Fiscalização destrói dragas, apreende mercúrio e interrompe estrutura logística do garimpo ilegal nas Terras Indígenas Kayabi e Aripuanã
| Ibama faz incursão em garimpo ilegal no MT - Fiscalização/Ibama |
A floresta amazônica raramente faz barulho — mas, em alguns pontos isolados do norte de Mato Grosso, o silêncio vinha sendo quebrado pelo som constante de motores, escavadeiras e dragas rasgando o leito dos rios em busca de ouro. No início de março, esse ruído cessou em várias áreas após uma operação coordenada pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), que desarticulou estruturas de garimpo ilegal dentro das Terras Indígenas Kayabi e Aripuanã.
A ação ocorreu ao longo de fevereiro e reuniu equipes da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), da Polícia Federal, da Polícia Militar Ambiental de Mato Grosso, do Batalhão de Operações Policiais Especiais e da Coordenadoria de Operações e Recursos Especiais da Polícia Civil do estado, numa verdadeira força tarefa.
O objetivo foi claro: desmontar a estrutura logística que sustenta o garimpo clandestino na região e impedir a continuidade de danos ambientais dentro de territórios protegidos.
Máquinas destruídas e bases desmontadas
Ao todo, a operação neutralizou equipamentos considerados de alto impacto ambiental:
- 23 dragas escariantes
- 12 balsas de mergulho
- duas escavadeiras hidráulicas
- um trator de esteira
Essas máquinas são capazes de remover enormes volumes de solo e sedimentos em pouco tempo, alterando cursos de rios e destruindo áreas inteiras da floresta.
Além do maquinário pesado, as equipes apreenderam:
- 29 motores estacionários
- 13 embarcações com motores de popa
- sete acampamentos clandestinos
- 51.600 litros de óleo diesel
Segundo estimativas técnicas do Ibama, essa quantidade de combustível seria suficiente para manter uma única escavadeira funcionando continuamente por cerca de duas mil horas — período em que centenas de milhares de toneladas de solo podem ser removidas.
Segundo informa o IBAMA, também foram encontrados 28,8 gramas de ouro já extraído, 36,32 gramas de mercúrio — substância altamente tóxica usada na separação do metal — além de motosserra, motocicleta, celulares e até um dispositivo de conectividade via internet utilizado para coordenar as atividades ilegais dentro da floresta.
Quando a retirada do maquinário é inviável, a legislação ambiental permite sua inutilização no local. A medida foi aplicada com base no Decreto nº 6.514/2008, que autoriza a destruição de equipamentos utilizados em crimes ambientais para interromper imediatamente o dano.
A pressão sobre territórios indígenas
As Terras Indígenas Kayabi e Aripuanã ficam em uma região historicamente pressionada pela expansão do garimpo ilegal na Amazônia. Comunidades que vivem nesses territórios dependem diretamente dos rios e da floresta para alimentação, cultura e sobrevivência.
A presença de dragas e escavadeiras altera o leito dos cursos d’água, provoca assoreamento e destrói áreas de pesca e coleta. Para muitos povos indígenas e comunidades ribeirinhas, os impactos vão além do ambiente — atingem modos de vida construídos ao longo de gerações.
Nos últimos anos, o avanço do garimpo ilegal na Amazônia passou a ser associado a redes criminosas que financiam operações em áreas remotas da floresta. O aumento do preço internacional do ouro tornou a atividade ainda mais lucrativa, atraindo grupos organizados que estruturam acampamentos, rotas de abastecimento e sistemas de comunicação dentro de territórios protegidos.
Mercúrio: veneno invisível nos rios
Entre os materiais apreendidos na operação estava o mercúrio, metal pesado amplamente utilizado no garimpo clandestino para separar o ouro do sedimento.
O problema é que parte dessa substância acaba liberada nos rios. O mercúrio se acumula na cadeia alimentar, contaminando peixes que são consumidos por comunidades indígenas e ribeirinhas.
Os efeitos podem ser graves: danos neurológicos, problemas de desenvolvimento em crianças e riscos à saúde de gestantes. Como o metal permanece no ambiente por décadas, a contaminação pode atravessar gerações.
Em várias regiões da Amazônia, estudos científicos já identificaram níveis elevados de mercúrio no organismo de moradores que dependem da pesca como principal fonte de proteína.
A floresta sob vigilância
Segundo o Ibama, as ações de fiscalização e monitoramento continuarão sendo intensificadas na região para impedir a retomada das atividades ilegais.
A estratégia inclui operações de campo, monitoramento por satélite e cooperação com forças de segurança para identificar novas frentes de garimpo dentro de áreas protegidas.
O norte de Mato Grosso abriga uma grande parte da Floresta Amazônica, caracterizada por alta biodiversidade, clima equatorial quente e úmido, e transição para o Cerrado. A região faz parte da Amazônia Legal e engloba municípios como Alta Floresta e Apiacás, sendo uma área crucial de conservação, e que sofre forte pressão do desmatamento ilegal.
Na Amazônia, cada draga retirada de um rio representa mais do que um equipamento destruído. Significa uma chance — ainda que pequena — de que a água volte a correr limpa, de que o peixe volte aos igarapés e de que a floresta continue sendo território de vida, e não apenas de exploração.

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