Supremo quer rastrear destino de recursos enviados por parlamentares do PL para ONGs associadas à produtora do longa “Dark Horse”, cinebiografia ainda inédita do ex-presidente
| Ministro Flávio Dino - Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil |
Brasília amanheceu mais uma vez atravessada por uma pergunta que insiste em voltar ao centro da política brasileira: afinal, para onde está indo o dinheiro das emendas parlamentares?
Na sexta-feira (15), o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a abertura de uma investigação preliminar — e sob sigilo — para apurar o envio de recursos públicos a organizações ligadas à produtora responsável pelo filme Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro.
A decisão amplia uma ofensiva que já vinha sendo construída discretamente dentro do STF desde março, quando começaram a surgir suspeitas sobre o destino de verbas parlamentares destinadas a entidades culturais conectadas ao mesmo grupo empresarial responsável pela produção do longa.
No centro da apuração estão o Instituto Conhecer Brasil e a Academia Nacional de Cultura, duas ONGs associadas à produtora audiovisual Go Up Entertainment. Segundo as representações apresentadas pelos deputados Tabata Amaral e Pastor Henrique Vieira, parlamentares do PL teriam direcionado emendas para essas entidades enquanto elas mantinham vínculos com a produção do filme sobre Bolsonaro.
Entre os nomes citados aparecem os deputados Mário Frias, Bia Kicis e Marcos Pollon. Frias, ex-secretário especial de Cultura do governo Bolsonaro e um dos entusiastas do projeto cinematográfico, teria destinado cerca de R$ 2 milhões ao Instituto Conhecer Brasil entre 2024 e 2025.
O caso ganhou dimensão ainda maior depois que o site The Intercept revelou diálogos envolvendo o senador Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro. Segundo a reportagem, Flávio teria buscado apoio financeiro privado para concluir o filme, com negociações que chegariam a R$ 134 milhões.
Parte desse valor, segundo os relatos publicados, teria começado a circular antes da interrupção das tratativas. O senador nega irregularidades. Disse que não houve promessa de vantagem indevida e afirmou que os recursos discutidos eram privados.
Já a produtora Go Up Entertainment divulgou nota negando ter recebido dinheiro diretamente de Vorcaro ou do Banco Master.
Nos bastidores de Brasília, o episódio passou a ser tratado como mais um teste para a política de rastreabilidade das emendas parlamentares defendida por Dino no Supremo. Desde o auge das discussões sobre o chamado “orçamento secreto”, o ministro vem endurecendo exigências de transparência e cobrando identificação detalhada sobre a destinação de recursos públicos.
A representação apresentada ao STF sustenta que existiria um “ecossistema de pessoas jurídicas interconectadas”, expressão usada nos autos para descrever a relação entre ONGs, produtoras e empresas culturais associadas à mesma direção administrativa.
O receio apontado pelos parlamentares autores da denúncia é de que a estrutura tenha dificultado a rastreabilidade dos recursos.
Outro elemento que chamou atenção do Supremo foi a dificuldade para localizar Mário Frias. Oficiais de Justiça tentam, há semanas, intimar o deputado para prestar esclarecimentos. Diante da ausência, Dino solicitou à Câmara dos Deputados informações sobre os endereços residenciais do parlamentar em Brasília e São Paulo.
Enquanto isso, o filme Dark Horse — ainda não lançado — continua cercado por turbulência política antes mesmo de chegar às telas. O projeto, pensado para narrar a trajetória de Bolsonaro como fenômeno político nacional, acabou empurrado para o centro de uma investigação que mistura dinheiro público, financiamento privado, guerra ideológica e disputa de narrativa às vésperas do ciclo eleitoral de 2026.
E em Brasília, quando cinema, emenda parlamentar e campanha política começam a aparecer na mesma frase, dificilmente a história termina nos créditos finais. Agora é estourar pipoca e aguardar as cenas dos próximos capítulos.

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