Estudo revela que 66% dos municípios ainda não possuem planos de ação contra ondas de calor, enquanto previsões indicam possível El Niño forte entre o fim de 2026 e o início de 2027
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| Imagem meramente ilustrativa - Sulpost |
O calor que muitos brasileiros já sentiram na pele nos últimos anos pode estar prestes a ganhar um novo capítulo. Enquanto cientistas acompanham a evolução das condições no Oceano Pacífico, cresce a preocupação com a possível formação de um forte evento de El Niño na segunda metade de 2026.
O fenômeno climático, que altera padrões de chuva e temperatura em diversas partes do planeta, pode trazer consequências importantes para o Brasil, especialmente em um momento em que a maioria das cidades ainda não está preparada para enfrentar ondas de calor cada vez mais intensas.
Um levantamento divulgado pela presidência brasileira da COP30 e pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) mostra que 66% dos municípios brasileiros pesquisados ainda não iniciaram ou estão apenas começando a elaborar planos de ação específicos para enfrentar episódios de calor extremo. O estudo avaliou 53 cidades brasileiras participantes do programa internacional Mutirão Contra o Calor Extremo — UNEP Cool Coalition.
Os números chamam atenção. Embora 93% dos gestores públicos reconheçam que o calor extremo é um problema relevante e 68% o considerem um dos principais desafios locais, a maioria das cidades ainda apresenta falhas de planejamento, carência de dados e falta de recursos para adaptação. Três em cada quatro municípios não utilizam informações climáticas de forma estruturada para orientar decisões, enquanto 85% dependem de financiamento externo para implantar medidas de proteção.
O calor que não vai embora
Especialistas alertam que calor extremo não significa apenas um dia muito quente. O fenômeno ocorre quando o calor acumulado durante o dia não consegue ser dissipado durante a noite. A sensação é conhecida por milhões de brasileiros: casas que permanecem abafadas mesmo após o pôr do sol, noites mal dormidas, cansaço constante e ruas que parecem irradiar calor por horas seguidas.
Esse efeito afeta diretamente a saúde humana, aumenta a demanda por energia elétrica, pressiona sistemas de abastecimento de água e prejudica atividades econômicas, especialmente na agricultura. Segundo o PNUMA, o calor extremo está associado a cerca de 500 mil mortes por ano em todo o mundo. No Brasil, estudos apontam aproximadamente 50 mil mortes relacionadas a ondas de calor em regiões metropolitanas entre 2000 e 2020 — número superior ao registrado por enxurradas e deslizamentos no mesmo período.
Super El Niño preocupa especialistas
A preocupação aumenta diante dos sinais observados pelos principais centros de monitoramento climático. O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) informou que existe elevada probabilidade de desenvolvimento de um evento El Niño entre agosto e novembro de 2026. Alguns modelos climáticos internacionais apontam para um episódio potencialmente forte, semelhante aos maiores eventos registrados nas últimas décadas.
Embora ainda exista incerteza sobre a intensidade final do fenômeno, os especialistas concordam que as condições atuais merecem atenção. Caso o cenário se confirme, os impactos poderão ser sentidos em praticamente todo o território nacional.
O que pode acontecer no Brasil
No Norte e Nordeste, a tendência é de aumento das secas, agravamento da escassez hídrica e crescimento do risco de incêndios florestais.
No Centro-Oeste e parte do Sudeste, as ondas de calor poderão se tornar mais frequentes, prolongadas e intensas, elevando os riscos para a saúde da população, especialmente idosos, crianças e trabalhadores expostos ao sol.
Já na Região Sul, historicamente mais afetada pelo El Niño, aumenta a possibilidade de chuvas acima da média, tempestades severas, enchentes e deslizamentos de terra. Estados como Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul podem voltar a enfrentar eventos extremos semelhantes aos observados nos últimos anos.
Cidades ainda correm atrás do prejuízo
Apesar dos alertas, o estudo mostra que as ações de adaptação ainda avançam lentamente. A maioria das iniciativas atualmente concentra-se na ampliação da arborização urbana, criação de parques, áreas verdes e espaços sombreados.
Embora importantes, medidas estruturais mais modernas — como telhados refletivos, pavimentos permeáveis, ventilação natural planejada e isolamento térmico de edificações — ainda estão presentes em uma pequena parcela dos municípios pesquisados. Mais de 80% das cidades também não incorporaram critérios voltados ao resfriamento urbano em suas políticas de compras públicas e planejamento de infraestrutura.
O resultado é um contraste preocupante: a ciência já aponta para eventos climáticos mais extremos, mas grande parte das cidades brasileiras ainda não possui instrumentos adequados para proteger sua população.
Se as previsões para o Super El Niño se confirmarem, o verão entre 2026 e 2027 poderá se transformar em um dos maiores testes já enfrentados pelo país diante das mudanças climáticas e da necessidade urgente de adaptação urbana.

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