terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Ligações que não cessam: quando o telefone vira fonte de ansiedade para milhões de brasileiros

Telemarketing agressivo, cobranças automatizadas e golpes com números mascarados transformam um gesto simples — atender o telefone — em um momento de dúvida, interrupção e desgaste cotidiano

O telefone toca. Mais uma vez.

Quem está do outro lado já não é uma curiosidade — é uma incerteza. Pode ser silêncio, uma gravação, uma oferta insistente, uma cobrança repetida ou, pior, uma tentativa de golpe se alguém tentando se passar por  instituição bancária. Para milhões de brasileiros, essa sequência se repete todos os dias, atravessando trabalho, refeições, descanso e tempo em família. Uma verdadeira tortura.

O que antes era eventual tornou-se rotina. Há quem silencie o aparelho. Há quem atenda por obrigação. Existem os que vão bloqueando números à medida que as ligações vão chegando, mas parece que as operadoras se associaram a esse tipo de "serviço" que tira o sono, a vida particular, o trabalho e até causa problemas familiares para tanta gente no Brasil.

Relatórios de consumo, dados regulatórios e o volume crescente de reclamações mostram que o país convive com uma presença constante de chamadas indesejadas. Não se trata de um único fenômeno, mas de um ecossistema: telemarketing agressivo, pessoas que dizem representar escritórios de advocacia ou bancos, discadores automáticos, cobranças insistentes e operações fraudulentas que utilizam números mascarados.

No cotidiano, a diferença entre contato legítimo e perturbação deixou de ser clara para o cidadão comum. As ligações telefônicas indesejadas viraram território sem lei, sem regulamentação e ninguém parece dar a mínima. As pessoas simplesmente já não atendem mais ligações convencionais, pois reina a desconfiança onde deveria haver segurança.

Empresas podem ligar — isso é parte da dinâmica econômica. Mas quando a frequência se torna excessiva, quando o número muda a cada chamada e quando a identificação não existe, o telefone deixa de ser canal de comunicação e passa a ser fonte de desgaste mental ao ponto de gerar sofrimento emocional.

O cidadão e a cidadã se sentem impotentes perante esse rolo compressor de ligações em massa. É nesse ponto que a experiência individual se transforma em debate público.

Nos últimos anos, o problema passou a ser tratado de forma mais explícita pelo Estado. A atuação da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) incluiu bloqueios de robocalls de curtíssima duração, regras de identificação para telemarketing — como o prefixo 0303 — e a implantação gradual de mecanismos técnicos para autenticação de chamadas. Mesmo assim as reclamações crescem de maneira assustadora e o desgaste emocional do povo parece está gerando até síndrome de tourette na população.

Quando as pessoas ficam impotentes fazem o quê? Começam a soltar impropérios e a xingar quem perturba. Autodefesa é um instinto humano. Mas por que o governo permite que isso continue quando a população sofre?

As medidas produziram efeito. Parte do telemarketing massivo formal diminuiu. Ainda assim, a sensação social de que “não para” permanece. É uma verdadeira violação da vida privada cidadã, um total desrespeito ao próximo. Um tiro no pé para as operadoras de telefonia móvel e fixa.

A explicação é estrutural. A tecnologia para disparar chamadas em massa é barata e escalável. Números podem ser trocados rapidamente. Chips descartáveis são comuns. A origem pode ser mascarada. Na prática, a inovação técnica avança mais rápido que a capacidade de controle, exigindo constante atualização.

Existe também uma zona cinzenta. Ligações classificadas como cobrança, relacionamento ou atualização cadastral nem sempre seguem as mesmas regras de identificação. Especialistas apontam que essa fronteira — legítima em alguns casos — também cria espaço para abordagens insistentes e para a confusão do consumidor no que hoje se trata da maioria dos casos de spam telefônico no Brasil.

No campo criminal, a resposta costuma chegar depois do dano. A polícia atua quando há fraude comprovada, mas a ligação insistente isoladamente tende a gerar responsabilização administrativa ou civil. Esse descompasso ajuda a explicar por que a percepção de impunidade se espalha. Fazendo com que pareça criminosa a pessoa que está sendo vítima dos perturbadores e não os próprios spammers, que parecem querer atravessar a linha tênue do stalking, crime de perseguição segundo o Código Penal.

No Congresso Nacional, o tema permanece em discussão. Propostas incluem autenticação obrigatória universal de chamadas, responsabilização mais clara de empresas e operadoras e endurecimento contra o uso de identificação falsa, ou não identificação. É um debate técnico, econômico e político — e, ao mesmo tempo, profundamente cotidiano, mas a Constituição Federal prevê que é livre a expressão do pensamento, sendo vedado o anonimato.

Porque, no fundo, a questão não é apenas regulatória. É humana. São seres humanos sendo perseguidos por robôs representantes de empresas que parecem transitar na obscuridade, no limbo do sistema jurídico e financeiro do país. Como se a telefonia 5G no Brasil tivesse sido implantada para se tornar um velho oeste, uma terra de ninguém.

Quando o telefone toca dez vezes por dia sem explicação, a interrupção não é só sonora. Ela afeta concentração, gera desconfiança e altera a relação das pessoas com uma ferramenta essencial da vida moderna. É perturbadora.

Colocar em xeque esse modelo não significa rejeitar a comunicação comercial. Significa perguntar quais limites tornam essa comunicação aceitável. Transparência, consentimento real, limites de frequência e autenticação técnica aparecem como caminhos possíveis — e urgentes.

Não adianta ver um site do governo federal que você se cadastra para não receber ligações mas mesmo assim continua a receber através de números apócrifos, de maneira muito semelhante com usada por spammers no disparo de e-mails em massa, sem optout, ou seja, sem escapatória.

Até que essas mudanças se consolidem, o país convive com um paradoxo silencioso: o telefone continua sendo um dos instrumentos mais importantes de conexão — e, ao mesmo tempo, uma das fontes mais persistentes de perturbação. Ano de eleição todo mundo sabe que é difícil surgir legislação que combata isso, então fica a pergunta: até quando vão abusar da nossa paciência?

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