Pronunciamento de Lula expõe a gravidade da violência contra mulheres no país, enquanto dados do Paraná mostram que políticas públicas podem reduzir os índices
| A patrulha Maria da Penha, da PMPR - Divulgação |
O Brasil amanhece neste Dia Internacional da Mulher com dois retratos sobrepostos. Um deles é o das homenagens. Flores nas mãos, mensagens nas redes sociais, discursos formais que lembram — com justiça — a força cotidiana das mulheres brasileiras.
O outro retrato é mais incômodo. E mais real. Ele aparece quando as estatísticas entram na conversa.
Na noite de sábado (7), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva levou esse retrato para a televisão em rede nacional de rádio e TV. Sem rodeios. Sem maquiagem.
Segundo os dados citados pelo presidente, o Brasil registrou em 2025 uma média de quatro mulheres assassinadas por dia vítimas de feminicídio.
“A cada seis horas, um homem mata uma mulher no Brasil. Cada feminicídio é resultado de uma soma de violências diárias, silenciosas e naturalizadas”, afirmou Lula.
É uma frase que pesa. Porque não descreve apenas um crime. Descreve um ciclo. O feminicídio raramente começa no momento do assassinato. Ele costuma nascer antes — em humilhações, ameaças, agressões psicológicas e físicas que se acumulam até o ponto de inflexão.
Mesmo com o agravamento da pena, que pode chegar a 40 anos de prisão, os crimes continuam acontecendo.
“Não podemos nos conformar”, afirmou o presidente. E ele está certo.
Quando o debate parece uma epidemia social
Nos últimos anos, os casos de violência contra mulheres passaram a ocupar espaço permanente no noticiário brasileiro.
Casos chocantes, investigações, campanhas públicas, mobilizações sociais. A sensação para muitos brasileiros é a de que o país enfrenta uma espécie de epidemia social — difícil de conter e profundamente enraizada na cultura, provavelmente trazida da Europa pelos primeiros colonizadores.
Foi dentro desse diagnóstico que o governo federal anunciou o chamado Pacto Nacional – Brasil contra o Feminicídio, uma articulação que envolve Executivo, Legislativo e Judiciário.
Entre as medidas anunciadas está um mutirão nacional coordenado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública para prender mais de dois mil agressores de mulheres que possuem mandados de prisão em aberto.
“Violência contra a mulher não é questão privada onde ninguém mete a colher. É crime. E vamos, sim, meter a colher”, afirmou Lula durante o pronunciamento.
Mas o Brasil não é um retrato único
O país é grande demais para caber em uma única fotografia. Enquanto o debate nacional muitas vezes apresenta o problema como algo quase insolúvel, algumas experiências regionais mostram que políticas públicas consistentes podem produzir resultados concretos.
Um exemplo recente vem do Paraná. Dados divulgados pela Secretaria da Segurança Pública apontam que o estado registrou queda de quase 40% nos feminicídios em janeiro de 2026 na comparação com o mesmo período do ano anterior.
Foram 13 casos em janeiro de 2025 contra oito registros no primeiro mês de 2026. A política de segurança implementada pelo governo estadual, sob gestão do governador Ratinho Junior, combina repressão policial, fortalecimento da rede de proteção e campanhas de conscientização.
Para o secretário de Segurança Pública, Hudson Leôncio Teixeira, a tendência indica que o caminho adotado começa a apresentar resultados.
“Embora toda morte nos cause tristeza sempre, a curva de queda nos mostra que estamos no caminho certo”, afirmou.
Outros indicadores também apresentam redução
A tendência de queda no Paraná não aparece apenas nos feminicídios. Os casos de estupro também registraram recuo importante no início de 2026. Em janeiro do ano passado foram contabilizadas 549 ocorrências. No mesmo mês deste ano, o número caiu para 430 — uma redução superior a 21%.
Já a violência doméstica apresentou queda mais discreta, mas ainda significativa: foram 6.722 registros em janeiro de 2025 contra 6.687 em janeiro de 2026. São 35 casos a menos.
Especialistas lembram que esses números precisam sempre ser analisados com cautela, pois o aumento da conscientização muitas vezes leva mais mulheres a denunciar, o que pode alterar as estatísticas. Outro fator é o aumento de ocorrências devido à histeria coletiva criada pelo aumento deste crime terrível e chocante, que é a violência contra a mulher.
Simples discussões entre casais também têm sido alvo de investigações, diligências e investiduras da polícia. Parentes e vizinhos acionam o 190 quando escutam casais trocando insultos. Há muitos registros de ocorrências que na verdade não passaram de discussões acaloradas, com troca de xingamentos mútuos.
Nesses casos, uma vez verificado que não houve agressão é vida que segue. Entretanto o número de chamadas é muito maior do que o número de agressões reais, isto pode causar deslocamento desnecessário de viaturas e forças policiais, que poderiam estar atendendo outras ocorrências.
Informação também salva vidas
Uma das iniciativas destacadas no Paraná é o programa Mulher Segura, que realiza palestras e ações educativas em diferentes regiões do Paraná. Quase 224 mil pessoas já participaram das atividades, que abordam igualdade de gênero, respeito e identificação de sinais de violência.
A proposta é simples: informação e orientação também protegem. Quando mulheres conhecem seus direitos e sabem onde buscar ajuda, o silêncio que protege agressores começa a se quebrar salvando vidas.
Entre o alerta e a esperança
O pronunciamento do presidente Lula cumpre um papel importante ao manter o tema no centro do debate nacional. O feminicídio continua sendo uma tragédia social que não pode ser ignorada. Ao mesmo tempo, experiências como a do Paraná mostram que a realidade brasileira não é imutável.
Quando políticas públicas são levadas a sério — com prevenção, investigação e proteção às vítimas — os números começam a mudar.
Neste Dia Internacional da Mulher, talvez a maior homenagem não esteja nas flores ou nos discursos protocolares. Ela está na construção silenciosa de um país onde mulheres possam caminhar pelas ruas, voltar para casa e simplesmente viver. Sem medo. Sem violência. Com amor.

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