Especialistas defendem soluções baseadas na natureza e alertam que intervenções artificiais podem alterar ondas, correntes e a qualidade da água nas praias
O mar raramente anuncia quando está mudando uma paisagem. À distância, tudo parece familiar: o som ritmado das ondas, o vento levantando a areia fina, pescadores observando o horizonte. Mas quem vive perto da costa sabe que a praia está sempre em movimento. A linha do litoral avança alguns metros, depois recua. Às vezes lentamente. Às vezes de forma abrupta.
Nos últimos anos, esse movimento natural passou a preocupar cidades inteiras. Em diferentes pontos do litoral brasileiro, governos locais começaram a recorrer a obras emergenciais para tentar frear o avanço da erosão. Surgiram muros de contenção, barreiras de pedra, sacos de areia gigantes e projetos para ampliar artificialmente a faixa de praia.
O objetivo é claro: proteger ruas, casas, hotéis e avenidas construídas perto demais do mar.
Mas a ciência vem fazendo um alerta importante. Intervenções desse tipo podem resolver um problema imediato, porém costumam alterar o equilíbrio natural das praias — e as consequências podem aparecer anos depois.
O tema voltou ao centro do debate na última semana, quando o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) multou o governo do Paraná em R$ 2,5 milhões. O motivo foi o uso de sacos plásticos preenchidos com areia para tentar conter a erosão no litoral de Matinhos.
A decisão reacendeu uma discussão que percorre silenciosamente o litoral brasileiro: como defender cidades costeiras sem comprometer o funcionamento natural das praias?
A corrida para ampliar praias
Uma das soluções mais adotadas nos últimos anos é a chamada engorda de praia. O procedimento consiste basicamente em retirar sedimentos do fundo do mar e depositá-los na faixa costeira, ampliando artificialmente a área de areia.
Quando a obra termina, o resultado costuma chamar atenção. A praia fica visivelmente mais larga e a cidade ganha uma nova área de lazer. Em alguns casos, o turismo até aumenta.
Cidades como Balneário Camboriú e Balneário Piçarras, em Santa Catarina, tornaram-se exemplos conhecidos desse tipo de intervenção.
O que muitas vezes não aparece nas fotos aéreas é que a praia funciona como um sistema natural bastante delicado.
Equipes de pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), segundo informa a Agência Brasil, vêm acompanhando os efeitos dessas transformações. Os estudos indicam que mudanças aparentemente simples na largura da praia podem influenciar o comportamento das ondas e das correntes costeiras.
Quando grandes volumes de areia são reposicionados no litoral, o fluxo da água pode reorganizar seu caminho. Em determinadas condições, surgem novos canais de circulação, pequenas correntes laterais ou áreas onde a água passa a girar com mais intensidade.
Essas alterações podem modificar a forma como a água se renova ao longo da praia e também influenciar a dispersão de sedimentos e partículas suspensas.
Em nota técnica, o grupo de pesquisa da UFSC aponta que essas mudanças hidrodinâmicas podem afetar a qualidade ambiental da água em determinados trechos e criar zonas de corrente mais fortes próximas à arrebentação — o que exige atenção redobrada de banhistas e equipes de salvamento em praias recentemente ampliadas.
Quando um problema se desloca
Para o oceanógrafo Alexander Turra, pesquisador do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP), intervenções rígidas muitas vezes resolvem um problema apenas temporariamente — ou apenas em um trecho específico da costa.
O problema pode reaparecer logo adiante.
Segundo o pesquisador, estruturas como molhes ou muros de contenção interferem no transporte natural de sedimentos ao longo da praia.
“Essas obras podem reter areia de um lado, mas intensificar a erosão do outro. O resultado é um efeito dominó que exige novas intervenções e pode comprometer a continuidade da praia”, explica Turra.
Situações semelhantes já foram registradas em trechos do litoral paulista e no sul da Bahia, onde empreendimentos turísticos foram construídos em áreas naturalmente vulneráveis ao avanço do mar.
Em muitos desses locais, dunas e restingas — ecossistemas que funcionavam como barreiras naturais — foram removidas para abrir espaço à ocupação urbana.
Quando a erosão avançou, hotéis e construções passaram a erguer muros de contenção para proteger suas estruturas.
O efeito, porém, pode ser drástico: durante a maré alta, em alguns trechos, a faixa de areia praticamente desaparece.
Quando a natureza protege o litoral
Diante desse cenário, pesquisadores defendem uma abordagem diferente: ampliar o uso das chamadas soluções baseadas na natureza para a proteção costeira.
A bióloga Janaína Bumbeer, gerente de projetos da Fundação Grupo Boticário, explica que diversos ecossistemas costeiros funcionam como escudos naturais contra o impacto do mar.
Manguezais, restingas, dunas e recifes de coral ajudam a absorver a energia das ondas, estabilizar sedimentos e reduzir o impacto de tempestades.
“A praia é dinâmica, mas as estruturas de concreto são estáticas e não conseguem acompanhar os ciclos naturais”, afirma a pesquisadora.
Além da proteção física do litoral, esses ambientes oferecem benefícios ambientais e econômicos expressivos.
Um estudo coordenado pela pesquisadora aponta que os recifes de coral do Nordeste brasileiro evitam até R$ 160 bilhões em danos potenciais justamente por funcionarem como barreiras naturais contra a força do mar.
Os manguezais também desempenham papel estratégico: além de armazenarem grandes quantidades de carbono, eles sustentam cerca de 70% das espécies pesqueiras exploradas comercialmente no Brasil em alguma fase de seu ciclo de vida.
Restingas e dunas possuem ainda outra característica essencial: quando preservadas, conseguem acumular sedimentos e crescer lentamente, acompanhando a elevação gradual do nível do mar.
Um planejamento para o futuro
Para especialistas, a discussão sobre o futuro das praias brasileiras precisa levar em conta um fator inevitável: as mudanças climáticas.
O aumento do nível do mar e a intensificação de eventos extremos devem pressionar ainda mais a costa nas próximas décadas.
Nesse cenário, ampliar o conhecimento público e planejar melhor a ocupação do litoral tornou-se uma necessidade urgente.
Turra resume a questão de forma direta: o litoral não pertence apenas a um empreendimento ou a uma geração.
“O litoral é um bem coletivo. Planejar sua ocupação com base em evidências científicas é garantir que ele continue existindo e gerando prosperidade para as próximas gerações — e não apenas para interesses particulares de curto prazo”, afirma.
No fundo, proteger as praias talvez não signifique tentar dominar o mar. Talvez signifique aprender novamente a conviver com ele.


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