Cecília Meireles: 'Não: já não falo de ti'

"Não: já não falo de ti, já não sei de saudades.  Feche-se o coração como um livro, cheio de imagens,  de palavras adormecidas, em altas prateleiras,  até que o pó desfaça o pobre desespero sem força,  que um dia, pode ser, parece tão terrível.    A aranha dorme em sua teia, lá fora, entre a roseira e o muro.  Resplandecem os azulejos- e tudo quanto posso ver.  O resto é imaginado, e não coincide, e é temerário  cismar. Talvez se as pálpebras pudessem  inventar outros sonhos, não de vida...    Ah! rompem-se na noite ardentes violas,  pelo ar e pelo frio subitamente roçadas.  Por onde pascerão, nestes céus invioláveis,  nossas perguntas com suas crinas de séculos arrastando-se...  Não só de amor a noite transborda mas de terríveis  crueldades, loucuras, de homicídios mais verdadeiros.    Os homens de sangue estão nas esquinas resfolegando,  e os homens da lei sonolentos movem letras  sobre imensos papéis que eles mesmos não entendem...  Ah! que rosto amaríamos ver inclinar-se na aérea varanda?  Nem os santos podem mais nada. Talvez os anjos abstratos  da álgebra e da geometria." - Cecília Meireles

"Não: já não falo de ti, já não sei de saudades.

Feche-se o coração como um livro, cheio de imagens,

de palavras adormecidas, em altas prateleiras,

até que o pó desfaça o pobre desespero sem força,

que um dia, pode ser, parece tão terrível.


A aranha dorme em sua teia, lá fora, entre a roseira e o muro.

Resplandecem os azulejos- e tudo quanto posso ver.

O resto é imaginado, e não coincide, e é temerário

cismar. Talvez se as pálpebras pudessem

inventar outros sonhos, não de vida...


Ah! rompem-se na noite ardentes violas,

pelo ar e pelo frio subitamente roçadas.

Por onde pascerão, nestes céus invioláveis,

nossas perguntas com suas crinas de séculos arrastando-se...

Não só de amor a noite transborda mas de terríveis

crueldades, loucuras, de homicídios mais verdadeiros.


Os homens de sangue estão nas esquinas resfolegando,

e os homens da lei sonolentos movem letras

sobre imensos papéis que eles mesmos não entendem...

Ah! que rosto amaríamos ver inclinar-se na aérea varanda?

Nem os santos podem mais nada. Talvez os anjos abstratos

da álgebra e da geometria."


Cecília Meireles, in '1000 Poemas Que Marcaram Uma Época' (pg. 574)


Comentários

Leia também >>

O outro braço da história: cineasta paranaense quer levar a alma da Amazônia para as telas do Brasil

Globo abre auditoria sobre negócios de Luciano Huck com Daniel Vorcaro

Moraes pede manifestação da PGR sobre visita de Flávio Bolsonaro ao pai

El Niño pode entrar para a lista dos mais intensos desde 1950

Jovens brasileiros representarão o país em conferência da ONU sobre a água

“O Outro Braço da Cruz”: cinema, memória e a estrada que fez — e seguirá fazendo — a história de Rondônia

Segundo turno no Brasil: quem é o favorito na visão da imprensa internacional, do mercado e das grandes potências?

Anjo da Guarda forte: ciclista escapa por pouco de ser atingido por caminhonete que capotou no Paraná

Senado começa a discutir fim da escala 6x1 na próxima terça-feira

Do botox ao ovo: os momentos mais bizarros que marcaram o primeiro turno das eleições