Pesquisa da UnB aponta que gratuidade no transporte nas capitais liberaria renda, reduziria desigualdades e movimentaria até R$ 60 bilhões por ano
O dinheiro some rápido quando o mês mal começou — passagem, ida e volta, mais uma integração, mais um aperto. Agora imagine esse gasto simplesmente deixando de existir. É esse cenário que um novo estudo da Universidade de Brasília (UnB) coloca na mesa: a tarifa zero no transporte público poderia funcionar como um “salário indireto”, uma espécie de renda básica para milhões de brasileiros.
Divulgada nesta terça-feira (5), a pesquisa estima que tornar gratuito o transporte nas 27 capitais do país poderia injetar até R$ 60,3 bilhões por ano na economia. Descontando gratuidades já existentes — como idosos, estudantes e pessoas com deficiência — o impacto real ficaria em cerca de R$ 45,6 bilhões circulando diretamente no bolso da população.
Não é pouca coisa. Para os pesquisadores, esse efeito se aproxima do que programas sociais como o Bolsa Família representaram nas últimas décadas: dinheiro que sai da obrigação e volta para o consumo, girando a economia quase imediatamente.
Dinheiro que volta a circular
Na prática, o raciocínio é simples. O que hoje é gasto obrigatório com passagem vira renda disponível. E renda disponível, especialmente entre famílias de baixa renda, tende a voltar rápido para o mercado — no supermercado, no comércio do bairro, no pagamento de contas.
“Estamos falando de uma injeção de liquidez imediata”, resumiu o professor Thiago Trindade, coordenador do estudo, à EBC. Segundo ele, esse ciclo gera mais consumo e, consequentemente, mais arrecadação de impostos.
Impacto social direto
O estudo também chama atenção para um ponto estrutural: quem mais depende do transporte público são justamente as camadas mais vulneráveis da população — moradores de periferia, trabalhadores informais e, em grande parte, a população negra.
Ao eliminar a tarifa, o acesso à cidade muda de patamar. Ir mais longe para trabalhar, estudar ou acessar serviços deixa de ser uma decisão financeira e passa a ser um direito efetivo.
Os pesquisadores defendem que a medida poderia ser tratada como política pública essencial, nos moldes do SUS ou da educação pública.
Luxemburgo como referência
Embora pareça ousada, a ideia não é inédita. Luxemburgo, pequeno país europeu, adotou a gratuidade total no transporte público em 2020. A medida buscava reduzir desigualdades, aliviar o trânsito e incentivar o uso coletivo.
No Brasil, a escala é outra — e os desafios também. Ainda assim, o estudo argumenta que o país poderia assumir protagonismo global em políticas de mobilidade e distribuição de renda.
Como pagar essa conta?
Uma das principais dúvidas é o financiamento. Os pesquisadores propõem substituir o modelo atual do vale-transporte por um fundo financiado por empresas com mais de 10 funcionários.
A lógica muda: em vez de pagar diretamente ao trabalhador, as empresas contribuiriam para um sistema coletivo. A estimativa é de uma contribuição média de cerca de R$ 255 por funcionário, gerando aproximadamente R$ 80 bilhões por ano — o suficiente para custear a gratuidade em cidades com mais de 50 mil habitantes.
Segundo o estudo, 81,5% das empresas ficariam isentas, o que reduz o impacto sobre pequenos negócios.
Mais que transporte
Os efeitos não param na economia. A pesquisa aponta que a tarifa zero pode reduzir acidentes de trânsito ao incentivar a migração do transporte individual para o coletivo. Hoje, motocicletas já representam quase 40% das mortes no trânsito no Brasil.
Menos acidentes significam menos gastos hospitalares, mais qualidade de vida e maior produtividade ao longo do tempo.
“Sai caro para o país não fazer política social”, resume Trindade.
Debate que volta às ruas
Atualmente, 137 cidades brasileiras já adotam algum modelo de transporte gratuito. A proposta nacional, no entanto, exigiria mais do que cálculos: dependeria de mobilização social, boa vontade e decisão política.
A ideia dos pesquisadores é começar por projetos-piloto em regiões metropolitanas ainda em 2026. Testar, ajustar, medir impacto — e então escalar.
No fim, a pergunta que fica não é apenas econômica. É também política: o transporte público deve ser tratado como serviço pago… ou como direito garantido?


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