quinta-feira, 12 de março de 2026

Emergência climática avança sobre os oceanos e mobiliza cientistas no Rio de Janeiro

Especialistas discutem implementação do Tratado do Alto-Mar e alertam para riscos ambientais, sociais e geopolíticos ligados ao aquecimento dos mares

O oceano respira diferente. Em silêncio — longe da maioria dos olhos humanos — ele absorve calor, muda correntes, perde corais e reorganiza a vida que abriga há milhões de anos. O que antes parecia distante começa a ecoar nas costas, na pesca, na segurança alimentar e até na geopolítica mundial.

Foi com esse pano de fundo que cientistas, autoridades e representantes da sociedade civil se reuniram esta semana no Museu do Amanhã, no centro do Rio de Janeiro, para discutir um tema que ganhou urgência: como proteger os oceanos em meio à emergência climática global.

O encontro marca o 3º Simpósio BBNJ (Biodiversidade Além da Jurisdição Nacional) — o primeiro grande evento científico internacional após a entrada em vigor do Tratado do Alto-Mar, acordo global destinado a proteger a biodiversidade em águas internacionais.

E o alerta é claro: o oceano já está mudando.

O oceano como termômetro do planeta

Entre os sinais mais visíveis apontados pelos pesquisadores estão:

  • aquecimento anormal das águas
  • branqueamento massivo de corais
  • deslocamento de espécies polares
  • queda na reprodução de peixes
  • mudanças no padrão das correntes marítimas

Esses fenômenos revelam o papel central do oceano na regulação do clima global. Ao mesmo tempo em que ajuda a estabilizar o planeta ao absorver calor e carbono, ele também sofre as consequências diretas desse processo.

Segundo especialistas presentes no simpósio, os impactos se tornam ainda mais complexos quando observados nas águas internacionais, que correspondem a cerca de dois terços do oceano mundial e não pertencem à jurisdição de nenhum país.

É justamente esse espaço — vasto, essencial e historicamente pouco regulado — que o novo tratado internacional pretende proteger.

O Tratado do Alto-Mar e a nova governança dos oceanos

Ratificado até agora por 86 países, incluindo o Brasil, o Tratado do Alto-Mar estabelece as bases para uma nova governança global do oceano.

O acordo prevê:

  • proteção da biodiversidade em alto-mar
  • criação de áreas marinhas protegidas
  • troca de tecnologias e conhecimento científico
  • novos mecanismos de governança internacional
  • regulamentação do acesso a recursos genéticos marinhos

Além disso, o documento menciona explicitamente as mudanças climáticas e reconhece a necessidade de enfrentar problemas como:

  • aquecimento do oceano
  • perda de oxigênio
  • poluição marinha
  • acidificação das águas

O engenheiro e pesquisador Segen Farid Estefen, diretor-geral do Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas (INPO), disse à EBC que o acordo representa uma mudança importante no debate global.

“As Nações Unidas têm instituições que reúnem especialistas sobre o clima, como o IPCC. Mas os relatórios ainda abordam o oceano de forma muito tímida. O Tratado do Alto-Mar coloca o oceano no centro das discussões.”

Quando o clima muda, a sociedade sente

Os efeitos da transformação do oceano não são apenas ambientais — são profundamente humanos.

A oceanógrafa Regina Rodrigues, professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), destacou durante o simpósio que o aquecimento global já ameaça diretamente populações costeiras e sistemas alimentares.

Segundo ela:

  • mais de 1 bilhão de pessoas vivem em zonas costeiras de baixa altitude, vulneráveis à elevação do nível do mar
  • cerca de 3 bilhões dependem de frutos do mar como principal fonte de proteína

Quando a reprodução de peixes diminui — como já ocorre em algumas regiões — o impacto se espalha da biologia para a economia e para a segurança alimentar global.

“A queda na reprodução de peixes ameaça a segurança alimentar”, explicou a pesquisadora.

Ela também chama atenção para possíveis deslocamentos populacionais e tensões internacionais.

“Os riscos de conflitos provocados pelo clima são altos em regiões dependentes do oceano, especialmente no Pacífico, na Baía de Bengala e na África Ocidental.”

Para enfrentar o problema, Regina defende maior integração entre o Tratado do Alto-Mar e os trabalhos da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC). Hoje, segundo ela, os tratados ainda funcionam de forma paralela.

“Precisamos nos perguntar se nossos sistemas de governança correspondem à escala, à velocidade e à natureza transfronteiriça dos impactos climáticos.”

Pesca global em transformação

Outro ponto central do debate foi o impacto do aquecimento dos mares sobre a pesca mundial.

O pesquisador brasileiro Juliano Palacios Abrantes, do Instituto para os Oceanos e Pescas da Universidade da Colúmbia Britânica, explicou que os estoques de peixes estão migrando para novas regiões.

Em alguns casos, espécies tropicais estão deixando zonas econômicas exclusivas — áreas marítimas sob controle de países — e avançando para o alto-mar.

“Descobrimos que muitos estoques de peixes tropicais estão se movendo das zonas econômicas exclusivas em direção ao alto-mar. Isso pode gerar conflitos internacionais.”

O fenômeno já tem precedentes. Disputas pesqueiras na Europa envolvendo a pesca de cavala mostraram como mudanças na distribuição de espécies podem provocar tensões diplomáticas.

Há ainda outro risco: o aumento da desigualdade. Pescar em alto-mar exige tecnologia cara, navios especializados e grande capacidade logística — recursos disponíveis apenas para algumas nações.

“Isso pode aumentar as desigualdades, porque apenas um número limitado de países ricos tem capacidade para pescar em alto-mar.”

Um oceano que pede atenção

No fundo, a discussão no Rio de Janeiro não trata apenas de ciência ou diplomacia.

Trata-se de uma pergunta essencial para o século XXI: como proteger o maior ecossistema do planeta em um mundo em rápida transformação climática?

O oceano cobre mais de 70% da Terra. Regula o clima, alimenta bilhões de pessoas e sustenta economias inteiras.

E agora — como lembraram os pesquisadores reunidos no simpósio — ele também pede algo que durante muito tempo a humanidade demorou a oferecer: governança global, cooperação científica e responsabilidade compartilhada.

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