Décima fase da Operação Compliance Zero reforça suspeitas de que o grupo comandado por Daniel Vorcaro utilizava campanhas de influência, monitoramento de adversários e estruturas paralelas para proteger interesses do banco. Defesa nega irregularidades
As investigações envolvendo o Banco Master ganharam mais um capítulo nesta semana. A PF deflagrou a 10ª fase da Operação Compliance Zero e colocou no centro das apurações o empresário Thiago Miranda, apontado pelos investigadores como um dos responsáveis por monitorar jornalistas, executivos do sistema financeiro e servidores públicos considerados obstáculos aos interesses do grupo liderado pelo banqueiro Daniel Vorcaro.
A operação foi autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que conduz os processos envolvendo autoridades com foro privilegiado. Segundo a decisão judicial, as provas reunidas pela Polícia Federal indicam que Miranda teria desempenhado papel estratégico em levantamentos sobre a vida privada e profissional de pessoas que produziam reportagens ou tomavam decisões capazes de afetar os negócios do Banco Master.
Entre os casos citados está o da jornalista Malu Gaspar, do jornal O Globo, autora de diversas reportagens que revelaram detalhes das investigações envolvendo o banco.
Os investigadores também identificaram mensagens nas quais Daniel Vorcaro solicita informações sobre Milton Maluhy Filho, presidente do Itaú. Em um dos diálogos reproduzidos na investigação, o banqueiro escreve que o executivo "está me causando muito problema". A resposta atribuída a Thiago Miranda é direta: "Deixa comigo".
Estrutura paralela
Na avaliação da PF, o monitoramento de jornalistas e executivos seria apenas uma das frentes de atuação de um grupo que teria sido estruturado para proteger Daniel Vorcaro e blindar o Banco Master diante do avanço das investigações.
Os investigadores sustentam que recursos financeiros ligados ao esquema investigado também teriam sido utilizados para financiar campanhas de desinformação, ataques coordenados em redes sociais e produção de conteúdo favorável ao banco, utilizando influenciadores digitais e operadores contratados.
As suspeitas fazem parte de um conjunto de investigações que apuram, entre outros crimes, organização criminosa, gestão fraudulenta de instituição financeira, manipulação de mercado, lavagem de dinheiro, corrupção e utilização de operações financeiras sem lastro suficiente.
Operação já acumula dez fases
A Compliance Zero tornou-se uma das maiores investigações financeiras já conduzidas pela Polícia Federal. Desde sua primeira fase, em novembro de 2025, dezenas de pessoas foram presas ou se tornaram alvo de medidas cautelares.
Ao longo da investigação, a Justiça determinou bloqueios bilionários de bens, afastamento de dirigentes, apreensão de documentos e aparelhos eletrônicos, além de diversas ordens de busca e apreensão em vários estados brasileiros.
O caso também passou a envolver empresários, operadores financeiros, executivos do mercado, agentes públicos e políticos investigados por suposta atuação em favor dos interesses do Banco Master.
Defesa nega acusações
Por meio de nota enviada à Agência Brasil, o advogado Rafael Martins afirmou que Thiago Miranda nunca praticou qualquer ato criminoso.
Segundo a defesa, o empresário sempre atuou dentro da legalidade, respeitando as instituições democráticas, e permanece à disposição das autoridades para prestar todos os esclarecimentos necessários.
Sem novidades nesta sexta-feira
Até a publicação desta reportagem, na manhã desta sexta-feira (10), não havia registro oficial de novas prisões, novas buscas ou novas decisões judiciais relacionadas à décima fase da Operação Compliance Zero além das medidas anunciadas na quinta-feira.
As investigações continuam sob supervisão do STF e novas fases da operação não estão descartadas, diante do volume de provas ainda em análise pela Polícia Federal.
Nas redes sociais e em parte dos bastidores políticos e policiais, o Banco Master passou a ser informalmente chamado por alguns comentaristas de "Banco Máfia". No entanto, essa expressão não é utilizada oficialmente pela Polícia Federal, pelo Ministério Público ou pelo Supremo Tribunal Federal.
Nos documentos judiciais, o termo empregado é "organização criminosa", hipótese investigativa que ainda depende de julgamento definitivo e do pleno exercício do contraditório pelos investigados. Banco Máfia é apelido de bastidores, que a organização financeira envolvida com o crime acabou adquirindo, no meio policial, financeiro, jurídico e jornalístico brasileiro.

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