sexta-feira, 13 de março de 2026

Estudo revela que Cerrado pode armazenar mais carbono que a Amazônia

Pesquisa internacional aponta que áreas úmidas do Cerrado guardam estoques gigantescos de carbono e alerta para risco climático caso o bioma continue sendo degradado


Pesquisa internacional aponta que áreas úmidas do Cerrado guardam estoques gigantescos de carbono e alerta para risco climático caso o bioma continue sendo degradado

Sob o chão antigo e silencioso do Cerrado brasileiro existe uma história que levou milênios para ser escrita. Não é visível a olho nu, não aparece nas copas das árvores, mas está ali — guardada na terra úmida, camada sobre camada de matéria orgânica acumulada ao longo de milhares de anos.

Um estudo publicado nesta semana na revista científica New Phytologist revela algo surpreendente: áreas úmidas do Cerrado podem armazenar até 1.200 toneladas de carbono por hectare. Em alguns casos, isso representa uma densidade até seis vezes maior do que a média encontrada na Amazônia.

A pesquisa foi liderada pela cientista Larissa Verona, em parceria com especialistas da Unicamp, da UFMG, do Cary Institute of Ecosystem Studies (Estados Unidos), do Instituto Max Planck (Alemanha) e do Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

Pela primeira vez, pesquisadores investigaram profundamente o solo de ambientes conhecidos como veredas e campos úmidos, coletando amostras a até quatro metros de profundidade. Estudos anteriores analisavam apenas as camadas superficiais — o que pode ter subestimado em até 95% o carbono presente nesses ambientes.

Os resultados impressionam ainda mais quando se olha para o tempo. Parte desse carbono tem cerca de 11 mil anos de idade — e alguns registros ultrapassam 20 mil anos.

“Esse carbono levou muito tempo para se acumular. Se ele for perdido, não podemos reconstruí-lo rapidamente”, alerta Verona. Diferentemente de uma floresta que pode ser replantada, esse estoque subterrâneo depende de processos naturais que levam milhares de anos.

Um bioma essencial — e subestimado

O Cerrado ocupa cerca de 26% do território brasileiro e é considerado a savana mais biodiversa do planeta. Além disso, funciona como uma espécie de “caixa d’água” do Brasil: dali nascem rios que alimentam duas das maiores bacias hidrográficas da América do Sul, incluindo sistemas que chegam até o Amazonas.

Segundo os cientistas, as condições encharcadas dessas áreas reduzem a presença de oxigênio no solo, o que desacelera a decomposição da matéria orgânica. Com isso, restos de plantas e outros materiais se acumulam lentamente ao longo dos séculos — criando gigantescos reservatórios naturais de carbono.

Apesar disso, o papel climático do Cerrado ainda é pouco considerado nas análises globais sobre mudanças climáticas.

O enorme estoque de carbono do Cerrado não costuma aparecer nos cálculos climáticos porque, até recentemente, simplesmente não sabíamos que ele estava ali”, explica a pesquisadora Amy Zanne, coautora do estudo.

O risco das “bombas de carbono”

O alerta dos pesquisadores é direto. Quando áreas úmidas do Cerrado são drenadas para agricultura ou irrigação, o solo seca e a matéria orgânica começa a se decompor rapidamente. O que estava guardado por milhares de anos é liberado na atmosfera em forma de dióxido de carbono e metano — dois gases que aceleram o aquecimento global.

“Se começarmos a drenar essas turfeiras, estaremos liberando verdadeiras bombas de carbono na atmosfera”, afirma o professor Rafael Oliveira, da Unicamp à Agência Brasil.

Medições feitas pelos cientistas indicam que cerca de 70% das emissões anuais de gases de efeito estufa desses ambientes acontecem durante a estação seca, quando o solo perde umidade e a decomposição se acelera.

Com o avanço das mudanças climáticas e períodos secos cada vez mais longos, a tendência é que uma parcela crescente desse carbono seja liberada nos próximos anos.

Um bioma sob pressão

De acordo com a Agência Brasil, as últimas décadas, grandes áreas do Cerrado vêm sendo convertidas em lavouras e pastagens. Muitas dessas transformações envolvem a drenagem de áreas úmidas — justamente onde estão concentrados os maiores estoques de carbono identificados pelo estudo.

Pesquisadores estimam que até metade dessas áreas já sofreu algum tipo de degradação.

Para Larissa Verona, a situação reflete uma contradição ambiental brasileira.

“Chamamos o Cerrado de bioma de sacrifício. O país busca proteger a Amazônia, mas continua expandindo a agricultura sobre o Cerrado”, afirma a cientista.

Ainda assim, os pesquisadores defendem que o reconhecimento científico desse gigantesco reservatório subterrâneo pode mudar o debate ambiental.

Porque proteger o Cerrado não é apenas preservar uma paisagem — é proteger um dos maiores cofres climáticos naturais do planeta.

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