Organização investe em pesquisa, capacitação e plataformas digitais para proteger práticas culinárias transmitidas entre gerações, reconhecendo a gastronomia como patrimônio cultural e vetor de desenvolvimento sustentável
As receitas de um povo contam histórias que vão muito além da comida. Elas carregam memórias familiares, conhecimentos ancestrais, celebrações coletivas e modos de vida que atravessam gerações. É com essa perspectiva que a UNESCO está ampliando seu trabalho no Senegal para preservar o patrimônio gastronômico do país e fortalecer a transmissão das tradições alimentares como patrimônio cultural imaterial da humanidade.
Anunciada nesta segunda-feira (3), a iniciativa reúne pesquisa científica, capacitação de comunidades, documentação de boas práticas e o desenvolvimento de ferramentas digitais destinadas à valorização da culinária senegalesa.
Segundo a UNESCO, as práticas alimentares representam um dos principais elementos da identidade cultural dos povos. Elas abrangem todo o processo que envolve a obtenção dos ingredientes, os modos de preparo, os utensílios tradicionais, as celebrações e os momentos de convivência à mesa. Esse conjunto de conhecimentos fortalece os vínculos sociais, estimula a transmissão entre gerações e reforça o sentimento de pertencimento das comunidades.
Atualmente, cinquenta manifestações culturais relacionadas diretamente à alimentação, oriundas de 54 países, estão inscritas nas listas da Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial de 2003. Outras 153 manifestações reconhecidas em 96 países também mantêm ligação com práticas alimentares tradicionais.
Gastronomia como identidade nacional
No Senegal, esse patrimônio vivo é marcado pela diversidade regional e pela forte ligação com a história e os costumes locais. Para a UNESCO, a gastronomia senegalesa representa não apenas uma expressão cultural, mas também um importante instrumento de desenvolvimento sustentável.
Além de movimentar economias locais — especialmente por meio do trabalho das mulheres, consideradas as principais guardiãs desse conhecimento tradicional — a culinária fortalece a agricultura, a pesca, o turismo, amplia oportunidades econômicas e preserva a identidade cultural das comunidades.
O principal reconhecimento internacional ocorreu em 2021, quando o Ceebu Jën, prato tradicional preparado com arroz e peixe, foi inscrito na Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO.
Entretanto, a riqueza gastronômica do Senegal vai muito além desse prato. O inventário nacional do patrimônio imaterial reúne cerca de 17 elementos relacionados às práticas alimentares, incluindo festivais de colheita, canções, danças, utensílios tradicionais, conhecimentos agrícolas e rituais voltados para garantir boas pescarias, colheitas abundantes e a saúde dos rebanhos.
Capacitação para proteger tradições
Como parte do projeto, a UNESCO promoveu em 24 de março de 2026, em Dakar, um amplo workshop de formação voltado aos profissionais e representantes das comunidades responsáveis pela preservação do patrimônio culinário.
O encontro reuniu cerca de 30 participantes, entre representantes comunitários, especialistas em patrimônio cultural e diretores dos centros culturais das 14 regiões administrativas do Senegal.
Durante a capacitação foram debatidos os princípios da Convenção de 2003 para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial, métodos participativos de preservação e estratégias para fortalecer o envolvimento das próprias comunidades nas decisões relacionadas ao patrimônio gastronômico.
As discussões também permitiram mapear práticas culinárias representativas de todas as regiões do país e analisar os desafios enfrentados para preservar o Ceebu Jën, utilizando o prato como estudo de caso para identificar experiências bem-sucedidas de proteção cultural.
Pesquisa identifica desafios e oportunidades
Outro eixo da iniciativa concentra-se na produção de conhecimento científico. A UNESCO realizou um amplo estudo sobre as políticas públicas relacionadas ao patrimônio gastronômico senegalês, combinando pesquisa documental, trabalho de campo e consultas a diversos setores da sociedade.
Entre 21 e 25 de fevereiro de 2026, especialistas estiveram na cidade de Saint-Louis para documentar a cadeia produtiva do Ceebu Jën, ouvir cozinheiros tradicionais, pesquisadores, universidades, instituições culturais, profissionais da alimentação e representantes da sociedade civil.
O levantamento identificou mecanismos de transmissão dos conhecimentos culinários, dificuldades enfrentadas pelas comunidades e oportunidades para fortalecer a preservação desse patrimônio por meio da educação, da nutrição, do turismo sustentável e da economia criativa.
Como resultado, a UNESCO elaborou um relatório contendo 22 recomendações direcionadas aos formuladores de políticas públicas. As propostas abrangem aperfeiçoamento da legislação, fortalecimento institucional, melhor coordenação entre órgãos públicos e maior integração entre cultura, educação, agricultura, turismo e desenvolvimento econômico.
Plataforma digital para o patrimônio alimentar
As ações desenvolvidas no Senegal fazem parte do projeto internacional "Atlas Internacional e Plataforma Digital do Patrimônio Alimentar para Salvaguardar, Promover e Transmitir o Patrimônio Alimentar às Futuras Gerações", coordenado pela UNESCO e implementado em 16 países.
A iniciativa conta com financiamento do Ministério da Cultura do Reino da Arábia Saudita e integra o programa da UNESCO dedicado às relações entre cultura e tecnologias digitais.
Para a organização, a experiência senegalesa poderá servir de referência para outros países da África Ocidental, ampliando a preservação das tradições culinárias e demonstrando que a alimentação também constitui um patrimônio cultural capaz de fortalecer identidades, gerar renda, preservar conhecimentos ancestrais e promover o desenvolvimento sustentável.
Com informações da UNESCO - Licença CC
Achei maravilhoso, para preservar a Cultura e o desenvolvimento de um país!
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