Reservatório na Cidade Industrial de Curitiba virou exemplo silencioso de urbanismo sustentável, ajudando a reduzir alagamentos, proteger a biodiversidade e devolver vida às margens do Barigui

 
Foto: Hedeson Alves/Tecpar

A água desce pesada sobre Curitiba nos dias de chuva forte. Em poucos minutos, ruas mudam de cor, córregos aceleram e o velho temor dos alagamentos reaparece em vários pontos da cidade. No coração da Cidade Industrial de Curitiba (CIC), porém, existe um espaço que há uma década trabalha quase em silêncio para aliviar parte dessa pressão sobre o Rio Barigui

A água desce pesada sobre Curitiba nos dias de chuva forte. Em poucos minutos, ruas mudam de cor, córregos aceleram e o velho temor dos alagamentos reaparece em vários pontos da cidade. No coração da Cidade Industrial de Curitiba (CIC), porém, existe um espaço que há uma década trabalha quase em silêncio para aliviar parte dessa pressão sobre o Rio Barigui
Foto: Hedeson Alves/Tecpar

O lago do campus CIC do Tecpar completa dez anos desde sua revitalização, realizada em 2016, e continua exercendo um papel estratégico no controle das águas pluviais da região. Mais do que um cartão-postal discreto no bairro, o reservatório se transformou em uma peça importante da drenagem urbana de Curitiba.

Uma solução que veio antes da tendência

Hoje o mundo fala em “Cidades-Esponja”, conceito criado pelo arquiteto chinês Kongjian Yu para defender cidades capazes de absorver e administrar a água da chuva usando a própria natureza. Mas, antes mesmo de o termo ganhar espaço nos debates ambientais, o lago do Tecpar já colocava essa lógica em prática dentro da capital paranaense.

Na prática, o reservatório funciona como uma grande área de retenção: segura o excesso de água durante as chuvas intensas e libera esse volume gradualmente para o sistema hídrico, reduzindo sobrecargas e diminuindo os impactos sobre a bacia do Rio Barigui.

Em tempos de eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes, estruturas como essa deixam de ser apenas obras de engenharia e passam a integrar uma estratégia de sobrevivência urbana.

Do abandono à recuperação ambiental

O lago já existia desde a instalação do Tecpar na CIC, ainda na década de 1980. Mas a área enfrentava problemas ambientais sérios, como assoreamento e até o recebimento irregular de esgoto, o que comprometia completamente o equilíbrio ecológico do espaço.

A revitalização iniciada em 2016 mudou esse cenário. Após obras de canalização e recuperação da área, o reservatório teve sua capacidade ampliada, a qualidade da água melhorou e o entorno ganhou paisagismo, pista de caminhada e dezenas de árvores nativas.

Ipê-amarelo, ipê-roxo, araçá, guabiroba e jabuticaba passaram a dividir espaço com aves, anfíbios, peixes e répteis que voltaram a ocupar a região. Garças, socós, marrecas e biguás hoje fazem parte da paisagem cotidiana do lago.

Barigui segue como eixo ambiental de Curitiba

Com aproximadamente 67 quilômetros de extensão, o Rio Barigui corta 18 bairros de Curitiba até encontrar o Rio Iguaçu, no bairro Caximba. Nascido em Almirante Tamandaré, o rio carrega no próprio nome uma herança indígena: “rio do fruto espinhoso”, referência às pinhas das araucárias.

Apesar da importância histórica e ambiental, o Barigui convive há décadas com os efeitos da urbanização acelerada. Por isso, iniciativas de recuperação ambiental e controle hídrico ganham peso cada vez maior dentro da cidade.

Para a bióloga Leila Teresinha Maranho, doutora em Engenharia Florestal e integrante da Divisão de Planejamento e Controle Estratégico do Tecpar, os reflexos positivos da revitalização aparecem diretamente nas margens do rio.

“A criação do lago trouxe redução dos picos de vazão das chuvas e diminuição de processos erosivos que prejudicavam a mata ciliar”, explica.

Infraestrutura que também cuida das pessoas

O diretor-presidente do Tecpar, Eduardo Marafon, afirma que o projeto vai além da infraestrutura urbana e representa uma devolutiva ambiental para quem vive e circula pela região da CIC.

“É uma iniciativa que une responsabilidade ambiental, planejamento urbano e cuidado com as pessoas”, destacou.

Num tempo em que Curitiba discute drenagem urbana, enchentes e adaptação climática, o lago do Tecpar acaba mostrando que soluções ambientais eficientes nem sempre precisam ser grandiosas para fazer diferença. Às vezes, basta permitir que a própria natureza volte a respirar.

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