quinta-feira, 16 de julho de 2026

Brasil poderá enfrentar até 127 dias de calor extremo por ano até 2075. O tempo para agir está se esgotando

Estudo projeta aumento de 1,7°C na temperatura máxima média do país, mas especialistas alertam que a combinação entre a crise climática e um novo El Niño pode tornar os eventos extremos ainda mais severos nas próximas décadas

Brasil poderá enfrentar até 127 dias de calor extremo por ano até 2075. O tempo para agir está se esgotando. Estudo projeta aumento de 1,7°C na temperatura máxima média do país, mas especialistas alertam que a combinação entre a crise climática e um novo El Niño pode tornar os eventos extremos ainda mais severos nas próximas décadas.

Há poucos anos, uma onda de calor era notícia justamente por ser um acontecimento raro. Hoje, ela já faz parte do cotidiano de milhões de brasileiros. O que antes surpreendia passou a ser esperado. E, se as projeções científicas se confirmarem, as próximas décadas poderão transformar o calor extremo em uma das principais características do clima brasileiro.

Um estudo divulgado pela plataforma de inteligência climática i4sea projeta que o Brasil poderá registrar até 127 dias de calor extremo por ano até 2075. Atualmente, a média nacional é de apenas seis dias anuais nessa condição. A pesquisa utilizou 26 modelos climáticos internacionais, incluindo o MPI-ESM1-2-HR, do Instituto Max Planck de Meteorologia, para construir cenários regionalizados sobre o futuro do clima brasileiro.

O levantamento aponta que a temperatura máxima média do país deverá subir cerca de 1,7°C, mas em algumas regiões, especialmente na Amazônia, o aumento poderá chegar a impressionantes 7°C. Os números, por si só, já são suficientes para acender um sinal de alerta. Mas existe um fator que torna esse cenário ainda mais preocupante.

A crise climática mudou as regras do jogo

Durante décadas, o planeta alternou naturalmente períodos de El Niño e La Niña. Esses fenômenos sempre influenciaram o regime de chuvas e as temperaturas em diversas partes do mundo.

O problema é que o próximo El Niño não encontrará mais o mesmo planeta das décadas passadas.

A Terra já aqueceu aproximadamente 1,3°C desde a Revolução Industrial em consequência das emissões de gases de efeito estufa provocadas pela atividade humana. Em outras palavras, o El Niño continuará sendo um fenômeno natural, mas passará a atuar sobre um sistema climático que já está profundamente alterado pelo aquecimento global.

É como adicionar combustível a um incêndio que já estava em andamento. Por isso, cientistas vêm alertando que os próximos episódios de El Niño poderão potencializar ondas de calor, secas prolongadas, incêndios florestais e eventos extremos de chuva com intensidade superior à registrada em décadas anteriores.

Não é o El Niño, sozinho, que explica o novo cenário. Tampouco apenas a mudança climática. É justamente a combinação entre ambos que preocupa a comunidade científica.

Norte lidera projeções mais preocupantes

Segundo o estudo, a Região Norte será a mais impactada. A temperatura máxima média poderá aumentar 2,8°C, enquanto os dias de calor extremo saltariam para 193 por ano.

Rondônia aparece como o estado com maior aquecimento projetado, seguida por Acre e Roraima.

Neste último, a projeção indica um cenário impressionante: até 250 dias de calor extremo por ano, o equivalente a cerca de dois terços do calendário.

No Centro-Oeste, os dias de calor extremo poderão passar de cinco para 107 por ano.

Mesmo a Região Sul, tradicionalmente associada a temperaturas mais amenas, deverá sentir mudanças importantes. A projeção indica aumento médio de 1,1°C, enquanto os dias de calor extremo cresceriam de quatro para 38 anuais.

O calor não afeta apenas os termômetros

Quando se fala em aquecimento global, muita gente ainda imagina apenas tardes mais quentes. 

Na prática, os impactos são muito maiores. Temperaturas elevadas aumentam o risco de desidratação, agravam doenças cardiovasculares e respiratórias, reduzem a produtividade no trabalho, elevam o consumo de energia elétrica, pressionam os sistemas de saúde e afetam diretamente a agricultura, a produção de alimentos e o abastecimento de água.

As cidades também sofrem. O asfalto deforma, equipamentos urbanos são danificados e bairros com pouca arborização transformam-se em verdadeiras ilhas de calor. É uma mudança que atravessa praticamente todos os setores da sociedade.

A janela para reduzir os impactos ainda existe

Nenhum estudo sério afirma que o futuro está completamente definido. As projeções dependem, em grande medida, das decisões tomadas nas próximas décadas.

Cada tonelada de dióxido de carbono (CO₂) que deixa de ser lançada na atmosfera contribui para limitar o aquecimento futuro. Quanto menores forem as emissões globais, menores tendem a ser os impactos sobre as próximas gerações.

Isso exige uma transformação profunda na forma como produzimos energia, nos deslocamos, consumimos recursos naturais e planejamos nossas cidades.

Não se trata apenas de proteger florestas — embora isso seja indispensável. Trata-se também de acelerar a transição para energias limpas, reduzir o uso de combustíveis fósseis, ampliar o transporte coletivo de qualidade, recuperar áreas degradadas e investir em infraestrutura capaz de suportar um clima cada vez mais extremo.

"A atmosfera é uma só. Não existem fronteiras para o dióxido de carbono. O ar que respiramos é compartilhado por toda a humanidade. Cada tonelada de CO₂ que deixamos de emitir hoje representa um futuro menos hostil para as próximas gerações."

Um desafio coletivo

A emergência climática deixou de ser uma previsão distante para se tornar parte da realidade.

As ondas de calor registradas nos últimos anos, as enchentes históricas, as secas prolongadas, os incêndios florestais e os recordes sucessivos de temperatura mostram que o planeta já responde ao acúmulo de gases de efeito estufa na atmosfera.

Ainda há tempo para evitar os cenários mais severos. Mas esse tempo diminui a cada ano. O carbono lançado hoje permanecerá na atmosfera durante décadas, influenciando o clima que será vivido por nossos filhos e netos.

A ciência continua produzindo conhecimento. As tecnologias para reduzir emissões já existem. O que falta, em grande medida, é transformar esse conhecimento em decisões políticas, econômicas e sociais compatíveis com a dimensão do desafio.

O desafio não pertence apenas aos governos. Também passa pelas empresas, pelas cidades e por cada cidadão. Reduzir emissões, preservar florestas, ampliar o uso de energias renováveis e tornar nossas comunidades mais resilientes são escolhas que definirão a qualidade de vida das próximas gerações.

A atmosfera é um patrimônio comum da humanidade. Cuidar dela deixou de ser apenas uma pauta ambiental. É uma questão de saúde pública, de segurança alimentar, de estabilidade econômica e, sobretudo, de responsabilidade com o futuro.

O Sulpost é um veículo independente de jornalismo.

Se você valoriza reportagens aprofundadas, humanizadas e comprometidas com a democracia, a justiça social e a sustentabilidade, considere apoiar nosso trabalho com qualquer valor via PIX.

PIX (e-mail): sulpost@outlook.com.br

Sua contribuição ajuda a manter este projeto jornalístico livre, sem paywall e comprometido com pautas sociais, ambientais e políticas de interesse público.

Muito obrigado pelo apoio!

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Leia também: