Pesquisa internacional aponta que áreas úmidas do Cerrado guardam estoques gigantescos de carbono e alerta para risco climático caso o bioma continue sendo degradado
Sob o chão antigo e silencioso do Cerrado brasileiro existe uma história que levou milênios para ser escrita. Não é visível a olho nu, não aparece nas copas das árvores, mas está ali — guardada na terra úmida, camada sobre camada de matéria orgânica acumulada ao longo de milhares de anos.
Um estudo publicado nesta semana na revista científica New Phytologist revela algo surpreendente: áreas úmidas do Cerrado podem armazenar até 1.200 toneladas de carbono por hectare. Em alguns casos, isso representa uma densidade até seis vezes maior do que a média encontrada na Amazônia.
A pesquisa foi liderada pela cientista Larissa Verona, em parceria com especialistas da Unicamp, da UFMG, do Cary Institute of Ecosystem Studies (Estados Unidos), do Instituto Max Planck (Alemanha) e do Jardim Botânico do Rio de Janeiro.
Pela primeira vez, pesquisadores investigaram profundamente o solo de ambientes conhecidos como veredas e campos úmidos, coletando amostras a até quatro metros de profundidade. Estudos anteriores analisavam apenas as camadas superficiais — o que pode ter subestimado em até 95% o carbono presente nesses ambientes.
Os resultados impressionam ainda mais quando se olha para o tempo. Parte desse carbono tem cerca de 11 mil anos de idade — e alguns registros ultrapassam 20 mil anos.
“Esse carbono levou muito tempo para se acumular. Se ele for perdido, não podemos reconstruí-lo rapidamente”, alerta Verona. Diferentemente de uma floresta que pode ser replantada, esse estoque subterrâneo depende de processos naturais que levam milhares de anos.
Um bioma essencial — e subestimado
O Cerrado ocupa cerca de 26% do território brasileiro e é considerado a savana mais biodiversa do planeta. Além disso, funciona como uma espécie de “caixa d’água” do Brasil: dali nascem rios que alimentam duas das maiores bacias hidrográficas da América do Sul, incluindo sistemas que chegam até o Amazonas.
Segundo os cientistas, as condições encharcadas dessas áreas reduzem a presença de oxigênio no solo, o que desacelera a decomposição da matéria orgânica. Com isso, restos de plantas e outros materiais se acumulam lentamente ao longo dos séculos — criando gigantescos reservatórios naturais de carbono.
Apesar disso, o papel climático do Cerrado ainda é pouco considerado nas análises globais sobre mudanças climáticas.
“O enorme estoque de carbono do Cerrado não costuma aparecer nos cálculos climáticos porque, até recentemente, simplesmente não sabíamos que ele estava ali”, explica a pesquisadora Amy Zanne, coautora do estudo.
O risco das “bombas de carbono”
O alerta dos pesquisadores é direto. Quando áreas úmidas do Cerrado são drenadas para agricultura ou irrigação, o solo seca e a matéria orgânica começa a se decompor rapidamente. O que estava guardado por milhares de anos é liberado na atmosfera em forma de dióxido de carbono e metano — dois gases que aceleram o aquecimento global.
“Se começarmos a drenar essas turfeiras, estaremos liberando verdadeiras bombas de carbono na atmosfera”, afirma o professor Rafael Oliveira, da Unicamp à Agência Brasil.
Medições feitas pelos cientistas indicam que cerca de 70% das emissões anuais de gases de efeito estufa desses ambientes acontecem durante a estação seca, quando o solo perde umidade e a decomposição se acelera.
Com o avanço das mudanças climáticas e períodos secos cada vez mais longos, a tendência é que uma parcela crescente desse carbono seja liberada nos próximos anos.
Um bioma sob pressão
De acordo com a Agência Brasil, as últimas décadas, grandes áreas do Cerrado vêm sendo convertidas em lavouras e pastagens. Muitas dessas transformações envolvem a drenagem de áreas úmidas — justamente onde estão concentrados os maiores estoques de carbono identificados pelo estudo.
Pesquisadores estimam que até metade dessas áreas já sofreu algum tipo de degradação.
Para Larissa Verona, a situação reflete uma contradição ambiental brasileira.
“Chamamos o Cerrado de bioma de sacrifício. O país busca proteger a Amazônia, mas continua expandindo a agricultura sobre o Cerrado”, afirma a cientista.
Ainda assim, os pesquisadores defendem que o reconhecimento científico desse gigantesco reservatório subterrâneo pode mudar o debate ambiental.
Porque proteger o Cerrado não é apenas preservar uma paisagem — é proteger um dos maiores cofres climáticos naturais do planeta.


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