Com foguete e cápsula prontos para deixar o hangar, a NASA entra na fase decisiva da primeira missão tripulada além da órbita da Terra em mais de meio século
Por Ronald Stresser - Sulpost - 10/01/25
| Crédito: NASA |
No silêncio quase solene do Vehicle Assembly Building, no Centro Espacial Kennedy, na Flórida, um gigante repousa à espera do momento certo (imagem acima). Não é apenas aço, combustível e circuitos. É memória, expectativa e futuro. Ali, dentro do High Bay 3, o Space Launch System (SLS), o foguete mais poderoso já construído pela humanidade, está integrado à cápsula Orion. Juntos, eles representam muito mais do que uma missão espacial: simbolizam o retorno humano ao espaço profundo e à Lua.
A NASA confirmou que se prepara para um dos passos mais delicados e simbólicos da missão Artemis II: o deslocamento do conjunto até a Plataforma de Lançamento 39B, o mesmo solo histórico de onde partiram as missões Apollo. A operação está prevista para não antes de sábado, 17 de janeiro, e marca o início da fase final de testes, integrações e ensaios antes de um voo que pode redefinir uma era.
O trajeto é curto em quilômetros — cerca de quatro milhas —, mas longo em significado. Conduzido lentamente pelo crawler-transporter-2, o deslocamento pode levar até 12 horas. Cada metro percorrido carrega décadas de aprendizado, erros corrigidos, avanços tecnológicos e a persistente vontade humana de ir além.
“Estamos cada vez mais próximos da Artemis II, com o rollout logo ali na esquina”, afirmou Lori Glaze, administradora associada interina da Diretoria de Desenvolvimento de Sistemas de Exploração da NASA. “Ainda temos passos importantes pela frente, e a segurança da tripulação seguirá sendo nossa prioridade absoluta.”
Ajustes finos antes do grande passo
Como ocorre em qualquer sistema complexo e inédito, o caminho até a plataforma exige atenção extrema. Engenheiros identificaram recentemente um cabo fora de especificação no sistema de terminação de voo, que já está sendo substituído e testado. Uma válvula ligada à pressurização da escotilha da Orion, que apresentou falhas em dezembro, foi trocada e validada com sucesso no início de janeiro.
Também foram realizados reparos em equipamentos de suporte em solo responsáveis pelo fornecimento de oxigênio respirável. São detalhes invisíveis ao público, mas decisivos quando vidas humanas estão envolvidas. No programa Artemis, nada é pequeno demais para ser ignorado.
O ensaio geral do espaço
Assim que foguete e nave alcançarem a plataforma, começa outra maratona silenciosa: conexões elétricas, dutos ambientais, sistemas criogênicos e a primeira energização completa do conjunto em ambiente real de lançamento. Somente depois disso, os astronautas Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e o canadense Jeremy Hansen farão a tradicional caminhada de inspeção final ao redor do foguete.
No fim de janeiro, a NASA realizará o chamado wet dress rehearsal, o ensaio geral do lançamento. Mais de 700 mil galões de oxigênio e hidrogênio líquidos serão carregados no foguete enquanto as equipes simulam a contagem regressiva, pausas, retomadas e procedimentos de segurança. Tudo sem astronautas a bordo, mas com a mesma tensão de um lançamento real.
Esse teste também serve para validar procedimentos aprimorados após a missão Artemis I, especialmente no controle do hidrogênio líquido e no acúmulo de gases entre os módulos da Orion — ajustes técnicos que fazem toda a diferença no momento decisivo.
Se necessário, o conjunto poderá até retornar ao prédio de montagem para novos ajustes. No programa Artemis, o relógio nunca anda mais rápido do que a segurança permite.
Janelas para a Lua
A abertura oficial da janela de lançamento ocorre a partir de 6 de fevereiro, mas a definição da data final dependerá de uma rigorosa Revisão de Prontidão de Voo. Diferente de lançamentos comerciais, a Artemis II precisa respeitar uma coreografia precisa entre a rotação da Terra e a órbita da Lua.
As oportunidades se organizam em ciclos: cerca de uma semana favorável, seguida por aproximadamente três semanas sem possibilidade de lançamento. Até abril de 2026, estão previstas janelas no início de fevereiro, março e abril, sempre condicionadas ao clima, à logística e à disponibilidade do espaço aéreo e marítimo.
A missão, com duração aproximada de 10 dias, levará os quatro astronautas a uma órbita alta da Terra e, depois, a um sobrevoo da Lua, seguindo uma trajetória de retorno livre — usando a gravidade lunar como aliada para trazê-los de volta para casa.
Mais do que uma missão, um recomeço
A Artemis II não é apenas um teste técnico. É a primeira missão tripulada além da órbita terrestre desde 1972. É o ensaio humano de um novo capítulo da exploração espacial, que pretende estabelecer uma presença sustentável na Lua e, a partir dela, preparar o caminho para Marte.
Em um mundo atravessado por crises, conflitos e incertezas, o avanço silencioso da Artemis II lembra algo essencial: a humanidade continua olhando para o céu não apenas em busca de respostas, mas de futuro.
- Fonte: NASA – Programa Artemis
Apoie o blog Sulpost — contribua via PIX: (41) 99281-4340
e-mail: sulpost@outlook.com.br

Nenhum comentário:
Postar um comentário