terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Energia que flutua: tubos “insubmersíveis” podem transformar o oceano em usina limpa

Tecnologia desenvolvida nos Estados Unidos reacende debate sobre o potencial das ondas e marés, enquanto pesquisas brasileiras avançam na geração elétrica a partir do mar

Tecnologia desenvolvida nos Estados Unidos reacende debate sobre o potencial das ondas e marés, enquanto pesquisas brasileiras avançam na geração elétrica a partir do mar

O oceano sempre esteve ali — vasto, misterioso, vivo e fascinante. Durante milenios foi rota de comércio, fonte de alimento, fronteira de descobertas. Agora, volta ao centro das atenções como promessa energética. Em um mundo pressionado pela emergência climática e pela necessidade urgente de transição para fontes limpas, o mar pode deixar de ser apenas paisagem para se tornar potência energética.

Pesquisadores da Universidade de Rochester, nos Estados Unidos, desenvolveram tubos de alumínio capazes de flutuar indefinidamente, mesmo sob condições extremas. A ideia é simples na aparência, mas sofisticada na essência: estruturas microscópicas gravadas na superfície do metal impedem que a água penetre, aprisionando bolhas de ar no interior. O resultado é um material praticamente “insubmersível”.

De acordo com o The New York Times, os tubos permanecem flutuando mesmo quando perfurados ou submetidos à água salgada e ambientes com algas. A técnica explora a chamada superhidrofobicidade — a extrema repelência à água — fenômeno inspirado na natureza, como nos pelos das aranhas mergulhadoras e nos exoesqueletos de formigas capazes de sobreviver a enchentes, formando verdadeiras jangadas vivas.

O oceano como usina do futuro

A proposta dos cientistas é emparelhar esses tubos sobre a superfície marinha, criando plataformas resistentes e capazes de capturar a energia das ondulações. Diferentemente dos painéis solares ou das turbinas eólicas, que dependem da incidência dos raios do sol ou da constância dos ventos, o mar oferece um movimento com ritmo permanente e previsível.

O Brasil, com mais de 7.400 quilômetros de litoral, não está fora dessa equação. Pesquisadores da COPPE/UFRJ desenvolvem há anos estudos sobre conversão de energia das ondas em eletricidade. Um dos projetos pioneiros foi instalado no Porto do Pecém, no Ceará, com tecnologia nacional voltada a testar a viabilidade da geração a partir da movimentação marítima.

Na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), pesquisadores investigam o potencial das correntes oceânicas e marés como fontes energéticas complementares à matriz brasileira. Já grupos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) mantêm estudos de hidrodinâmica aplicada à geração elétrica offshore.

Segundo estimativas da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), o potencial técnico brasileiro para energia das ondas pode alcançar dezenas de gigawatts, especialmente ao longo das regiões Nordeste e Sul.

Resistência em alto-mar: o desafio estrutural

Um dos maiores obstáculos para a energia oceânica sempre foi a durabilidade dos equipamentos. O ambiente marinho é implacável: salinidade elevada, corrosão constante, impacto das ondas e acúmulo de organismos marinhos (cracas) nas estruturas.

É justamente nesse ponto que a inovação desenvolvida nos EUA chama atenção. Os tubos resistem à corrosão porque a água não permanece na superfície interna. Mesmo com perfurações, a estrutura mantém sua flutuabilidade. Se a tecnologia se provar escalável, poderá reduzir custos de manutenção e ampliar a vida útil de plataformas marítimas — fator decisivo para tornar a energia das ondas economicamente competitiva.

Brasil: potência renovável ainda subexplorada

A matriz elétrica brasileira já é majoritariamente renovável, sustentada principalmente por hidrelétricas, além do crescimento consistente da energia eólica e solar. No entanto, eventos climáticos extremos e períodos de estiagem reforçam a necessidade de diversificação.

A energia das ondas e das marés não substituiria outras fontes, mas poderia atuar como complemento estável e previsível. Para o trabalhador brasileiro que acorda cedo e depende de energia confiável — seja na indústria, no comércio ou no campo — investir em inovação é também investir em segurança energética e desenvolvimento econômico.

O desafio, como sempre e infelizmente acontece no Brasil, é transformar pesquisa em política pública. O Brasil possui conhecimento técnico, universidades capacitadas e litoral estratégico, a polarização política tem destruído as chances de progresso do país. Além de boa vontade política, falta continuidade institucional e prioridade orçamentária para consolidar o mar como vetor energético.

Entre ciência e futuro

A história desses tubos de alumínio pode parecer um detalhe técnico — microestruturas invisíveis que repelem água. Mas simbolicamente representa algo maior: a capacidade humana de aprender com a natureza para enfrentar a emergência climática.

Os oceanos da Terra não são apenas cenário de cartão-postal. São reservatórios energéticos ainda pouco explorados. Se a tecnologia internacional avançar e dialogar com a pesquisa brasileira, poderemos assistir a uma nova etapa da transição energética global.

O mar, que já foi caminho, pode se tornar solução. E talvez o futuro da eletricidade esteja justamente ali, nas ondas que insistem em nunca parar.

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