológico, mas vive um enorme déficit de tecnologia", resume.

O contraste impressiona justamente porque evidencia que a desigualdade não depende apenas da distância geográfica. Às vezes, basta atravessar uma rua.

Quando estudar depende de ter um notebook

Os dados da pesquisa ganham rosto na história da jovem Eurídize Lima de Santana, de 23 anos.

Moradora da Comunidade do Pilar, ela conquistou uma bolsa integral para cursar Análise e Desenvolvimento de Sistemas. Parecia o início de uma mudança de vida.

No entanto, quando as disciplinas passaram a exigir programação, surgiu um obstáculo aparentemente simples, mas intransponível para quem vive com orçamento apertado: ela não tinha computador.

Sem um notebook, tornou-se impossível acompanhar os exercícios, desenvolver códigos e entregar os trabalhos exigidos pela graduação.

Depois de um ano e meio de esforço, Eurídize precisou trancar o curso.

"Como uma pessoa que ganha um salário mínimo consegue comprar um notebook de R$ 3,5 mil? A gente pensa primeiro em pagar as contas e colocar comida dentro de casa."

Hoje ela continua estudando, mas em um curso de Gestão Financeira na modalidade de ensino a distância. Todas as aulas, pesquisas e atividades são realizadas exclusivamente pelo celular.

É uma realidade compartilhada por milhões de brasileiros que transformaram o telefone em sala de aula, escritório, banco, agência dos Correios, repartição pública e biblioteca ao mesmo tempo.

Internet virou condição para exercer direitos

Nos últimos anos, praticamente todos os serviços públicos passaram a depender da internet.

Inscrições no Enem, Bolsa Família, declaração do Imposto de Renda, boletins de ocorrência, consultas médicas, cadastros governamentais e inúmeros atendimentos migraram para plataformas digitais.

Na prática, estar desconectado significa perder oportunidades, atrasar processos e enfrentar dificuldades até mesmo para exercer direitos básicos.

Segundo a advogada e especialista em telecomunicações e direitos digitais Flávia Lefrève, muitos brasileiros acabam abrindo mão da internet fixa porque ela pesa no orçamento familiar.

Como consequência, passam a depender exclusivamente dos pacotes de dados da telefonia móvel, normalmente limitados.

Quando a franquia termina, explica a especialista, muitos usuários ficam praticamente isolados da internet aberta.

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