Parlamentares governistas foram aos EUA defender nossa soberania, enquanto cresce a polêmica sobre a atuação internacional de aliados da família Bolsonaro junto ao governo Trump
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| Os jardins da Casa Branca, sede do poder nos EUA - MattWade/Wikimidia |
O debate sobre soberania nacional ganhou novos contornos nesta semana. Enquanto entrou em vigor a decisão do governo de Donald Trump de classificar o PCC e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas, uma delegação de parlamentares brasileiros desembarcou em Washington para apresentar às autoridades americanas uma visão diferente daquela defendida por setores da direita brasileira.
Formada pelos deputados Pedro Uczai (PT-SC), Jandira Feghali (PCdoB-RJ), Pedro Campos (PSB-PE) e André Janones (Rede-MG), a missão ocorreu entre os dias 3 e 5 de junho e teve como objetivo reafirmar a soberania brasileira, contestar tarifas impostas pelos Estados Unidos e defender a cooperação internacional no combate ao crime organizado sem interferências nos assuntos internos do Brasil.
O movimento ocorreu em meio à repercussão da decisão da Casa Branca de enquadrar duas das maiores facções criminosas do país como organizações terroristas, medida que passou a valer oficialmente nesta sexta-feira (5).
O efeito político e econômico
A classificação das facções brasileiras não ficou restrita ao campo da segurança pública. Poucos dias após o anúncio, o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos recomendou novas tarifas sobre produtos brasileiros, alegando supostas práticas comerciais desleais.
O documento também atacou o PIX, sistema de pagamentos criado pelo Banco Central do Brasil e amplamente utilizado por todos e todas nós, brasileiros e brasileiras. Segundo o governo americano, a ferramenta estaria reduzindo o espaço de empresas privadas de pagamentos internacionais, como Visa, Mastercard e WhatsApp Pay.
Na sequência, Washington anunciou a intenção de ampliar tarifas sobre importações de dezenas de países, incluindo o Brasil. O governo brasileiro rebateu as justificativas e classificou as medidas como protecionistas.
Especialistas ouvidos pela Agência Brasil alertam que o enquadramento das facções como organizações terroristas pode gerar impactos econômicos, afetar investimentos, dificultar operações financeiras e criar precedentes para pressões diplomáticas sobre o país.
A pergunta que ficou sem resposta
Além dos efeitos econômicos, a decisão americana abriu uma discussão que vem crescendo entre especialistas, jornalistas e observadores da política nacional.
Se o critério utilizado para classificar organizações criminosas como terroristas envolve o uso sistemático da violência, da intimidação e do controle territorial sobre populações civis, por que as milícias que atuam em diversas regiões do Rio de Janeiro ficaram fora da lista?
Investigações conduzidas ao longo dos últimos anos mostram que grupos milicianos exercem controle sobre bairros inteiros, explorando serviços de internet, transporte, gás, abastecimento de água e outras atividades econômicas. Em muitos casos, moradores relatam viver sob constante pressão e ameaça.
Apesar disso, o enquadramento promovido pelo governo Trump atingiu exclusivamente o PCC e o Comando Vermelho. A ausência das milícias na lista levantou questionamentos sobre os critérios adotados por Washington e alimentou um debate que está longe de terminar.
| Deputada Jandira Feghali - Lula Marques/ Agência Brasil |
Parlamentares defendem cooperação, não intervenção
Durante a visita aos Estados Unidos, os parlamentares brasileiros entregaram documentos a congressistas e instituições americanas defendendo o respeito à soberania nacional.
Segundo a deputada Jandira Feghali, um dos textos apresentados solicita cooperação internacional no combate ao tráfico de armas, tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e outras formas de crime organizado, mas rejeita qualquer tipo de intervenção externa em assuntos internos brasileiros.
Outro documento contesta as tarifas impostas ao Brasil e argumenta que as medidas possuem motivação política e carecem de fundamentação técnica.
Na Organização dos Estados Americanos (OEA), a missão também solicitou acompanhamento internacional das eleições brasileiras de 2026, incluindo monitoramento de crimes digitais, violência política e ataques à democracia.
De acordo com os integrantes da delegação, parlamentares americanos demonstraram receptividade às preocupações apresentadas pelo grupo.
A visão do Sulpost
A sequência dos acontecimentos chama atenção. Primeiro veio a articulação internacional de aliados da família Bolsonaro junto a setores próximos ao governo Trump. Depois, a classificação das facções brasileiras como organizações terroristas. Em seguida, surgiram novas pressões econômicas, críticas ao PIX e propostas de taxação de produtos brasileiros.
É legítimo que cidadãos e lideranças políticas mantenham relações internacionais. Também é legítimo que defendam suas posições ideológicas. O que provoca questionamentos é quando iniciativas políticas realizadas no exterior passam a produzir consequências econômicas e diplomáticas que atingem diretamente o Brasil.
Na avaliação editorial do Sulpost, a defesa dos interesses nacionais deve estar acima da polarização política e das disputas partidárias. Por isso, causa estranheza que medidas potencialmente prejudiciais à economia brasileira sejam comemoradas ou justificadas por setores políticos internos.
Também chama atenção o silêncio em relação às milícias cariocas, que seguem ausentes da narrativa construída por Washington, apesar do histórico de controle territorial e extorsão denunciado há anos por autoridades e pesquisadores.
À medida que o país se aproxima das eleições de 2026, o debate sobre soberania, segurança pública e influência estrangeira tende a ganhar ainda mais relevância. E uma pergunta permanece aberta: quem realmente se beneficia quando decisões tomadas fora do Brasil passam a influenciar diretamente a vida dos brasileiros?
É legítimo apoiar um pré-candidato a presidente que tem um irmão que abandonou a atividade parlamentar para morar nos Estados Unidos? É certo apoiar pessoas brasileiras que produzem um filme com o nome em inglês, e filmam no estrangeiro, para contar a história de um ex-presidente brasileiro, hoje presidiário? E as ligações das milícias e com as milícias, qual a dinâmica, quais os pesos e medidas adotados pela Casa Branca?

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