Das ruas do Centro à Polaquinha: a obra do Vampiro de Curitiba segue viva nas bibliotecas, nos palcos e na memória cultural da cidade
Curitiba amanhece diferente quando o calendário se aproxima de 14 de junho. O inverno se aproxima, fazendo as noites mais longas e os dias mais curtos. Época do ano mais feliz para o "Vampiro de Curitiba".
Não há cerimônia oficial capaz de traduzir completamente o que representa a ausência — e ao mesmo tempo a permanência — de Dalton Trevisan. Neste domingo, o escritor curitibano completaria 101 anos. Dalton fez sua passagem para o além em 2024, aos 99 anos, deixando uma obra que ultrapassa os limites da cidade de Curitiba e da literatura brasileira.
Seus personagens continuam caminhando pelas ruas da cidade, entrando em bares, atravessando praças e carregando as contradições humanas que ele observava como poucos. O homem que evitava entrevistas, recusava a fama e tinha verdadeira aversão a fotografias acabou se tornando um dos autores mais reconhecidos da língua portuguesa.
Ao longo da carreira, publicou mais de 50 livros, recebeu os prêmios Jabuti, Machado de Assis e Camões, além de ser homenageado postumamente com a Ordem do Mérito Cultural, a mais alta condecoração brasileira na área da cultura.
Mas talvez nenhum apelido tenha definido tão bem sua relação com Curitiba quanto aquele que nasceu de uma de suas próprias obras: o Vampiro de Curitiba.
A única vez em que Dalton escreveu um romance
Entre dezenas de coletâneas de contos, existe uma obra singular na trajetória do escritor. Publicado em 1985, A Polaquinha é o único romance escrito por Dalton Trevisan e também a primeira vez em que uma mulher ocupa o papel central de uma narrativa sua.
A protagonista é uma jovem que decide se prostituir para pagar os estudos. Ao longo da história, ela atravessa relacionamentos marcados por desejo, violência, afeto, culpa, paixão e solidão. Homens de diferentes classes sociais entram e saem de sua vida enquanto ela constrói uma espécie de educação sentimental pelas ruas de Curitiba.
O escritor Otto Lara Resende definiu essa jornada como uma busca atravessada por culpa, castigo, perdição e amor.
Mais de quatro décadas após o lançamento, A Polaquinha permanece como uma das portas de entrada mais importantes para quem deseja conhecer o universo literário de Dalton.
Quando Dalton virou fenômeno nos palcos
Se os livros ajudaram a eternizar seus personagens, o teatro fez com que eles ganhassem corpo diante do público. Em 1993, ano da inauguração do Teatro Novelas Curitibanas, estreou o espetáculo O Vampiro e a Polaquinha, adaptação inspirada na obra de Dalton Trevisan.
O resultado foi um fenômeno raro na cena cultural paranaense. Dirigida por Ademar Guerra, a montagem permaneceu quatro anos consecutivos em cartaz, acumulando mais de 800 apresentações e atraindo aproximadamente 100 mil espectadores.
O elenco reunia nomes que mais tarde se tornariam referências da dramaturgia paranaense e nacional, entre eles Lala Schneider, Nena Inoue, Hugo Duarte, Paulo Friebe, Rogério Delê, Marísia Brünning, Silvia Contursi e uma jovem atriz em início de carreira chamada Guta Stresser.
Anos depois, Guta conquistaria o país interpretando Bebel no seriado A Grande Família, da TV Globo, onde permaneceu por 14 anos.
Pouca gente sabe, mas Guta Stresser é prima de Dalton Trevisan. O parentesco vem da bisavó da atriz, Joanna Trevisan Sanson, que era tia do escritor. Uma conexão familiar que une dois nomes marcantes da cultura curitibana.
Mais de três décadas depois da estreia histórica, a influência daquela montagem permanece viva. O diretor Luiz Fiani, integrante do elenco original, atualmente conduz a releitura Que fim levou o Vampiro de Curitiba?, reafirmando a permanência da obra no imaginário cultural da cidade.
| Guta Stresser, em 1993, vivendo "A Plaquinha", de Dalton Trevisan - Foto: Gilson Camargo |
Curitiba guarda 467 livros de Dalton à espera de leitores
Quem deseja começar a ler Dalton Trevisan não precisa procurar muito. As bibliotecas municipais e Casas da Leitura de Curitiba mantêm atualmente 467 exemplares de obras do escritor disponíveis ao público.
Há títulos clássicos como A Polaquinha, O Vampiro de Curitiba, Em Busca da Curitiba Perdida e A Guerra Conjugal, além de edições raras preservadas na Casa da Memória, no Largo da Ordem.
Entre as raridades estão traduções internacionais lançadas em cidades como Nova York e Buenos Aires, prova de que o escritor que retratava becos, pensões e personagens anônimos da capital paranaense conquistou leitores muito além das fronteiras brasileiras.
Por onde começar a ler Dalton?
Para quem nunca teve contato com sua obra, especialistas em literatura curitibana costumam recomendar duas antologias: Antologia Pessoal, organizada pelo próprio autor nos últimos anos de vida, e Educação Sentimental do Vampiro, organizada por Caetano W. Galindo e Felipe Hirsch.
Já para quem deseja conhecer o Dalton em sua forma mais madura, uma indicação frequente é Cemitério de Elefantes, publicado em 1964.
E para entender a relação inseparável entre o escritor e a cidade, talvez não exista obra mais emblemática do que O Vampiro de Curitiba.
Ali estão a Praça Tiradentes, a Ponte Preta, as ruas do Centro e muitos dos cenários que permanecem reconhecíveis até hoje. Mas estão também as sombras, os desejos, as obsessões e o humor ácido que transformaram Dalton Trevisan em um cronista implacável da condição humana.
O escritor que virou parte da cidade
Dalton costumava dizer pouco. Preferia que seus personagens falassem por ele.
Talvez por isso sua ausência pareça menos definitiva do que a de outros escritores. Curitiba continua encontrando Dalton em suas esquinas, nos bancos das praças, nos corredores das bibliotecas e nos palcos dos teatros.
Aos 101 anos de seu nascimento, o Vampiro de Curitiba permanece exatamente onde sempre esteve: observando a cidade e seus habitantes através das páginas de seus livros. E talvez seja essa a forma mais rara de imortalidade que um escritor pode alcançar. E, afinal, reza a lenda que os vampiros são mesmo imortais.
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| O "Castelo do Vampiro", casa aonde Dalton Trevisan viveu por mais de 68 anos, na Ubaldino do Amaral com a Rua Amintas de Barros, no Alto da Glória, em Curitiba - Selfie: Ronald Sanson Stresser Junior |

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