"Levantou a história eleitoral dele": Temer diz que críticas dos EUA fortaleceram Lula
Por Ronald Stresser | Sulpost

O ex-presidente Michael Temer no programa Roda Viva - Foto: Nadja Kouchi

Na noite de segunda-feira, 15 de setembro, o ex-presidente Michel Temer avaliou, no Roda Viva, que as críticas do governo dos Estados Unidos ao sistema judiciário brasileiro acabaram beneficiando politicamente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Para Temer, a reação brasileira à postura de Washington reforçou o discurso de soberania que o atual mandatário soube transformar em capital eleitoral.
A fala de Temer atravessa o sentimento de quem acompanha a política por dentro: diante de uma acusação externa, as fortes referências à defesa da nação soam como um apelo imediato à identidade do eleitorado. "Esse gesto dos EUA recuperou a figura do Lula, invocou-se soberania nacional, 'aqui ninguém põe o pé, etc'. Levantou a história eleitoral do Lula", disse o ex-presidente durante a entrevista.
Não é apenas um jogo de palavras: é a leitura de um movimento político que transforma crise diplomática em narrativa interna. O episódio — e a forma como foi explorado politicamente — mostra que a política externa, quando posta em confronto público, reverbera diretamente nas escolhas do eleitor. Fontes ouvidas por esta reportagem destacam que, em situações de ataque externo, a reação popular tende a reforçar lideranças que se apresentam como defensoras da soberania.
"Nessas questões, não se deve pensar em uma questão eleitoral, deve se pensar no Brasil. Eu telefonaria para o Trump. O diálogo é fundamental."
Mesmo reconhecendo a vantagem política obtida por Lula, Temer criticou abertamente o tom adotado pelo presidente. Ele sugeriu que, em seu lugar, teria optado por buscar um canal direto de comunicação com o governo norte-americano — um gesto pragmático que, segundo ele, poderia dessensibilizar a crise e preservar interesses nacionais sem transformá-los em espetáculo eleitoral.
Uma carta que inflama
Outro ponto que suscitou incômodo foi a carta publicada por Lula no New York Times no domingo, 14 de setembro. No texto, o presidente qualifica a postura norte-americana como desonesta e falsa — um teor que, para Temer, teve mais objetivo interno do que efeito diplomático. "Lamento dizer, mas esta carta foi provocativa, foi uma carta para o povo brasileiro. Lá na carta é dito que Trump é desonesto, que é falso", afirmou o ex-presidente.
Esse contraste — entre o enfrentamento público e a busca pelo diálogo — expõe uma tensão recorrente na história diplomática do país: a necessidade de conciliar defesa de princípios com a gestão pragmática de interesses externos. Enquanto um lado aposta na reafirmação simbólica da soberania, outro aponta para o valor das conversas reservadas e da negociação direta.
O cenário político
Para analistas consultados por esta reportagem, o episódio reforça que a disputa eleitoral e a política externa se entrelaçam de maneiras cada vez mais estreitas. A mensagem externa — e a reação a ela — não circula apenas entre chancelerias; ela entra na sala de estar dos eleitores, nas redes sociais e nas manchetes que moldam percepções.
No curto prazo, as declarações públicas contra Brasília serviram de combustível para uma narrativa nacionalista que beneficia lideranças que souberam capitalizá-la. No médio prazo, porém, persiste a preocupação com as consequências práticas dessas escaladas: relações comerciais, investimentos e diálogos multilaterais que podem ficar fragilizados por gestos simbólicos e retóricos.
Entre a emoção e o pragmatismo
A interpretação de Temer é um convite à reflexão sobre prioridades: quando a liderança opta por uma resposta dura, ela fala para o coração do eleitor; quando opta pelo diálogo, busca reduzir riscos e proteger interesses concretos. Ambos os caminhos têm custos e efeitos políticos — e a decisão sobre qual seguir revela muito da visão estratégica de cada dirigente.
Ao final da entrevista, o recado de Temer foi simples e direto: defender a nação não precisa excluir o telefone e a conversa reservada. "Você sabe que eu acho que ele atenderia o telefone. E se atende, começa um diálogo", completou.
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