Itaipu começa a montagem de sua primeira usina solar flutuante: um novo capítulo na transição energética
Por Ronald Stresser • Sulpost
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| O primeiro conjunto de 132 painéis já foi fixado no reservatório — projeto-piloto terá 1.584 módulos distribuídos em dez segmentos — Divulgação/Itaipu |
Sob o sol que reflete nas águas do imenso reservatório, um movimento silencioso começou a mudar a paisagem de Itaipu. Nesta semana, a hidrelétrica — já reconhecida mundialmente por sua grandiosidade — iniciou a montagem de sua primeira usina solar flutuante experimental. É como se a gigante das águas estendesse os braços também para o céu, acolhendo a energia do sol.
O primeiro conjunto de 132 painéis fotovoltaicos já foi instalado sobre flutuadores, fixados com cuidado na lâmina d'água. Eles são a semente de um projeto maior: ao todo, serão 1.584 módulos, apoiados por 4.199 flutuadores, formando uma ilha solar com capacidade instalada de 1 megawatt-pico (MWp). Essa potência seria suficiente para abastecer cerca de 650 casas — embora, neste momento inicial, toda a energia gerada seja destinada ao consumo interno da própria Itaipu.
Inovação que conversa com a operação
Para Enio Verri, diretor-geral brasileiro de Itaipu, o projeto é mais do que uma experiência técnica: é um símbolo.
“Esta experiência reforça o papel de Itaipu como promotora da inovação no setor elétrico e na transição energética. Projetos como este nos ajudam a entender como as novas tecnologias podem dialogar com a operação da usina, sem interferir na sua missão principal de gerar energia hidrelétrica segura, firme e sustentável.” — Enio Verri
A iniciativa traduz uma busca por complementaridade entre fontes renováveis: as águas que já movem turbinas agora recebem uma instalação solar que pode agregar flexibilidade e ganhos operacionais — um gesto prático diante da urgência climática e das demandas por diversificação da matriz elétrica.
Teste, aprendizado e escalabilidade
O projeto-piloto foi vencido por um consórcio binacional formado pela brasileira Sunlution e a paraguaia Luxacril, em proposta de US$ 854,5 mil. Os equipamentos contam com certificações internacionais, têm vida útil estimada em 30 anos e foram projetados para resistir a condições climáticas adversas. O sistema ficará conectado à subestação da margem paraguaia, próxima ao local de instalação.
Rogério Meneghetti, superintendente de Energias Renováveis da Itaipu, resume a abordagem: “Estamos convertendo planejamento em realidade. Este é um projeto experimental que vai nos ajudar a entender os desafios técnicos, ambientais e de integração com a nossa rede interna e a comparar a eficiência entre geração em solo e sobre a água.”
O caráter experimental é deliberado: cada etapa será testada antes de qualquer decisão de ampliação. É um aprendizado que passa pela engenharia, pela logística de instalação sobre a lâmina d'água, pela durabilidade dos materiais e pelo monitoramento ambiental. São perguntas práticas — e decisivas — para saber até que ponto a tecnologia pode ser replicada em escala.
O potencial — e os limites — de um lago tão vasto
Meneghetti ainda chama atenção para uma cifra que impressiona: teoricamente, se 10% do espelho d'água do lago de Itaipu fosse ocupado por placas fotovoltaicas, a capacidade instalada seria equivalente à da própria hidrelétrica — cerca de 14 mil megawatts. É um dado teórico, que serve mais como alerta do potencial técnico do reservatório do que como plano imediato.
Essa hipótese abre duas reflexões: primeiro, sobre o enorme espaço físico que reservatórios como o de Itaipu representam para a geração solar; segundo, sobre a complexidade de transformar números teóricos em decisões práticas, que envolvem impactos ambientais, navegação, direitos consuetudinários e planejamento binacional.
Uma paisagem que muda passo a passo
Enquanto os técnicos alinham cada módulo, peça por peça, o que surge diante dos olhos é mais do que estrutura: é um capítulo vivo da transição energética. A imagem dos painéis refletindo no reservatório conjuga técnica e poesia — mas, sobretudo, lembra que inovação é também responsabilidade. Testar, medir e avaliar serão as tarefas centrais dos próximos meses.
No fundo, o que se ergue sobre a água é uma promessa: a de que as energias renováveis podem conviver e se somar, que tradição e modernidade podem caminhar juntas, e que Itaipu, monumento da engenharia hidrelétrica, pode também ser palco de experimentos que apontam para um futuro mais diversificado e resiliente.

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