segunda-feira, 25 de maio de 2026

Tecpar mostra a força da ciência pública — e reacende temor sobre privatizações no Paraná

Novo investimento do Estado em pesquisa veterinária reforça importância estratégica das empresas públicas paranaenses em meio às críticas da oposição ao avanço das privatizações

Tecpar mostra a força da ciência pública — e reacende temor sobre privatizações no Paraná
Giselle Nocera gerente do Centro de Insumos para Diagnóstico Veterinário do TECPAR
Foto: Hedeson Alves/TECPAR

Há projetos que passam despercebidos na correria política do dia a dia. E há projetos que revelam o tipo de Estado que um governo escolhe construir. Enquanto o debate sobre privatizações e a reestatização da Copel continua avançando no Paraná, uma iniciativa do Instituto de Tecnologia do Paraná (Tecpar) mostra, na prática, o peso que uma empresa pública pode ter no desenvolvimento científico, econômico e sanitário do país.

O Tecpar iniciou uma pesquisa para produção nacional de insumos usados no diagnóstico da brucelose bovina — uma doença que afeta rebanhos, ameaça a segurança alimentar e pode atingir seres humanos. Hoje, mais de 70% desses antígenos são importados. O objetivo do instituto é reduzir essa dependência externa e transformar o Paraná em referência nacional no setor.

O investimento do Governo do Estado ultrapassa R$ 70 milhões entre construção do novo Centro de Insumos para Diagnóstico Veterinário (CIV), equipamentos e estrutura tecnológica. A futura planta terá capacidade para produzir até 40 milhões de doses por ano.

Em um estado que figura entre os maiores produtores de proteína animal do Brasil, a iniciativa não é pequena. Ela toca diretamente a cadeia do leite, da carne, da exportação e da segurança sanitária nacional. E é justamente aí que o debate político reaparece.

Ciência pública não nasce da lógica do lucro imediato

O Tecpar carrega uma característica rara no Brasil contemporâneo: é uma instituição pública especializada em ciência aplicada, com pesquisadores permanentes e capacidade técnica acumulada ao longo de décadas. Governos passam. Pesquisadores ficam. Conhecimento permanece.

Na avaliação de setores da oposição ao governo Ratinho Junior, iniciativas como essa demonstram por que empresas estratégicas não deveriam ser tratadas apenas como ativos financeiros negociáveis.

Nos últimos anos, o Paraná avançou em uma ampla agenda de privatizações, concessões e desestatizações. A venda da Copel, a privatização da Copel Telecom, os movimentos envolvendo a Celepar, concessões de rodovias, discussões sobre Ferroeste, portos e outros serviços públicos passaram a ocupar o centro do debate estadual e um dos temas centrais na disputa pelo Governo do Estado, em outubro.

A oposição paranaense sustenta que o Estado vem reduzindo sua presença em áreas consideradas estratégicas e entregando patrimônio público ao mercado financeiro.

O fantasma da Copel ainda paira sobre o debate estadual

Entre todos os casos, a privatização da Copel talvez tenha se tornado o principal símbolo político dessa disputa. Parlamentares oposicionistas afirmam que, após a privatização, consumidores passaram a relatar piora no atendimento, aumento da percepção de instabilidade no fornecimento e temor de reajustes maiores nas tarifas.

A oposição também questionou judicialmente o processo de venda da companhia e apontou críticas relacionadas ao modelo adotado para a alienação do controle acionário.

Já o governo Ratinho Junior defende que as desestatizações modernizam estruturas, atraem investimentos e tornam o Paraná mais competitivo economicamente.

Celepar, Sanepar, transporte público e Porto de Paranaguá entram no radar

O avanço da agenda liberal no Paraná também alimenta receios sobre o futuro de outras estruturas públicas. A possível privatização da Celepar provocou forte reação por envolver uma empresa responsável pelo armazenamento e processamento de dados estratégicos dos paranaenses.

Ao mesmo tempo, setores da oposição alertam para movimentos de mercado envolvendo a Sanepar, o transporte coletivo de Curitiba e até o Porto de Paranaguá.

Para esses grupos, serviços essenciais e empresas lucrativas deveriam permanecer sob controle público, especialmente em áreas como saneamento, energia, logística e tecnologia.

O Paraná que produz ciência

No meio desse embate ideológico e econômico, o novo projeto da Tecpar acaba funcionando como um lembrete silencioso.

Enquanto boa parte do país depende da importação de tecnologia e insumos estratégicos, uma empresa pública paranaense prepara laboratórios NB-3 de alta biossegurança, automatiza sistemas de cultivo microbiológico e desenvolve capacidade nacional para atender o Programa Nacional de Controle e Erradicação da Brucelose e Tuberculose, do Governo Federal.

De acordo com a AEN, os municípios das regiões Oeste e Campos Gerais — polos históricos da produção leiteira paranaense — devem ser diretamente beneficiados pela iniciativa.

Entre eles estão Castro, Carambeí, Toledo, Cascavel, Dois Vizinhos, Francisco Beltrão, Palotina, Marechal Cândido Rondon e Santa Helena.

É o tipo de investimento que dificilmente produz dividendos imediatos para acionistas. Mas produz soberania científica, segurança sanitária e independência tecnológica. E talvez seja exatamente por isso que o debate sobre o futuro das estatais paranaenses esteja longe de terminar.

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